17 de set. de 2005

Por que não uso "afro-descendente"

Recebi uma e-mensagem recomendando o uso preferencial, se não exclusivo, da palavra "afro-descendente", para designar os brasileiros que têm nas veias o sangue dos africanos aqui escravizados na Colônia e no Império.

Argumenta-se que até o presidente Lula aderiu ao novo uso, no seu discurso para saudar o presidente nigeriano. Resolvi que não seguirei este exemplo presidencial. Seguirei usando palavras como "negro", "preto" ou "crioulo". Mas acho que devo aos adeptos de "afro-descendente" uma explicação. Palavras são como moedas grátis. As palavras são seres estranhos. São como moedas de um mercado grátis. Ali circulam, e ao circular incorporam valores, às vezes incomensuráveis, que nenhum decreto de uso obrigatório e nenhuma cartilha "politicamente correta" há de conseguir impor. Nada contra palavras novas.

Eu mesmo, como tantos, até já cunhei algumas, novinhas em folha, e torço para que certas delas, que me pareceram bem cunhadas, agradem a raça humana e entrem de fato em circulação (não resisto a citar dois exemplos, ligados à noção de que, neste mundo da globalização, há que se distinguir entre "globalizadores" e "globalizados").

Mas reconheço a incomparável superioridade das palavras velhas, usadas, brunhidas, polidas e valorizadas desde a noite dos tempos por incontáveis bilhões de empregos, sempre mutantes, é certo, mas cada um deles agregando algo à teia dos seus sentidos.

As palavras que usou Zumbi.

Por isso, com o devido respeito pelos adeptos do "afro-descendente" – tanto os daqui como os dos Estados Unidos, onde ele, aparentemente, terminou "pegando" –, não vou aderir. Data venia, ficarei com "negro", "preto", "crioulo". Ficarei com as palavras que usou Zumbi nos Palmares. Com as que Cosme Bento das Chagas (para Caxias, que o enforcou, "o infame Cosme") ensinou, na escola que fundou em seu quilombo no tumultuado Maranhão da Balaiada, talvez a primeira escola brasileira em que a criançada negra, preta, crioula, pôde entrar para aprender e não para lavar as sujeiras dos brancos.

Fico com as palavras que Luiza Mahin aprendeu de seu mestre na insurreição antiescravista de 1835, o alufá Pacífico Licutã (que os escravistas puniram com 600 açoites!...), e as do filho mestiço de Luiza, o advogado abolicionista Luís Gama (vendido pelo próprio pai escravista para pagar uma dívida de jogo!).

Fico com as palavras de João Cândido, "o Almirante Negro", herói ainda por descobrir da Revolta da Chibata em 1910.
E as de Osvaldão, Preto Chaves e Elenira da Guerrilha do Araguaia. E as de Pixinguinha, Clementina e Clara Nunes, do ministro Gil. E de Leônidas, Pelé, Ronaldinho Gaúcho. Ateu fervoroso que sou, fico, com o devido respeito, com as palavras de Mãe Menininha do Gantois.

As palavras que o povo entende.

Fico com as deles porque são as de incontáveis outras pessoas, de incontáveis misturadas cores brasileiras, em numerosas sucessivas gerações. Porque são também as dos avós, e dos irmãos, dos adeptos de "afro-descendente". Fico com elas sobretudo porque quando as uso sei que serei entendido, lavadas que estão em tanto suor, lágrimas, sangue, polidas por tantas alegrias, brilhando de tantas esperanças que me sinto no dever de ajudar a fazer cumprir. Porque estão nos sambas e frevos e baiões, nos versos de Castro Alves, na língua viva do povo.

Os racistas também as usam? Azar o deles. Não as deixarei que as tomem de mim (e de Zumbi, e do povo brasileiro) como presa de guerra em um combate que continua, que eles não venceram e que hão de um dia perder.

Quanto a "afro-descendente", tampouco a hostilizo. Acho-a desengonçada, tão comprida, com suas seis sílabas e esse hífen no meio, além da visível marca "made in USA"; mas dou uma chance a quem a prefere.

Sigo o sábio exemplo do baiano Gordurinha, da carioca Almira Castilho e do paraibano Jackson do Pandeiro,
que admitiam, sob condições, a possibilidade de "botar bibope no seu samba".

Botarei "afro-descendente" no meu artigo quando essa palavra chegar nas conversas de bar, nos sambas-enredo, nos namoros de esquina, nas letras de forró.

(Bernardo Joffily)

Um comentário:

Anônimo disse...

Feliz daquele que ama a vida
em toda sua extensão,
libertando-se de qualquer preconceito,
irradiando apenas a luz natural de se alegrar com todos aqueles
que estão ao seu lado,
ignora os erros em seu semelhante,
dando o seu coração, em troca de uma
Amizade sincera e eterna...
De pessoas assim,
poderemos obter o exemplo,
do que é realmente saber viver...

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