4 de nov. de 2007

Platero e eu

Platero é pequeno, peludo, suave, tão macio, que dir-se-ia todo de algodão, que não tem ossos. Só os seus olhos são duros como dois escaravelhos de cristal negro.

Deixo-o solto, e vai para o prado, e acaricia levemente com o focinho, mal roçando, as florinhas róseas, azuis - celestes e amarelas... Chamo-o docemente: “Platero”, e ele vem 5 até mim com um trote curto e alegre que parece rir .

Come o que lhe dou. Gosta das tangerinas, das uvas moscatéis, dos figos roxos, com a sua cristalina gotita de mel...

É terno e mimoso como um menino, como uma menina...; mas forte e seco como de pedra. Quando passo nele, aos domingos, pelas últimas ruelas da aldeia, os camponeses, vestidos de lavado e vagarosos, param a olhá-lo:

- Tem aço...

Tem aço. Aço e prata de luar, ao mesmo tempo. (...)

Platero brinca com Diana, a linda cadela branca que parece o quarto crescente; com a velha cabra cinzenta, com as crianças...

Diana salta, ágil e elegante, diante do burro, tocando ao de leve a campainha, e faz que lhe morde o focinho. E Platero, pondo as orelhas em ponta, como dois cornos, marra-lhe brandamente, e fá-la rolar na erva em flor.

A cabra vai ao lado de Platero, roçando-se nas suas patas, puxando, com os dentes, a ponta das espadanas da carga. Com uma cravina ou uma margarida na boca, põe-se na frente dele, toca-lhe na testa, brinca, e bale alegremente (...)

Entre crianças, Platero é um brinquedo! Com que paciência sofre as suas loucuras! Como caminha devagar, parando, fingindo-se pateta, para que elas não caiam! Como as assusta, iniciando, de súbito, um trote falso!

Claras tardes do Outono (...)! Quando o vento puro de Outubro afia os seus límpidos rumores, ouve-se do vale um alvoroço de balidos, de relinchos, de risos infantis, de batidos e de campainhas... (Juan Ramón Jimenez (Prémio Nobel))

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