"A vida é como uma caixa de bombons, você nunca sabe o
que vai encontrar." A frase dita pela mãe de Forrest Gump, no premiado
filme de Robert Zemecks, cabe feito uma luva para explicar a lógica por trás de
certas decisões tomadas pelo presidente da República.
Bolsonaro humilhou publicamente, chamando de
"mentiroso", nas redes sociais e na TV, um de seus mais próximos
aliados. Não teve coragem de demitir Gustavo Bebianno por conta própria,
chamando o filho que ele chama de "pitbull" para ajudar na tarefa de
fritura pública.
Qual a garantia de que não volte a fazer isso e, num surto,
ataque um parlamentar que o apoie, mas venha a desagradá-lo? A incerteza ressoa
pelo Congresso Nacional e pela Esplanada dos Ministérios.
Outra pergunta óbvia: qual o critério objetivo para mandar
alguém ao paredão? Ele demitiu um ministro suspeito de irrigar o Laranjal do
PSL, mas mantém outro, também envolvido com plantação de cítricos no partido,
Marcelo Álvaro Antônio (Turismo), no cargo em que está.
No vídeo construído milimetricamente para tentar impedir que
Bebianno se torne um homem-bomba de seu governo, justificou a demissão dizendo
que "diferentes pontos de vista sobre questões relevantes" acabaram
levando à separação de ambos. Contudo, aplicada essa lógica, ele já teria
pedido o divórcio a Paulo Guedes.
Nos bastidores, Bolsonaro reclamou a assessores que Bebianno
havia vazado diálogos com o presidente e que esse seria um motivo para
demiti-lo, quebra de confiança. Nesse sentido, uma parte da Esplanada dos
Ministérios já teria rodado.
Outra reclamação, de que o agora ex-ministro teria aceitado
receber um representante da Globo para uma reunião, também levaria à demissão
de outros que atenderam à empresa de comunicação, inclusive generais próximos a
ele.
Não é novidade que tanto o presidente quanto o governo
voltem atrás em questões relevantes, após críticas da população, colocando a
culpa do bate-cabeça ou do balão de ensaio na imprensa que faria "fake
news".
A falta de critérios aliada à intempestividade de Bolsonaro
e de seus filhos no intuito de defenestrar um assessor que já não cabia em seus
planos muda a relação com aliados no Congresso. O impacto imediato do aumento
do "risco bolsonaro" é o aumento do custo do apoio por parte de
deputados e senadores para aprovar projetos. Mais cargos terão que ser
distribuídos e mais emendas liberadas do que aquilo que ele já teria que
distribuir para ver aprovada a Reforma da Previdência por não ter uma base
partidária sólida. Com isso, a sua promessa de nova política, jurada em milhões
de mensagens de WhatsApp na campanha eleitoral, pode durar menos que romance de
carnaval e pode morrer antes da Quarta-feira de Cinzas.
Os eleitores mais conscientes decepcionam-se. Pensaram ter
adquirido chocolate ao leite, mas só aparece bombom recheado de uma laranja
amarga que nem fel. Os menos, divertem-se com o colorido das embalagens. (Leonardo
Sakamoto)
Nunca confie em mudos, pois os mudos não tem palavra.
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