Cabeças-Duras.
No Império Romano surgiu aquela maneira nem um pouco gentil
de se bater à porta de uma fortaleza: o aríete.
Olhem a ideia de um excêntrico padrinho fazendeiro: deu ao
afilhado, como animal de estimação, um carneirinho – vivinho e saltitante.
Detalhe: a família do garoto morava num apartamento térreo no bairro São Lucas.
Como era de se esperar, não funcionou. Além de despejar centenas de bolinhas de
cocô pela área útil, o bicho metia a cabeça onde cismava. Armários,
criados-mudos, utensílios domésticos, cristaleiras e seus frágeis recheios –
incluindo bibelôs e porta-retratos – jaziam por terra, em cacos, ao final do
dia. Após uma semana, antes que derrubasse também um casamento, o carneirinho
foi levado de volta à roça.
No Império Romano surgiu aquela maneira nem um pouco gentil
de se bater à porta de uma fortaleza: o aríete. A turma arrumava um tronco de
árvore bem duro; cortava-o na medida e pendurava-o numa armação sobre rodas.
Nas batalhas, arrastavam a trapizonga até o castelo inimigo. Lá os soldados iam
socando a porta e os muros com o peso do tronco, até rompê-los.
Um talentoso guerreiro com pendores artísticos – talvez para
sair do tédio enquanto a guerra não começava – talhou a dianteira de uma tora,
esculpindo ali uma cabeçona de carneiro. Boa inspiração. Como sabemos e também
foi reforçado no episódio acima, carneiro tem a testa dura pra caramba e adora
testá-la (ops!) contra árvores, objetos e cabeças de outros carneiros.
Num papo ameno com um amigo versado em astrologia,
lembrou-me ele que o primeiro signo do zodíaco é Áries – representado por um
carneiro robusto. Por isso, Áries é, simbolicamente, o signo dos começos, do
impulso inicial para se obter algo, companheiro ideal para ir longe partindo do
zero. É a arrancada, o rompimento da situação anterior, a força necessária para
vencer a inércia e pôr-se em movimento.
O amigo astrólogo de horas vagas citou-me algumas analogias
divertidas que circulam por aí ligando o recente cenário político brasileiro ao
tal aríete. Pode ser apenas fruto da imaginação exacerbada dos eleitores do
presidente, ponderou. O fato é que seus entusiastas afirmam ter sido Bolsonaro
a opção perfeita no dramático momento de transição que o país viveu. Segundo o
raciocínio da turma, ele agiu como um aríete, derrubando o portão e rachando a
muralha protegida anos a fio por governos similares. Tinha de ser desse jeito,
afirmam. E completam: ele abriu caminho à força para mudanças profundas e
urgentes. Feito isto, a seguir virão outros presidentes menos brigões, menos
cabeças-duras. Assim também espero.
O papo gerou minha pauta desta quinta. Com o bom-humor
possível que prezo para não me afogar na insana polarização vigente, fiz
exercícios criativos imaginando como se comportariam os últimos candidatos à
Presidência – metaforicamente – na luta para conquistar a fortaleza do poder.
Amoêdo, no pragmatismo dos executivos, exibiria uma
fantástica apresentação digital em telão. Provaria aos inimigos que os gráficos
do “break even point” indicavam a inevitável rendição aos modelos capitalistas
modernos. Funcionou? Naninha.
Alckmin, elegante, solicitaria repetidamente que lhe
abrissem o portão, por favor, prometendo as alianças estapafúrdias e os acordos
esquisitos de sempre. Fracassou.
Ciro Gomes dirigiria palavrões e gestos obscenos aos
adversários, sem resultados. Terminada a batalha, ficaria ali ainda por um ano,
discursando, batendo no peito e salpicando a parca audiência com uma chuva de
perdigotos.
Havia ainda o Haddad. Para ele, seria mole: já tinha a cópia
da chave, bem escondida. Entraria no castelo ouvindo aplausos da minoria de
dentro e as vaias da maioria de fora.
É tudo brincadeira, claro; cronista também se diverte
enquanto escreve. Finalizando, fui conferir a biografia do Bolsonaro.
Coincidência danada: ele é do signo de Áries. (Fernando Fabbrini)
Judeus de seis braços.
Segunda-feira à noite, em Barcelona. No restaurante, uma
centena de advogados e juízes. Eles se encontraram para ouvir minhas opiniões
sobre o conflito do Oriente Médio. Eles sabem que eu sou um barco heterodoxo,
no naufrágio do pensamento único, que reina em meu país, sobre Israel. Eles
querem me escutar. Alguém razoável como eu, dizem, por que se arrisca a perder
a credibilidade, defendendo os maus, os culpados? Eu lhes falo que a verdade é
um espelho quebrado, e que todos nós temos algum fragmento. E eu provoco sua
reação: "todos vocês se sentem especialistas em política internacional,
quando se fala de Israel, mas na realidade não sabem nada. Será que se
atreveriam a falar do conflito de Ruanda, da Caxemira, da Chechenia?".
Não. São juristas, sua área de atuação não é a geopolítica.
Mas com Israel se atrevem a dar opiniões. Todo mundo se atreve. Por quê? Porque
Israel está sob a lupa midiática permanente e sua imagem distorcida contamina
os cérebros do mundo. E, porque faz parte da coisa politicamente correta,
porque parece solidariedade humana, porque é grátis falar contra Israel. E,
deste modo, pessoas cultas, quando leem sobre Israel estão dispostas a
acreditar que os judeus têm seis braços, como na Idade Média, elas acreditavam
em todo tipo de barbaridades. Sobre os judeus do passado e os israelenses de
hoje, vale tudo.
A primeira pergunta é, portanto, por que tanta gente
inteligente, quando fala sobre Israel, se torna idiota. O problema que temos,
nós que não demonizamos Israel, é que não existe debate sobre o conflito, existe
rótulo; não se troca ideias, adere-se a slogans; não desfrutamos de informações
sérias, nós sofremos de jornalismo tipo hambúrguer, fast food, cheio de
preconceitos, propaganda e simplismo.
O pensamento intelectual e o jornalismo internacional
renunciaram a Israel. Não existem. É por isso que, quando se tenta ir mais além
do pensamento único, passa-se a ser o suspeito, o não solidário e o
reacionário, e o imediatamente segregado. Por quê? Eu tento responder a esta
pergunta há anos: por quê? Por que de todos os conflitos do mundo, só este
interessa? Por que se criminaliza um pequeno país, que luta por sua
sobrevivência? Por que triunfa a mentira e a manipulação informativa, com tanta
facilidade? Por que tudo é reduzido a uma simples massa de imperialistas assassinos?
Por que as razões de Israel nunca existem? Por que as culpas palestinas nunca
existem? Por que Arafat é um herói e Sharon um monstro? Em definitivo, por que,
sendo o único país do mundo ameaçado com a destruição é o único que ninguém
considera como vítima?
Eu não acredito que exista uma única resposta a estas
perguntas. Da mesma forma que é impossível explicar a maldade histórica do
antissemitismo completamente, também não é possível explicar a imbecilidade
atual do preconceito anti-Israel. Ambos bebem das fontes da intolerância, da
mentira e do preconceito. Se, além disso, nós aceitarmos que ser anti-Israel é
a nova forma de ser antissemita, concluímos que mudaram as circunstâncias, mas
se mantiveram intactos os mitos mais profundos, tanto do antissemitismo cristão
medieval, como do antissemitismo político moderno. E esses mitos desembocam no
que se fala sobre Israel. Por exemplo, o judeu medieval que matava as crianças
cristãs para beber seu sangue, se conecta diretamente com o judeu israelense
que mata as crianças palestinas para ficar com suas terras. Sempre são crianças
inocentes e judeus de intenções obscuras.
Por exemplo, a ideia de que os banqueiros judeus queriam
dominar o mundo através dos bancos europeus, de acordo com o mito dos
Protocolos (dos Sábios de Sião), conecta-se diretamente com a ideia de que os
judeus de Wall Street dominam o mundo através da Casa Branca. O domínio da
imprensa, o domínio das finanças, a conspiração universal, tudo aquilo que se
configurou no ódio histórico aos judeus, desemboca hoje no ódio aos
israelenses. No subconsciente, portanto, fala o DNA antissemita ocidental, que
cria um eficaz caldo de cultura. Mas, o que fala o consciente? Por que hoje
surge com tanta virulência uma intolerância renovada, agora centrada, não no povo
judeu, mas no estado judeu? Do meu ponto de vista, há motivos históricos e
geopolíticos, entre eles o sangrento papel soviético durante décadas, os
interesses árabes, o antiamericanismo europeu, a dependência energética do
Ocidente e o crescente fenômeno islâmico.
Mas também surge de um conjunto de derrotas que nós sofremos
como sociedades livres e que desemboca em um forte relativismo ético. Derrota
moral da esquerda. Durante décadas, a esquerda ergueu a bandeira da liberdade,
onde houvesse injustiça, e foi a depositária das esperanças utópicas da
sociedade. Foi a grande construtora do futuro. Apesar da maldade assassina do
stalinismo ter afundado essas utopias e ter deixado a esquerda como o rei que
estava nu, despojado de trajes, ela conservou intacta sua auréola de lutadora,
e ainda dita as regras do que é bom e ruim no mundo. Até mesmo aqueles que
nunca votariam em posições de esquerda, concedem um grande prestígio aos
intelectuais de esquerda, e permitem que sejam eles os que monopolizam o conceito
de solidariedade. Como fizeram sempre. Deste modo, os que lutavam contra
Pinochet, eram os lutadores pela liberdade, mas as vítimas de Castro são
expulsas do paraíso dos heróis e transformadas em agentes da CIA, ou em
fascistas disfarçados.
Da mesma forma que é impossível explicar a maldade histórica
do antissemitismo completamente, também não é possível explicar a imbecilidade
atual do preconceito anti-Israel. Ambos bebem das fontes da intolerância, da
mentira e do preconceito.
Eu me lembro, perfeitamente, como, quando era jovem, na
Universidade combativa da Espanha de Franco, ler Solzhenitsyn era um horror! E
deste modo, o homem que começou a gritar contra o buraco negro do Gulag
stalinista, não pôde ser lido pelos lutadores antifranquistas, porque não
existiam as ditaduras de esquerda, nem as vítimas que as combatiam.
Essa traição histórica da liberdade se reproduz no momento
atual, com precisão matemática. Também hoje, como ontem, essa esquerda perdoa
ideologias totalitárias, se apaixona por ditadores e, em sua ofensiva contra
Israel, ignora a destruição de direitos fundamentais. Odeia os rabinos, mas se
apaixona pelos imãs; grita contra o Tzahal (Exército israelense), mas aplaude
os terroristas do Hamas; chora pelas vítimas palestinas, mas rejeita as vítimas
judias; e, quando se comove pelas crianças palestinas, só o faz se puder acusar
os israelenses. Nunca denunciará a cultura do ódio, ou sua preparação para a
morte, ou a escravidão que suas mães sofrem. E enquanto iça a bandeira da
Palestina, queima a bandeira de Israel.
Um ano atrás, eu fiz as seguintes perguntas no Congresso do
AIPAC (Comitê de Assuntos Públicos EUA-Israel) em Washington: "Que
profundas patologias alijam a esquerda de seu compromisso moral? Por que nós
não vemos manifestações em Paris, ou em Barcelona, contra as ditaduras
islâmicas? Por que não há manifestações contra a escravidão de milhões de
mulheres muçulmanas? Por que eles não se manifestam contra o uso de
crianças-bomba, nos conflitos onde o Islã está envolvido? Por que a esquerda só
está obcecada em lutar contra duas das democracias mais sólidas do planeta, e
as que sofreram os ataques mais sangrentos, os Estados Unidos e Israel?”
Porque a esquerda, que sonhou utopias, parou de sonhar,
quebrada no muro de Berlim do seu próprio fracasso. Já não tem ideias, e sim
slogans. Já não defende direitos, mas preconceitos. E o preconceito maior de
todos é o que tem contra Israel. Eu acuso, portanto, de forma clara: a
principal responsabilidade pelo novo ódio antissemita, disfarçada de posições
anti-Israel, provém desses que deveriam defender a liberdade, a solidariedade e
o progresso. Longe disto, eles defendem os déspotas, esquecem suas vítimas e
permanecem calados perante as ideologias medievais que querem destruir a
civilização. A traição da esquerda é uma autêntica traição à modernidade.
Derrota do jornalismo. Temos um mundo mais informado do que
nunca, mas nós não temos um mundo melhor informado. Pelo contrário, os caminhos
da informação mundial nos conectam com qualquer ponto do planeta, mas eles não
nos conectam nem com a verdade, nem com os fatos. Os jornalistas atuais não
precisam de mapas, porque têm o Google Earth, eles não precisam saber história,
porque têm a Wikipedia. Os jornalistas históricos que conheciam as raízes de um
conflito, ainda existem, mas são espécies em extinção, devorados por este
jornalismo tipo hambúrguer, que oferece fast food de notícias, para leitores
que querem fast food de informação.
Israel é o lugar mais vigiado do mundo e, ainda assim, o
lugar menos compreendido do mundo. Claro que, também influencia a pressão dos
grandes lobbys dos petrodólares, cuja influência no jornalismo é sutil, mas
profunda. Qualquer mídia sabe que se falar contra Israel não terá problemas.
Mas, o que acontecerá se criticar um país islâmico? Sem dúvida, então, sua vida
ficará complicada. Não nos confundamos. Parte da imprensa, que escreve contra
Israel, se veria refletida na frase afiada de Goethe: "Ninguém é mais
escravo do que aquele que se acha livre, sem sê-lo". Ou também em outra,
mais cínica de Mark Twain: "Conheça primeiro os fatos e logo os distorça
quanto quiser".
Derrota do pensamento crítico. A tudo isto, é necessário
somar o relativismo ético, que define o momento atual, e que é baseado, não na
negação dos valores da civilização, mas na sua banalização. O que é a
modernidade?
Pessoalmente a explico com este pequeno relato: se eu me
perdesse em uma ilha deserta, e quisesse voltar a fundar uma sociedade
democrática, só necessitaria de três livros: as Tábuas da Lei, que
estabeleceram o primeiro código de comportamento da modernidade. "O não
matarás, não roubarás", fundou a civilização moderna. O código penal
romano. E a Declaração dos Direitos Humanos. E com estes três textos,
começaríamos novamente. Estes princípios que nos endossam como sociedade, são
relativizados, até mesmo por aqueles que dizem defendê-los. "Não
matarás", depende de quem seja o objeto, pensam aqueles que, por exemplo,
em Barcelona, se manifestam aos gritos a favor do Hamas.
"Vivam os direitos humanos", depende de a quem se
aplica, e por isso milhões de mulheres escravas não preocupam. "Não
mentirás", depende se a informação for uma arma de guerra a favor de uma
causa. A massa crítica social se afinou e, ao mesmo tempo, o dogmatismo
ideológico engordou. Nesta dupla mudança de direção, os fortes valores da
modernidade foram substituídos por um pensamento fraco, vulnerável à
manipulação e ao maniqueísmo.
Derrota da ONU. E com ela, uma firme derrota dos organismos
internacionais, que deveriam cuidar dos direitos humanos, e que se tornaram
bonecos destroçados nas mãos de déspotas. A ONU só serve para que
islamofascistas, como Ahmadinejad, ou demagogos perigosos, como Hugo Chávez,
tenham um palco planetário de onde cuspir seu ódio. E, claro, para atacar Israel
sistematicamente. A ONU, também, vive melhor contra Israel.
Finalmente, derrota do Islã. O Islã das luzes sofre hoje o
ataque violento de um vírus totalitário, que tenta frear seu desenvolvimento
ético. Este vírus usa o nome de D'us para perpetrar os horrores mais
inimagináveis: apedrejar mulheres escravizá-las, usar grávidas e jovens com
atraso mental como bombas humanas, educar para o ódio, e declarar guerra à
liberdade. Não esqueçamos, por exemplo, que nos matam com celulares conectados,
via satélite, com a Idade Média. Se o stalinismo destruiu a esquerda, e o nazismo
destruiu a Europa, o fundamentalismo islâmico está destruindo o Islã. E também
tem, como as outras ideologias totalitárias, um DNA antissemita. Talvez o
antissemitismo islâmico seja o fenômeno intolerante mais sério da atualidade, e
não em vão afeta mais de 1,3 bilhões de pessoas educadas, maciçamente, no ódio
ao judeu.
Na encruzilhada destas derrotas, se encontra Israel. Órfão
de uma esquerda razoável, órfão de um jornalismo sério e de uma ONU digna, e
órfão de um Islã tolerante, o Estado de Israel sofre com o paradigma violento
do século XXI: a falta de compromisso sólido com os valores da liberdade. Nada
é estranho. A cultura judaica encarna, como nenhuma outra, a metáfora de um
conceito de civilização que hoje sofre ataques por todos os flancos. Vocês são
o termômetro da saúde do mundo. Sempre que o mundo teve febre totalitária,
vocês sofreram. Na Idade Média, o fascismo europeu, no fundamentalismo
islâmico, sempre o primeiro inimigo é Israel, que encarna, na própria carne, o
judeu de sempre.
Um pária de nação entre as nações, para um povo pária entre
os povos. É por isso que o antissemitismo do século XXI foi vestido com o
disfarce efetivo da crítica anti-Israel. Toda crítica contra Israel é
antissemita? Não. Mas, todo o antissemitismo atual transformou-se no
preconceito e na demonização contra o Estado Judeu. Um vestido novo para um
ódio antigo.
Benjamim Franklin disse: "Onde mora a liberdade, lá é a
minha pátria". E Albert Einstein acrescentou: "A vida é muito
perigosa. Não pelas pessoas que fazem o mal, mas por aquelas que ficam sentadas
vendo isso acontecer".
Este é o duplo compromisso aqui e hoje: nunca se sentar
vendo o mal passar e defender sempre as pátrias da liberdade. (Pilar Rahola, uma jornalista e colunista de perfil
conservador, ex-parlamentar espanhola representando a Catalunha)
“É muito melhor arriscar coisas grandiosas, alcançar
triunfo, glória, mesmo se expondo à derrota, do que formar fila com os pobres
de espírito que nem gozam muito, nem sofrem muito, porque vivem numa penumbra cinzenta que não conhece vitória nem
derrota.” (Theodore Roosevelt)
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