1 de mar de 2017

O Carnaval da política continua.

• Janot pede para Aécio depor sobre Furnas no STF. Delcídio Amaral, José Dirceu e Silvinho Land Rover, ex-secretário do PT, também devem ser ouvidos. 
• Marcelo Odebrecht depõe hoje na ação contra chapa Dilma-Temer. Depoimento ocorrerá em Curitiba; ordem foi do ministro Herman Benjamin. 
• Delator da Schahin entrega à Lava Jato recibos da propina a ex-tesoureiro do PT. José Antonio Schwarz afirma ter pago R$ 200 mil para a campanha de Paulo Ferreira a deputado federal pelo Rio Grande do Sul, em 2010.
• O fatal rombo da Previdência. A manutenção das regras atuais não traz esperança nenhuma a quem quer que seja - ao contrário, seria uma tragédia para os trabalhadores; Comissão especial rejeita pilares da nova Previdência. Deputados, inclusive aliados, querem alterar propostas feitas por Temer. 
• Temer na boca do povo no Carnaval. As causas podem ser incongruências na escolha de auxiliares onde bate recorde em perda de colaboradores ou assimetria das ações. Presidente viu ser desfeito o quarteto Padilha, Moreira, Geddel e Jucá; Há de se recordar o veto da perda de direitos políticos à ex-dama pelo STF (Levandowski-Renan) que impediu a Constituição mais emendada de todos os tempos. 
Não demorou para Rui Falcão se apegar ao goleiro Bruno, diz Janaína Paschoal. 
• Gilmar Mendes: A noção de institucionalidade é quem preside as nossas decisões. Em entrevista exclusiva ao Estado, o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, minimizou a importância da relação de proximidade que mantém com o presidente Michel Temer. 
• Os privilégios de Sarney e Lula. O STF poupa José Sarney e persegue Lula. É a tese mentirosa do El País. De acordo com o site, apesar de não ser contemplado por nenhuma das exigências que beneficiam as milhares de pessoas que têm direito ao foro privilegiado, Sarney acabou recebendo esse benefício. Enquanto o ex-presidente Lula, não. O petista é réu em quatro processos e, até o momento, todos serão julgados pelo juiz Sergio Moro, o célere e rígido magistrado responsável pela Lava Jato na primeira instância. Em primeiro lugar, dois dos processos de Lula estão sendo julgados por Vallisney de Souza, e não por Sergio Moro. Em segundo lugar, Lula é investigado como chefe do quadrilhão na PGR, e não em Curitiba, justamente porque seus crimes estão associados a políticos com foro privilegiado. Ao encaminhar ao ministro Edson Fachin as denúncias relativas às delações da Odebrecht, Rodrigo Janot certamente vai incluir o nome do comandante máximo da ORCRIM. Para o STF, José Sarney e Lula são iguais e gozam dos mesmos privilégios. 
• Luz sobre a Petrobras. Nova fase da Lava Jato leva à prisão operador que atuava na estatal desde os anos 1980, ampliando o alcance potencial das investigações. 
• O secretário de Esportes e Lazer de São Bernardo, Alex Mognon, revelou que a ginasta Daniele Hypólito fará parte da equipe de ginástica artística do município neste ano. Mognon afirmou que a prioridade da Secretaria é o investimento no esporte de base e paraolímpico. 
• Cobrança de bagagem não garante menor preço, diz Gol. O início da cobrança de bagagem pelas companhias aéreas, que deverá ocorrer a partir de 14 de março, quando entrar em vigor a nova norma da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), não garantirá bilhetes de voo mais baratos, na comparação com os patamares atuais.

• Brexit pode impedir Messi e Neymar de entrarem no Reino Unido, diz Uefa. 
• Trump pode dar cidadania a ilegais sem crimes graves. Presidente americano diz estar disposto a propor plano sobre o tema. 
• China e Rússia vetam sanções à Síria por armas químicas. Membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU rejeitam resolução. 
• Agressoras de Kim Jong-nam serão acusadas de homicídio. Diplomatas norte-coreanos tentam recuperar corpo de irmão do ditador. 
• Polícia holandesa prende senhora de 99 anos para realizar sonho. Annie desejava ser algemada e conhecer o interior de uma cela; as autoridades de Nijmegen-Zuid ajudaram e registraram tudo. 

A posse do futuro presidente.
Na República Velha, hoje seria dia de votação, de quatro em quatro anos. Eleição fraudada, sem ser secreta, com as mulheres proibidas de votar e sem Justiça Eleitoral. O cidadão votava declarando seu voto a um funcionário público, que anotava o voto num livrão. Por isso jamais um candidato do governo perdeu. A data comemorava a vitória do Brasil na Guerra do Paraguai. O diabo é que para a posse do eleito, nossos avós procuraram outra data significativa e acharam a Proclamação da República, 15 de novembro. Resultado: oito meses e meio de interregno, quando o presidente eleito viajava para a Europa ou descansava placidamente, compondo seu ministério. Estava tudo arranjado, as crises eram raras, tudo fora acertado pelos poderosos Partidos Republicanos de Minas e São Paulo, ou seja, os fazendeiros desses dois Estados, com raras exceções.
O tempo passou, já votamos em muitas outras datas, ou não votamos, ficando pela Constituição de 1988 o voto no primeiro domingo de outubro, com a confirmação em outra votação no último, se ninguém alcançar a metade mais um dos votos, no primeiro.
Já votamos em variadas datas, inclusive no repudiado 31 de março, mas hoje metade do Brasil e dos demais países do mundo encontra-se sob os eflúvios das comemorações da passagem do ano. O resultado é que poucas autoridades estrangeiras conseguem vir, sem falar em nós mesmo.
Já se tentou mudar a data, estendendo-a por alguns dias, mas com tantas reformas políticas em pauta, a proposta não vingou. Por que surripiar do novo presidente dez dias que sejam de mandato?
Quando mais uma vez o Congresso tenta estabelecer umas tantas mudanças institucionais, jamais acontecidas, ressurge outra vez a sugestão, que dificilmente será aprovada.
Essas considerações se fazem a propósito do primeiro de janeiro de 2019. O novo presidente acordará mais cedo, deputados e senadores também, mas o importante será saber quem. Em sã consciência, ninguém arrisca um palpite. (Carlos Chagas) 

O fantasma de Stalin.
A legislação trabalhista foi pensada no Ocidente para conter a sedução comunista.
Começou o ano e a Quaresma. Para a consciência brasílica, o dia de hoje assinala o início do ano civil. O que quer que possa ter ocorrido antes é mero ensaio para o que vem pela frente. Começam as labutas de 2017. A propósito, feliz Ano Novo, já que estamos em um verdadeiro primeiro de janeiro.
Vamos retroceder um século. Em março de 1917, foi derrubado o czar Nicolau II e começou a Revolução Russa. Ela transformou a face econômica do país. O perfil agrícola das estepes deu um salto nas décadas seguintes para uma potência industrial. Os planos quinquenais transformaram a Rússia em um dos grandes produtores de aço do planeta. A população passou de um governo autoritário dos czares para um governo autoritário de comissários do povo. As coletivizações forçadas no campo levaram a fome a áreas produtivas. O genocídio na Ucrânia (Holodomor), as repressões políticas, os campos de concentração e prisões para dissidentes (Gulags) trouxeram a morte para milhões. 
A Revolução Russa teve um efeito imenso sobre o Ocidente. No ano de 1917 e subsequentes, muitas greves e agitações de trabalhadores marcaram lugares tão distantes como Madri e Nova York. Eram os anos vermelhos. Há cem anos, com visível orientação anarquista, explodiu em São Paulo uma das mais significativas greves operárias da história do País. Nos anos seguintes, começaria um declínio do chamado socialismo libertário. A ortodoxia soviética viera para ficar.
De muitas formas, a legislação trabalhista foi pensada no Ocidente para conter a sedução do comunismo. No caso específico do Brasil, Getúlio incorpora o Primeiro de Maio como data oficial, concede vários benefícios e controla os sindicatos. O mesmo Vargas mata e tortura militantes comunistas. Havia uma luta para absorver e liderar a causa operária. 
 Hoje, contemplamos a Revolução Russa com o olhar crítico pelo estado totalitário que se seguiu e pelo custo em vidas. Não era assim em 1917. Para muitas pessoas, desabrochava a esperança em Moscou. A opressão czarista fizera eclodir um movimento original e poderoso de libertação. Grandes pensadores, artistas e jornalistas apregoavam que o futuro raiava e o sol, como sempre, vinha do Oriente. Caio Prado Júnior, Tarsila do Amaral, o jornalista John Reed (autor de Dez Dias que Abalaram o Mundo) e outros escreviam e depunham sobre um mundo sem diferenças sociais, sem miséria nas ruas, com entusiasmo popular. 
A cenografia demorou a cair. Em parte, pareciam as histórias das quase míticas aldeias modelo (Potemkim villages) que encantaram a czarina Catarina, a grande. Alguns intelectuais repetiram a experiência na URSS do século 20. Quase sempre vemos o que outros mostram ou nós mesmos desejamos ver.
O fato de a miséria e de a desigualdade no capitalismo ocidental serem enormes ajudava a compor o encantamento. Operários explorados, bolsões de cortiços por todo lado, governos que oprimiam trabalhadores: o Ocidente era a realidade, a Rússia, a utopia. A nascente URSS assomava como um novo mundo contra o decadente universo capitalista do pós Grande Guerra. Em 1917, o capitalismo matava nas trincheiras da Europa e nas colônias. O socialismo tornava-se a resposta errada para uma crítica correta. 
A cegueira sobre o que ocorria na URSS foi notável. Raymond Aron afirmou (O Ópio dos Intelectuais) que a sedução socialista funcionava como um elemento viciante, um ópio, uma maneira de perturbar a visão. Abandonar vícios sólidos é um desafio, especialmente para formadores de opinião. 
Após a Segunda Guerra, o prestígio soviético ainda estava em alta. Stalin era a grande força militar que derrubara o nazismo. A resistência dos russos na batalha de Stalingrado fora épica. Houve solidariedade mundial ao sofrido povo da cidade das margens do Rio Volga. Carlos Drummond de Andrade fez um poema: Stalingrado, miserável monte de escombros, entretanto resplandecente! As belas cidades do mundo contemplam-te em pasmo e silêncio. Havia conteúdo romântico na admiração. Poucos destacavam que era um enfrentamento de morte entre dois Estados totalitários: o nazista e o soviético.
 A invasão da Hungria (1956) inaugurou uma mudança. A desestalinização promovida após a morte do pai dos povos tornou pública a lista de crimes do georgiano. Sartre escreveu O Fantasma de Stalin, um petardo contra o modelo autoritário do socialismo soviético.
Custou a muitos sair da zona de conforto da crença. Um recurso paliativo foi destacar que a URSS era um desvio do ideal socialista. O verdadeiro socialismo estaria em lugares como a Albânia ou na Revolução Cultural de Mao. Esta última encantava manifestantes em Paris e matava centenas de milhares de jovens na China. O socialismo tinha virado um projeto mais interessante nos cafés do Quartier Latin do que em Pequim ou Moscou. 
Há cem anos, a Revolução Russa tinha começado a mudar o mundo. Simpatia ou antipatia pelo socialismo altera pouco o fato de 1917 ser um imenso marco histórico. A saída da Rússia da Grande Guerra, a tentativa de expansão do socialismo pelo mundo, a decisiva participação soviética na Segunda Guerra, a legislação trabalhista no Ocidente, a Revolução Chinesa e a Guerra da Coreia: quase tudo tem origem nos fatos que agora comemoram cem anos.
Matamos em nome do capital e em oposição ao capital. Matou-se em nome de Deus e matou-se em nome da negativa de Deus. Houve genocídio no Congo pelo capitalista e católico Rei Leopoldo da Bélgica. Houve genocídio na Ucrânia pelo ateu socialista Stalin. Parece que matar é um prazer acima do modelo político ou da opção religiosa. O ano de 1917 também originou um choque ideológico profundo entre o capitalismo e o socialismo. Na Europa, a queda do muro de Berlim e o fim da URSS marcaram o fim da Guerra Fria. No Brasil, pelo contrário, descobrimos há pouco os prazeres da discussão de um mundo bipolar. A Revolução Russa é uma senhora centenária. Nossa Guerra Fria é um adolescente mimado e esperneante. Boa semana para todos. (Leandro Karnal) 
Transportai um punhado de terra todos os dias, e fareis uma montanha. (Confúcio)

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