Vivemos tempo demais sob a severa influência de uma
ideologia escancaradamente reacionária. Aliás, com tanto por modernizar talvez
devesse afirmar que ainda vivemos tempos remotos, paleolíticos. Os adeptos
dessa ideologia, atuando em salas de aula, acorrentando-se a fórmulas
superadas, se dedicam, por todos os modos, a puxar as rédeas da humanidade, da
civilização e do país. Foi em nome dessa ideologia, num prenúncio do que estava
por vir, que saíram às ruas no ano 2000 a vociferar contra o Descobrimento.
Vale lembrar os fatos. Aqui no Rio Grande do Sul, Olívio
Dutra era governador e Raul Pont prefeito da Capital. Um grande relógio fora
montado no ano anterior pela Rede Globo em contagem regressiva para o dia 22 de
abril. Ficava próximo à Usina do Gasômetro. Tanta era (e continua sendo) a
repulsa pela história nacional que, chegado o dia dos festejos, um grupo de
trabalhadores em não sei o que resolveu acabar com o relógio. Espontaneamente,
sem qualquer combinação, chegaram juntos, na hora certa, equipados e bem
dispostos. Sua posição sobre os 500 Anos afinava-se pelo diapasão do petismo
que dava as cartas e jogava de mão no Estado e na prefeitura. Tocaram fogo no
artefato sob os olhos atentos da Brigada Militar, num dia em que oficial
circulava sem camisa, inspetor de polícia dava ordens para capitão e secretário
de Estado assistia tudo sorrindo. Era a festa dos Outros Quinhentos.
Chamavam de Invasão o feito de Cabral, e, por algum motivo
obscuro, não o escolheram patrono do MST. É claro que se os portugueses
tivessem tocado direto para as Índias, nosso país seria hoje o que são as
tribos que se mantiveram sem contato com a civilização. Vale dizer: viveríamos
lascando pedra.
Essa ideologia, se pudesse, acabaria com o imenso usucapião
denominado Brasil. Os negros voltariam à África, os invasores brancos seriam
banidos para a Europa e os índios promoveriam uma continental desapropriação do
solo e das malfeitorias aqui implantadas. Alerta: os defensores de tão
escabrosa geopolítica se aborrecerão terrivelmente se você apontar o racismo
embutido nesses conceitos que viriam a dividir os brasileiros a partir da
eleição de Lula em 2002.
O estrago foi grande. Não voltamos às cavernas como se
poderia presumir do discurso retrógrado que condenava o “grande capital”, a
“grande empresa”, a “grande propriedade”, e para o qual até o nomadismo parecia
fenômeno reprovável, precursor do famigerado neoliberalismo. No entanto, se não
voltamos às cavernas, se o agronegócio não acabou e não tocamos tambor para
chover, os “negócios” foram tantos e tão grandes que o país entrou em recessão,
a economia foi para o saco, as contas nos paraísos fiscais engordaram e os
desempregados se contam em oito dígitos. Tal história, como se sabe, acabou nos
confessionários de Curitiba.
Dois grupos disputam espaço político no Brasil. De uma
banda, o novo governo, de perfil liberal e conservador, inova e alimenta a
esperança de que, modernizando-nos, podemos escapar do caos. De outra, a
oposição, que recicla velhos chavões, bate palmas para Maduro, se aferra ao
paleolítico e alimenta o caos com esperança de voltar. (Percival Puggina, arquiteto,
empresário e escritor)
“A única escolha que faz sentido para a oposição, hoje, é
ser 100% contra qualquer ideia que tenha chance de melhorar o país.”
(J.R.Guzzo, tweet em 27/04)

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