21 de jun. de 2005

Pinóquio

Ah! meu nariz (de madeira plastificado) cada vez mais estica. E estica porque continuo a mentir, construtor de grandes redes de aproveitador, ganacioso, imoral, corrupto e desejo degraus até onde der, para auferir ganhos pra mim, família e afins, sem medir nenhum meio.

Me lembro da infância faminta, da minha cor amulatada, criado no meio dos esgotos do morro, angariando madeiras pro fogão da minha velha, aquele que subia e descia degraus (quando haviam), na chuva e sol, do barraco vazio, entre tantas paredes de madeira, olhar a santinha no altarzinho pra Nossa Senhora onde minha mãe sempre se ajoelhava, os bandidos e policias zumbindo com suas fúrias baleando e matando, vendo vizinhos, amigos e suas proles enlouquecendo nas drogas, e sem entender como fugir, desci.

Sim, desci do morro e ganhei as ruas. Me sentia naquelas roupas uma coisa que nem mais chamava atenção aos olhos dos transeuntes, ódios ou medos, de ver em cada humano apenas um criminoso. Acabei mendingando, pois apesar da vontade de ganhar o pão de cada dia, me fechavam as portas. E tive tempo que ganhava uns trocados, uma lata com comida, um agasalho..... e sentia que alguma coisa me animava.

Um dia, umas pessoas chegaram em carros (pensei logo na polícia) mas eles vinham na solidariedade, com agasalhos, colchões, sopas, pães e, principalmente, o despertar em mim que o mundo não era todo ruim. E ao alvorecer, sai pela rua em busca de uma igreja e me ajoelhei lá no fundo e pedi ajuda do Deus.

E Ele me ajudou. Alguém ali mesmo, me ofereceu emprego. Como não tinha onde dormir, pois dinheiro pras passagens não sobrava, e para minha surpresa, o meu patrão me arranjou um lugarzinho lá nos fundos da loja, onde tinha uma cama, sanitário, pia e luz. Me lembrei da minha mãe e meus irmãos lá no morro. Chorei!

Esse homem fora tão bom para mim me aconselhando, incentivando e comecei a estudar à noite. E aí começou outra vida.Um dia, já formado e num bom emprego, consegui tirar minha família do morro e aluguei uma casinha lá pelo subúrbio do subúrbio.

Os estudos me deram meios de conhecimentos, iniciei na jornada de me postar de eloqüente e dei meus primeiros passos na tal da política.

E aí, tudo que tinha computado como bens, afastei. Ou entrava nas ligações, interpretasse as lides partidárias ou me alijava.

E falhei! Como falhei! Fui crescendo politicamente, assessor, vereador, etc.... e a euforia pelo gosto do aparecer em tvs, jornais, mídias em geral, eu me achava muito importante. As coligações, reuniões entre partidos, conversas com o Poder, Governos, pensei que pouco faltava
para me sentir no céu.

Mas hoje parei. Estanquei, pois vi minha vida ser jogada fora. Me desfiz das solidariedades, do carinho, das pessoas que de certo modo acreditavam em mim, abri mão da humildade, me incriminei civil, criminalmente, e sobretudo, menti para Deus!

Só me resta uma coisa: RENUNCIAR!

"Sublimar" como disse um colega no noticiário, quero estar fora disso tudo. Realmente, a vergonha me tolda a mente, meu passado, o meu primeiro patrão, os que me deram comida e agasalho. Os direitos dos meus irmãos eu olvidei. As promessas não cumpri. Os que me cercavam, fatalmente me atirarão pedras. Se houver a Justiça Divina, que me perdõem!

(Anônimo)

AA

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