24 de abr de 2016

O Rio e a ressaca...

• Dilma antecipa volta para Brasília neste sábado e reassume cargo. 
• Impeachment amplia onda de deserções de 135 prefeitos do PT. Com agravamento da crise política, um de cada cinco eleitos pelo partido em 2012 mudou sua filiação até a metade deste mês. 
• Dilma é a mais rejeitada em petições na internet. Presidente tem 2 milhões de assinaturas pela cassação do mandato. 
• Dívida pública cresce cerca de R$ 2 bilhões por dia. Previsão é de que quantia represente 74,4% do PIB brasileiro até final do ano. 
• Falta de medicamentos aumenta o sofrimento de famílias e 70 mil no Rio. 
• A Lava Jato está prestes a revelar o esquema do BNDES. A Andrade Gutierrez já disse que, para obter empréstimos no banco, teve de pagar 1% de propina ao PT. A Folha de S. Paulo ouviu exatamente o mesmo relato de dois executivos de grandes empreiteiras: o esquema envolvia o pagamento de 1% de propina para o PT a cada desembolso dos empréstimos feito pelo banco. A Lava Jato, segundo a reportagem, decidiu levantar se essa espécie de pedágio, já admitido pela Andrade, era cobrado de todas as empreiteiras em todos os financiamentos de projetos no exterior bancados pelo BNDES. O Antagonista sabe que a OAS está disposta a denunciar o esquema, associando-o ao pagamento das palestras de Lula. A faxina ainda não acabou. 
• MPF quer delação com executivos da Odebrecht. Interesse teria sido comunicado informalmente por um procurador que atua em Brasília a um advogado da empreiteira. 
• Processo de cassação de Cunha pode voltar à estaca zero. Ele é acusado de mentir em depoimento à CPI da Petrobras em março de 2015. 
• Soa mal traçar governo antes de Dilma sair, diz Simon. Ex-senador gaúcho diz estar chocado com a movimentação de Temer. 
• Devendo quase R$ 55 bi, Oi planeja recuperação branca. Plano inicial é trocar dívida com estrangeiros por participação na empresa. 
• Empresa que construiu ciclovia não tem tradição em obras. Vistoria feita em 2014 apontou depressões, trincas e falhas de acabamento. Com interdição da ciclovia, pessoas se arriscam na Avenida Niemeyer. Queda matou duas pessoas; três sumiram. Chamado de assassino, Eduardo Paes afirma que vai ressarcir famílias de mortos. 
• Demissões batem recorde, e desemprego chega a 10%. Reflexo da recessão no país, taxa pela primeira vez atinge marca de dois dígitos.

• EUA e aliados realizam 28 ataques contra o Estado Islâmico no Iraque e na Síria. 
• Mísseis disparados a partir da Síria caem no sul da Turquia. 
• Procuradore impede 1ª bênção de mulheres no Muro das Lamentações de Jerusalém. 
• Acordo de Paris é assinado, mas países encontram dificuldades para passar das intenções aos atos. Acordo pode ajudar América Latina a crescer. 
• Cristina Kirchner vê força política e base diminuírem. Aliados próximos ficaram de fora de chapa para as eleições internas do Partido Justicialista. 
• Coreia do Norte lança míssil no mar do Japão. Lançamento feito a partir de submarino, é ameaça aos EUA e à Coreia do Sul.
• Brasil paga agora por omissão do governo, diz editora da Economist. Zanny Minton Beddoes, é categórica em dizer que o melhor para o Brasil, no momento, é um governo com credibilidade, efetivo e funcional e que seja capaz de colocar de pé uma série de reformas que considera essenciais para tirar o país da recessão. Para ela, a presidente Dilma Rousseff perdeu as condições de governar e, por isso, deve deixar o cargo.
• Equador registra novo tremor secundário de 6 graus de magnitude. 

Foi Lula que começou.
A presidente Dilma tem razão. Ela não é a única culpada pela crise brasileira. Lula iniciou os estragos. É difícil marcar datas em política econômica - os erros, assim como os acertos, demoram a aparecer - mas pode-se dizer que Lula começou a introduzir um viés de esquerda-populista por volta de 2005, quando reagia ao Mensalão. Nesse ano, em junho, Dilma Rousseff assumiu a Casa Civil, passando a ser um contraponto ao então todo poderoso ministro da Fazenda Antonio Palocci.
Ficou assim: de um lado, a política econômica neoliberal, ortodoxa, tocada pela dupla Palocci/Henrique Meirelles (presidente do Banco Central) e, de outro, a oposição interna, à esquerda, de Dilma. Ao longo do tempo, a balança pendeu para o lado de Dilma, afinal escolhida candidata em 2010.
Essa disputa se materializou em torno de dois temas-chave: superávit primário versus aumento de gastos públicos praticamente sem limite; buscar a meta de inflação de 4,5% versus tolerar inflação mais alta.
Alguns momentos importantes dessa disputa: em novembro de 2005, Dilma produziu relatório dizendo que Palocci estrangulava o governo com seu controle de gastos; logo em seguida, Dilma desqualificou como tosco e rudimentar um plano de ajuste fiscal de longo prazo, defendido por Palocci; em março de 2006 Palocci caiu, substituído por Guido Mantega, aliado de Dilma e que comandaria a nova matriz, causa imediata do atual desastre, no primeiro mandato da presidente.
No final do governo Lula, o único pilar da política econômica ortodoxa que permanecia de pé era o BC de Meirelles. A dupla Dilma/Mantega tentou derrubá-lo. Lula quase topou, acabou desistindo. Seria uma complicação inútil, mesmo porque Meirelles entregava inflação em torno da meta e juros baixos para o momento. Com a saída de Meirelles, já no governo Dilma, o populismo imperou sem limites.
E Lula aplaudiu. Ele havia topado a ortodoxia não por acreditar nisso, mas por medo. Iniciou seu governo, em 2003, sob imensa desconfiança. O dólar havia chegado a R$ 4,00 quando ele foi eleito (seria o equivalente hoje a seis reais), houve fuga de capitais, alta de juros e da inflação. A percepção era clara: Lula vai desmontar o Real, a estabilidade fiscal, o regime de metas de inflação.
A montagem de uma equipe super-ortodoxa começou a mudar essa sensação. A ação efetiva dessa equipe - logo de cara produzindo o maior superávit nas contas públicas da era do Real - virou o jogo. A estabilidade deu ganho de renda e permitiu a volta do crédito, com a consequente expansão do consumo. Acrescente aí o boom das commodities - o Brasil exportou duas vezes mais pelo triplo do preço - e Lula nadou de braçada. Sobrou dinheiro, sobraram dólares.
Curioso: sobrou dinheiro para gastar e começar a introduzir o populismo. Lula fez isso de diversas maneiras: aumento do gasto com funcionalismo, tanto com mais contratações quanto com reajustes salariais generosos; aumento real do salário mínimo, que indexa aposentadorias e outros benefícios pagos pelo governo; aparelhamento do Estado e estatais com os companheiros; e distribuição de verbas públicas aos sindicatos e movimentos sociais.
Mas o movimento mais forte se deu no lançamento de um plano megalomaníaco de investimentos tanto do governo quanto de estatais. E empurrou bancos públicos para negócios arriscados e/ou duvidosos.
O melhor exemplo desse desastre está na Petrobras. Em 2008, Lula obrigou a empresa a adotar um programa de construção de quatro refinarias (das quais duas foram abandonadas e duas nem chegaram a um terço, a preço muito maior), ao mesmo tempo em que ampliava sua atuação para outras áreas e na exploração do petróleo.
Ficou assim: a ideologia indicava que se podia aumentar o gasto público sem limite; a má gestão levou a maus investimentos; e a corrupção, de que só soubemos com a Lava Jato e que vem desde o primeiro mandato de Lula, completou o desastre.
Parecia tudo bem enquanto durou o dinheiro obtido com a estabilidade e o boom das commodities. Dilma achou que estava tão bem que resolveu sepultar de vez o ajuste fiscal e as metas de inflação.
Hoje, diz que era impossível perceber a chegada da crise. Lula também tira o corpo.
Mas esta crise foi produzida meticulosamente pela prática de um típico populismo latino-americano. (Carlos Alberto Sardenberg) 

Marcela, o feminino e as feministas.
As mulheres são os seres mais admiráveis da criação, um nadinha assim abaixo dos anjos. Por esse motivo, aliás, chamar mulher de anjo talvez seja a mais comum das metáforas. Paradoxalmente, a reconhecida dificuldade de entendê-las ocupa bom lugar no repertório de encantos femininos. Mulheres são mesmo assim, não por que sejam menos racionais, mas porque não é apenas nas obras ficcionais que o mistério atrai. Não sem razão, Oscar Wilde escreveu que as mulheres não devem ser entendidas, mas amadas. Ponto, Oscar. Não precisa dizer mais nada.
Este breve preâmbulo tem a ver com dona Marcela. Para quem ainda não sabe do novo hit das redes sociais, a jovem senhora é a esposa do vice-presidente Michel Temer. Bela, recatada e do lar, na expressão usada em matéria publicada no site da Veja, Marcela provocou ondas de indignação que se propagaram com aquela velocidade por vezes difícil de explicar, embora se entenda como funciona: o assunto faz a pauta, que faz o assunto e assim sucessivamente até que a energia se dissipa e tudo cai no esquecimento. Nesta semana, porém, Marcela - bela, recatada e do lar - é assunto. Não porque queira, mas porque as pessoas se interessam pela vida dos famosos. Muita gente ganha dinheiro e notoriedade dedicando-se a escrever e a falar sobre eles. O que turbinou o interesse pela mulher do vice-presidente foi se declarar do lar. Marcela não trabalha! Dedica-se à casa, ao marido e ao filho! No pleno exercício de sua liberdade, escolheu essa vida para viver!
Escândalo! Bastou a informação para que as feministas se ouriçassem e não apenas fizessem cair sobre ela seu desprezo e seus anátemas, mas os propagassem como vírus na internet para que tal repulsa sirva de exemplo e nenhuma outra criatura se atreva a conferir celebridade a semelhante opção de vida.
Se já é difícil entender as mulheres, mais difícil ainda é entender as feministas. Valha-me Deus, no momento em que me ponho perante esse mistério. Pergunto: não é o feminismo uma espécie de libertarianismo do qual não escapa qualquer dimensão do ser mulher? Não é ela, senhora de si mesma? Seu poder e seus direitos não incidem até mesmo sobre a vida do filho em seu ventre? Não deve ela estar liberada de todas as amarras e opressões?
Sob tais conceitos, dos quais em parte divirjo, não consigo entender como milhares de mulheres e alguns homens alinhados com essas ideias possam pretender impor a Marcela - bela, recatada e do lar - o estilo de vida por eles prescrito para o tipo de mulher que idealizam. Como se essa idealização não fosse (e os textos nas redes sociais mostraram que é) uma forma de opressão e tirania. Marcela acaba de se descobrir politicamente incorreta...
Saiba, leitor: se você fizer uma enquete entre quantos palpitam sobre a vida da mulher do vice-presidente descobrirá que todas e todos acham que impeachment é golpe. (Percival Puggina, arquiteto, empresário e escritor)

Um comentário:

Anônimo disse...

Sobre a tragedia da ciclovia... revoltante. Como se o dinheiro pagasse as vidas ceifadas. Daqui a pouco cai no esquecimento.
Lendo atentamente o blog.
Abraços amazônicos.
Bete / Macapá-AP