Em um país como o nosso onde o crime compensa largamente era
de se esperar que recrudescesse o embate entre a República dos Velhacos, que
tenta voltar ao poder e almeja soltar o velhaco mor, e a República de Curitiba
composta pelo então juiz e hoje ministro Sérgio Moro, pelos procuradores da
força-tarefa da Lava jato e pela Polícia Federal.
Quando o juiz competente, íntegro, de moral ilibada deixou
sua brilhante carreira para se tornar ministro, certamente não buscou poder
pessoal, mas sonhou que o cargo lhe daria mais possibilidade de continuar sua
incansável luta contra a corrupção.
Como ministro Moro apresentou um projeto anticrime que está
parado no Congresso e que dificilmente será aprovado por certos parlamentares
envolvidos na Lava Jato. O projeto também foi bombardeado pela OAB, por grupos
de advogados, de juízes, de juristas e criticado no STF. Além disso ele perdeu
a COAF, órgão através do qual poderia outrossim combater o crime organizado.
Aliás, estamos vivendo numa espécie de parlamentarismo na
medida em que o Legislativo esvaziou o poder do Executivo engessando projetos e
atos presidenciais. A última prova disso foi o texto da reforma da Previdência
apresentada pelo relator Samuel Moreira, que atendeu de tal forma o lobby dos
servidores e a oposição tangida pelo PT que a recente greve geral, além de ter
sido mais uma vez um fracasso retumbante perdeu inteiramente o foco. Afinal, a
reforma da Previdência está do jeito que eles querem.
No momento é evidente a costumeira politização do Direito, o
que fica claro na maneira de tratar a trama sórdida que surgiu no afã de
libertar o hóspede de honra da Polícia Federal em Curitiba, destruir o ministro
Moro e acabar com o Lava Jato. Trata-se da ação do site The IntercePT Brasil,
dirigido pelo americano Glenn Greeewald, que hackeou ou mandou hackear
conversas informais entre o então juiz Moro e o procurador e coordenador da
lava jato, Daltan Dallagnol, supostamente feitas entre 2015 e 2017.
Foram pinçados criminosamente trechos de supostas falas de
um contexto que não se conhece na íntegra, porém isso bastou para que a
República dos Velhacos, adeptos do crime e da impunidade acendessem a fogueira
da Inquisição para queimar a reputação do ministro e incinerar a Lava Jato.
Curiosamente, a
divulgação dos áudios adulterados surgiu dia 9. Dia 10 o ministro Gilmar Mendes
do STF liberou para dia 25 o milionésimo pedido de liberdade para o hóspede de
honra da cobertura da Polícia Federal em Curitiba. Dia 14, no gabinete do
ministro Edson Fachin, relator da Lava Jato no Supremo, materializou-se o
advogado do presidiário da cobertura da PF de onde o condenado dá entrevistas e
recebe quem quer. Cristiano Zanin certamente não foi tomar chá com Fachin. Aí
pode?
Recordemos apenas dois fatos entre muitos para não alongar
demais o artigo, que aconteceram sem nenhuma aparição de hackers ou gritaria do
judiciário que se diz rigorosamente imparcial:
1º) O desfecho do impeachment de Dilma Rousseff, quando o então
presidente do Supremo Ricardo Lewandowski, juntamente com o ex-presidente do
Senado, portanto do Congresso, Renan Calheiros, rasgou a Constituição ao manter
os direitos políticos da destituída senhora. Ninguém reclamou.
2º) A presença do ministro Toffoli no julgamento do mensalão
apesar de ter trabalhado como advogado para outro indigitado: José Dirceu. Em
momento nenhum o ministro se considerou impedido ou pessoas o julgaram parcial.
Outra coisa que ressalta é a pressa com que querem condenar
e pedir a saída do Ministro Moro, sem conhecimento do teor da matéria que é
fragmentada e obtida criminosamente. E se alguém da República dos Velhacos
também estiver em envolvido na escuta de um hacker, como é que fica? Normal?
Essa pressa em pedir a cabeça do ministro contrasta
enormemente com o julgamento do velhaco mor, que se arrastou por longo tempo
com o objetivo de obter provas irrefutáveis de crimes depois confirmadas por
outros tribunais superiores ao da Primeira Instância. Ao final ainda tivemos o
espetáculo da prisão no Sindicato de São Bernardo, uma ópera bufa onde não
faltou até uma "missa negra".
Como sempre resta a esperança acreditemos que vencerá não a
República dos velhacos, mas, sim, a República de Curitiba. In Moro we trust. (Maria
Lucia Victor Barbosa, socióloga)
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