Professora Linda Guisoni fala na abertura de encontro da
Igreja Católica que debate o combate à pedofilia nas fileiras da própria Igreja
A Igreja precisa de mulheres. Em profusão. Inclusive na vida dos
padres. No encontro que termina neste domingo, intitulado “A proteção de
menores na Igreja”, os bispos ouviram pela primeira vez a exposição de uma…
mulher! Trata-se da professora de Direito Canônico Linda Ghisoni.
Ao saudá-la, o papa Francisco — certamente um bom homem e de
bons princípios — mostrou a inabilidade que tem a Igreja Católica, dita “A
Esposa de Cristo”, para lidar com as mulheres. Ficou claro que o ambiente
puramente masculino da hierarquia católica é tóxico à inteligência e à clareza.
Afirmou o Sumo Pontífice:
“Convidar
uma mulher a falar não é entrar no modo de um feminismo eclesiástico. Porque,
no final, todo feminismo acaba sendo um machismo de saia. Não. Convidar uma
mulher para falar sobre as feridas da Igreja é convidar a Igreja a falar sobre
si mesma, sobre as feridas que tem. E isso eu acho que é o passo que devemos
fazer com muita força: a mulher é a imagem da Igreja, uma esposa, uma mãe. Um
estilo. Sem esse estilo, falaríamos do povo de Deus, mas como uma organização,
talvez um sindicato, mas não como uma família parida pela mãe Igreja.”
Bem, nem todo feminismo é um “machismo de saia”, por óbvio.
Ademais, tomar a saia como metonímia na mulher já marca um distanciamento
importante da realidade. O papa reitera a metáfora conhecida que associa a
mulher à mãe, e está bem, mas confere a uma professora de Direito Canônico
menos o dom do pensamento do que a faculdade da maternidade. E quem falava era
uma especialista, uma estudiosa, uma cientista social. E, para tanto, a
existência do útero e de outras especificidades da mulher é irrelevante.
A mulher, inclusive a do padre, pode salvar a Igreja. Chegou a
hora de a Igreja aceitá-la para compreendê-la. Como resta evidente, ainda não
compreende.
Ai, ai… No dia 28 de outubro passado, um texto meu intitulado “O
desastre do celibato: São Pedro tinha sogra” completou 11 anos. Caminha
para 12. Voltei com força ao tema em 2009 e, depois, em 2010. Por quê? Ora, lá
estava a Igreja Católica a ser sacudida por denúncias de pedofilia — na maioria
das vezes, como é sabido, clérigos são acusados de molestar meninos e
adolescentes.
O papa Francisco comanda até domingo um encontro considerado
“histórico” com os bispos de todo o mundo para tratar do assunto. A Igreja dá,
assim, voz às vítimas. É justo e necessário. Mas tem tudo para ser também
inútil. Por quê? Há uma armadilha construída pelas circunstâncias que deixa a
Igreja refém de um pedido de desculpas permanente e de um processo de reparação
que não acaba nunca. Para romper tal padrão, só mesmo uma ação de natureza
disruptiva: o fim do celibato obrigatório. Vamos com calma. Explico.
Segundo o Annuarium Statisticum Ecclesiae 2016, a Igreja contava
com 466.634 clérigos, sendo 5.353 bispos, 414.969 sacerdotes e 46.312 diáconos
permanentes. Vamos lá. Se, neste momento, houver 1% dos chamados “molestadores”
entre eles, estamos falando de 4.667 pessoas. O número deve ser muito menor, ou
a avalanche de escândalos e denúncias seria ainda mais avassaladora. Quando se
debate o tema, pouco se considera que denúncias de períodos distintos vêm ao
mesmo tempo, trazidas a valor presente. Resultado: a Igreja acaba se
confundindo com um antro de molestadores. NÃO ESTOU TENTANDO MINIMIZAR A
GRAVIDADE. TANTO NÃO ESTOU QUE VOU MEXER NUM VESPEIRO. JUSTAMENTE PORQUE É
GRAVE.
Há mais. A Igreja Católica é a maior organização una do mundo.
Digam outra instituição ou ente que reúna tanta gente sob um mesmo comando. Não
há escândalo envolvendo molestadores evangélicos — e os há, não? — porque
inexiste uma unidade evangélica. Ou uma central de médicos, de caminhoneiros,
de padeiros etc. Ou por outra: o molestamento de crianças, de adolescentes e,
em grau muito menor, a julgar pelas histórias que vêm à luz, de mulheres é a
exceção, não a regra. Ocorre que a Igreja tem também muitos inimigos. E não há
espaço para ponderações.
Ou a Igreja sacode a sua própria história, em nome da conservação
dos seus valores, ou sua reputação continuará a ser minada por um
conservadorismo triste, que, de resto, nada tem a ver com seus dogmas. E, se
querem saber, sem nem mesmo amparo bíblico.
Volto neste conjunto de posts sobre à Igreja, às considerações que
já caminham para os 12 anos, quase a idade que tem este blog, que completa 13
no dia 24 de junho. A Igreja é bem mais antiga. Seus acertos e erros também.
A Igreja Católica modernizou-se em muitos aspectos. Numa mirada
histórica, mudou com velocidade considerável. Certos setores se encarregaram se
submeter até seus dogmas a um processo de laicização, de que a Teologia da
Libertação é expressão evidente, mas se aferra a algumas escolhas que atenderam
a conveniências de época e que hoje se mostram fonte de desgaste e de
humilhação. É o caso do celibato, instituído no ano 390 — portanto, ela viveu
quase quatro séculos sem ele. Sei que vou entrar numa pinima danada.
O fato é que o celibato é matéria apenas de interpretação, nada
mais. Torná-lo uma questão de princípio, como é a defesa da vida — e, por
exemplo, a rejeição ao aborto —, é superestimar uma (o celibato) e
rebaixar outra (a defesa da vida).
Na minha Bíblia —
e na sua também, leitor amigo —, São Pedro tem sogra. Sei que sou
aborrecidamente lógico às vezes, mas é de se supor que tinha ou teve uma
mulher. Está lá em Mateus 8:14-15:
“E Jesus, entrando em casa de Pedro, viu a sogra deste acamada, e
com febre. E tocou-lhe na mão, e a febre a deixou; e levantou-se, e serviu-os”.
“Esta é uma palavra fiel: se alguém deseja
o episcopado, excelente obra deseja. Convém, pois, que o bispo seja
irrepreensível, marido de uma mulher, vigilante, sóbrio, honesto, hospitaleiro,
apto para ensinar. Não dado ao vinho, não espancador, não cobiçoso de torpe
ganância, mas moderado, não contencioso, não avarento”
Os defensores radicais do celibato pretendem dar a estas palavras
um sentido diverso. Desculpem. Trata-se de forçar a barra. Na sequência, São
Paulo não deixa a menor dúvida (I Tim, 3:4-5):
“Que governe bem a sua própria casa, tendo seus filhos em sujeição,
com toda a modéstia. Porque, se alguém não sabe governar a sua própria casa,
terá cuidado da igreja de Deus?”
Não quero ser ligeiro. Sei bem que há outras passagens que
endossam o celibato. Mas fica claro que se trata de uma questão de escolha,
sim, não de fundamento; trata-se de um arranjo ditado pelas circunstâncias, não
de uma revelação.
O celibato foi certamente útil em tempos bem mais difíceis da
Igreja. A dedicação exclusiva à vida eclesiástica pode ter feito um grande bem
à instituição. Mas é evidente que se tornou um malefício, um perigo mesmo,
fonte permanente de desmoralização. A maioria dos padres, é possível, vive o
celibato e leva a sério o seu compromisso. Mas é claro que o sacerdócio também
se tornou abrigo de sexualidades alternativas, que não têm a mesma aceitação
social que tem o padrão heterossexual.
Que fique claro: não estou restringindo o comportamento impróprio
de padres a homossexuais, mas a esmagadora maioria reporta o assédio a meninos
e adolescentes do sexo masculino. Se queremos uma resposta, é preciso que se
reconheça o problema como é. OUTRA ADVERTÊNCIA: NÃO ESTOU TOMANDO A PEDOFILIA
COMO APANÁGIO DA HOMOSSEXUALIDADE. Isso é uma estupidez, derivada do
preconceito. Há pedófilos de todas as variedades. Mas aqui surge outra
evidência: parte considerável dos casos envolve adolescentes já em sua
maturidade sexual. Reconheça-se: não se trata de pedofilia, mas de prática
homossexual — e, como notam, o que faço aqui é distinguir as duas coisas em vez
de confundi-las. Quem busca sexo com um garoto de 15, 16, 17 anos, convenham,
não tem seu desejo voltado para crianças.
Por si, a condição de casado ou celibatário não faz uma pessoa ser
mais fiel ou menos aos princípios que abraçou. Mas é inegável que a exigência
do celibato acaba sendo, em muitos casos, uma solução socialmente aceitável
para muitos indivíduos que, de outro modo, teriam de se haver com explicações
nem sempre fáceis perante a família e a comunidade. Que importa que a
esmagadora maioria dos padres cumpra o seu compromisso? Bastam uns poucos para
produzir o desastre.
Há, ademais, considerações que seriam de ordem psicológica, que
não podem ser articuladas apenas com os números e a lógica. Impedir que o padre
possa constituir uma família cria, parece-me, mas deixo isto para os
especialistas, uma espécie de solidão que a simples entrega ao trabalho
espiritual e comunitário não conseguem compensar.
Poderá perguntar alguém, com absoluta pertinência: pudesse o padre
se casar, a Igreja estaria absolutamente protegida de um adúltero, por exemplo?
De um molestador? De um pedófilo? É claro que não! Mas estaria menos cercada de
escândalos. Talvez se demore mais um século até que isso venha a ser debatido,
sempre no tempo da Igreja Católica, que não é este nosso, da vida civil. Mas é
importante que os católicos comecem a pensar que o celibato não compõe o núcleo
da doutrina cristã ou um fundamento do catolicismo. Foi, num dado momento, a
escolha de uma forma de organização. Que, hoje, traz mais malefícios do que
benefícios.
Sou o primeiro a considerar que a Igreja não tem de ceder a todos
os apelos da, vá lá, modernidade, abrindo mão de seus princípios. Só que falta
provar que o celibato é um princípio. Não é.
De fato, a obrigação de um sacerdote deveria ser outra, como
queria São Paulo:
“Convém, pois, que o bispo seja irrepreensível, marido de uma mulher,
vigilante, sóbrio, honesto, hospitaleiro, apto para ensinar.”
A obrigação deveria ser o casamento, não o contrário.
Compreendo — e tenho até certa atração intelectual por elas —
algumas inteligências que, ao perceberem que determinado remédio resulta num
malefício, decidem dobrar a dose para ver se não foi a falta de convicção que
trouxe o resultado contraproducente. Há nisso um certo pessimismo místico e
algum triunfalismo da derrota: “Perderemos, mas sem jamais ceder.” A mim me
preocupa a crescente secularização da Igreja em matérias que são realmente de
dogma, enquanto permanece aferrada a algumas práticas que constituem mais uma
esfera de costumes.
É um erro supor que o debate sobre o fim do celibato integre o
cardápio da esquerdização da Igreja. Aliás, é curioso notar que os expoentes da
Teologia da Libertação no Brasil, com exceções, passam longe do assunto.
Parece-me evidente que o primeiro efeito positivo do fim do
celibato seria atrair para a Igreja vocações que não estão dispostas a abrir
mão da bênção que é ter uma família. E, ao longo do tempo, o sacerdócio
deixaria de ser um refúgio — e os escândalos estão aí à farta — para os que
pretendem usar a Igreja como escolha socialmente aceitável para seus gostos. A
Igreja, aqui e no mundo, está a precisar menos de homens que imitem Cristo num
particular e mais daqueles que o sigam nos valores. Não é, infelizmente, o que
se tem amiúde visto. Também essa escolha traria novos problemas para a Igreja?
Sem dúvida. Acho, no entanto, que o ganho seria, ao longo do tempo, bem maior
do que o prejuízo.
Sou o primeiro a afirmar — e, se vocês procurarem no Google, vão
encontrar opiniões minhas anteriormente expressas a respeito — que ninguém é
enganado ao escolher ser membro da hierarquia católica. O padre sabe que está
obrigado à castidade e ao celibato. Portanto, a menos que peça desligamento,
não pode fugir a essas duas práticas, entre muitas outras. Eu posso lastimar o
que considero malefícios óbvios da castidade. Ele não pode. O que lhe está
reservado é fazer de sua própria vida um testemunho exemplar
a) de sua fé;
b) de observância das leis da Igreja.
Infelizmente, as coisas não têm sido bem assim, não é mesmo? Para
tristeza e estupefação dos católicos no Brasil e no mundo inteiro. Estou
dizendo que, ao longo da história, o que foi uma seleção de homens para
construir, com dedicação exclusiva, a Igreja de Cristo, tornou-se fonte de
perturbação e de desmoralização. Para seguir “princípios”? Não! Trata-se de uma
escolha feita, num dado momento e sob certas circunstâncias históricas, que
hoje contamina o tecido da Igreja com um óbvio mal-estar.
Não fiz a contabilidade. Mas tendo a achar que existem na Bíblia
mais recomendações em favor do casamento do que contra ele. Mas, ainda aqui,
estaríamos só no terreno da literalidade. A minha pergunta é outra: o que há na
mensagem espiritual de Cristo que recomende que o homem, sacerdote ou não, viva
apartado da mulher? Olhe aqui: não importa a que corrente da Igreja você
pertença — ou, mais amplamente, do cristianismo, e a resposta é uma só: NADA!!!
Uma Igreja que pudesse acolher um número muito maior de vocações —
homens que pudessem formar família — constituiria, aí sim, a verdadeira
comunidade eclesiástica. Não é preciso ser muito agudo para perceber que os
padres vivem uma realidade que absolutamente os aparta da vida real. E para
quê? Para que possam se dedicar mais a Deus e à Palavra? Lamento muito: isso é
mentira! Boa parte deles, hoje, infelizmente, ignora até o texto bíblico. O que
parece uma vida de renúncia se confunde mais com alienação.
O celibato tem de acabar não para revolucionar a Igreja. Trata-se
de um movimento de “conservação”. De certo modo, corroída pela “revolução”, ela
está hoje. Quantas forem as recomendações contra o casamento que os
“literalistas” encontrarem, asseguro, outras poderão ser encontradas a favor
dele. A Igreja deve ser um lugar onde se vive uma convicção, não onde se
esconde uma condição.
E para que nada fique sem tratamento: todas essas minhas
considerações excluem a admissão para o sacerdócio de gays e mulheres? Meus
caros, eu não excluo ninguém de nada. Dispenso-me de ter de provar que uns e
outras possam ser mais fiéis às generosidades abraçadas por Cristo do que parte
relevante dos padres que temos. Mas a Igreja também é uma espécie de clube
fechado e privado, não é?, ainda que de dimensão pública e universal. As
palavras do papa sobre a professora Linda Ghisoni mostram o quanto se precisa
caminhar. Atenho-me aqui ao que me parece um pouco mais próximo, ainda que
também distante.
O papa João Paulo 2º admitiu no dia 31 de novembro de 1992 que a
Igreja errou ao perseguir Galileu Galilei (imagem), que morreu em 1642. Talvez
seja o caso de acelerar um pouco o seu próprio andamento em face da história. (Reinaldo Azevedo)
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