18 de fev de 2012

A compreensão do medo

• Desejo falar essa manhã sobre um assunto que me parece muito importante. Não se trata de uma ideia, conceito, ou formula para ser posto em prática, porque estes impedem efetivamente a compreensão dos fatos tais como são. Por compreensão do fato entendo observar uma atividade, um movimento de pensamento ou de sentimento, e perceber o seu significado no momento de ação. A percepção de um fato, tal qual é, deve verificar-se no momento da própria ação; e, se não compreendermos profundamente os fatos, estaremos sempre sendo perseguidos pelo medo.
• Penso que quase todos levamos essa enorme carga de medo, consciente ou inconsciente. E, nesta manhã, desejo examinar este problema convosco, para ver se podemos despertar uma compreensão total do medo e causar, assim, sua completa dissolução, de modo que, ao sairmos daqui, estejamos verdadeira e efetivamente sem medo. Assim sendo, permita-me sugerir-vos que escuteis tranquilamente, sem estardes argumentando interiormente comigo. Iremos argumentar, permutar palavras, verbalizar nossos pensamentos e sentimentos dentro em pouco. Mas, por ora fiquemos escutando, em certo sentido, negativamente, isto é, com total neutralidade no ato de escutar. Escutai, apenas. Eu vos estou comunicando alguma coisa – vós nada me comunicais. Para compreenderdes o que desejo transmitir-vos, deveis escutar – e no próprio ato de escutar tereis a possibilidade de comungar com o orador.
• Infelizmente, a maioria de nós é incapaz desse escutar negativo, silencioso, não só aqui, mas também em vossa existência de cada dia. Quando saímos a passeio, não ouvimos os pássaros, o ciciar das árvores, o murmúrio do rio; não escutamos as montanhas, nem os céus distantes. Para estardes em comunhão direta com a natureza e com as pessoas, deveis escutar; e só podeis escutar quando estais negativamente silencioso – isto é, escutando sem esforço, sem atividade mental, sem verbalizar,argumentar, discutir.
• Não sei se já alguma vez experimentastes escutar de maneira completa vossa esposa ou marido, vossos filhos, o carro que passa, o movimento dos próprios pensamento e sentimentos. Nesse escutar nenhuma ação existe, nenhuma intenção, nenhuma interpretação; e esse ato de escutar produz uma grande revolução na raiz mesma da mente.
• Mas, em geral, não estamos acostumados a escutar. Se escutamos algo contrário ao nosso pensar habitual, ou se é atacado um dos nossos ideais favoritos, ficamos terrivelmente agitados. Temos interesses adquiridos em certas ideias e ideais, assim como os temos em propriedades e em nossa própria existência e conhecimentos, e quando vemos ser impugnada qualquer dessas coisas, perdemos o equilíbrio, a seriedade, resistimos a tudo o que se diz.
• Ora, se desejais realmente escutar, esta manhã, o que se está dizendo, escutar sem percebimento vigilante e sem escolha, cumpre seguir o orador, não verbalmente – isto é, sem análise discursiva – e, por conseguinte, vos moveis em harmonia com o significado transcendente da palavra. Isso não equivale a pôr-se a dormir, ou encontrar-se num estado beatífico de sentimentalidade, grato ao eu. Pelo contrário, o escutar exige plena atenção – que não é concentração. Estas duas coisas são totalmente diferentes. Se escutais atentamente, talvez possamos – vós e eu – alcançar aquelas grandes profundezas onde se encontra a criação. E isso, sem dúvida nenhuma, é essencial; porque a mente superficial, ansiosa, sempre ocupada com múltiplos problemas, não pode compreender o medo, uma das coisas fundamentais da vida. Se não compreendemos o medo, não haverá nenhum amor, não existirá criação – não o ato de criar, porém aquele estado de criação eterna, o qual não pode ser expresso em palavras, quadros ou livros.
• Assim, temos de estar livres do medo. O medo não é uma abstração, uma simples palavra – embora para maioria de nós a palavra se tenha tornado mais importante que o fato. Não sei se já pensastes em libertar-vos total e completamente do temor. Isso pode ser feito de maneira tão completa que não haverá mais sombra de medo, porque a mente estará sempre à dianteira do fato. Isto é, em vez de preocupar-se com o medo e tentar vencê-lo depois de manifestar-se, a mente está à sua dianteira, e por conseguinte livre dele.
• Para compreender o medo, cumpre examinar a questão da comparação. Porque comparamos? Em matéria técnica, a comparação revela progresso, que é coisa relativa. Há cinquenta anos, não havia essas coisas; e daqui a mais cinquenta anos teremos outras que atualmente não temos. Isso chama-se de progresso, o qual é sempre comparativo, relativo, e nossa mente está enredada nessa maneira de pensar. Não apenas por fora, por assim dizer, mas também por dentro, na estrutura psicológica de nosso ser, pensamos comparativamente. Dizemos sou isto, fui aquilo e serei diferente no futuro. A esse pensar comparativo chamamos progresso, evolução, e todo nosso comportamento – nele se baseia. Observamo-nos comparativamente em relação a uma sociedade que é o produto dessa mesma luta comparativa.
• Ora, a comparação gera medo. Observai este fato em vós mesmo. Desejo ser melhor escritor, ou pessoa mais bela e inteligente. Desejo possuir mais saber do que outrem; desejo ter muito êxito, tornar-me pessoa importante, ter mais fama no mundo. O sucesso e a fama são, psicologicamente, a vera essência da comparação, com a qual estamos constantemente criando medo. E a comparação dá também nascimento ao conflito, à luta – que se considera coisa muito respeitável. No vosso sentir, deveis estar em competição, para poderdes subsistir neste mundo, e assim comparais e competis nos negócios, na família, nos chamados assuntos religiosos. Precisais de alcançar o céu, para vos sentardes ao lado de Jesus – ou quem quer que seja vosso particular Salvador. O espírito de comparação se reflete no vigário – que quer tornar-se arcebispo, cardeal e, por fim, papa. Esse mesmo espírito nós cultivamos diligentemente durante a nossa vida, lutando para nos tornarmos melhores ou para alcançarmos posição mais alta do que o outro. Nossa estrutura social e moral nisso se baseia.
• Há, pois, em nossa vida, esse constante estado de comparação, competição, e a perene luta para sermos alguém – ou para sermos ninguém, o que vem a dar no mesmo. Isso, suponho, é a raiz de todo o medo, porquanto produz inveja, ciúme, rancores. Onde está o rancor, aí evidentemente não está o amor, e gera-se medo e mais medo.
• Como disse, ficai só escutando. Não pergunteis: como posso deixar de comparar? Que devo fazer para consegui-lo? – nada podeis fazer para acabar a comparação. Se fizésseis alguma coisa, o vosso motivo seria também oriundo da comparação. O que podeis fazer é apenas perceber que essa coisa complexa chamada nossa existência é uma luta comparativa, e que se tentais atuar contra ela, se tentais alterá-la, de novo vos vedes apoderado do espírito comparativo, competitivo. O importante é escutar sem nada desfigurar; e desfiguramos o que estamos escutando ao desejarmos fazer algo a respeito.
• Estamos, pois vendo as implicações e o significado dessa avaliação comparativa da vida, e a ilusão de pensar que a comparação produz compreensão – comparação das obras de dois pintores ou dois escritores; comparação de si próprio com outro menos inteligente, menos eficiente, mais belo, etc., etc. e pode-se viver neste mundo, tanto exterior como interior, sem comparação? Percebem o estado da mente que está sempre comparando – reconhecê-lo como um fato e deixar-se ficar com esse fato – isso exige muita atenção. Essa atenção produz sua disciplina própria, a qual é extremamente flexível; não tem padrão, não é compulsiva, não é ato de controlar, subjugar, negar, na esperança de melhor compreender a questão do medo.
• Essa atitude perante a vida, baseada na competição, é um dos principais fatores de deterioração da mente, não achais? Deterioração da mente supõe embotamento, insensibilidade, declínio, e portanto, completa falta de inteligência. O corpo se deteriora a pouco e pouco, porque vamos envelhecendo; mas a mente também se está deteriorando, e a causa desta deterioração é a comparação, o conflito, o esforço competitivo. A mente semelha um motor a funcionar com excesso de atrito: não pode funcionar adequadamente, e durante o seu funcionamento deteriora-se com rapidez.
• Como vimos, a comparação, o conflito, a competição, não só danifica, mas também causam medo; e onde há medo, há obscuridade, e não existe afeição, compreensão, amor.
• Pois bem, que é o medo? Alguma vez já vos vistes frente a frente com o medo, ou apenas com a ideia do medo? Há diferença entre as duas coisas, não? O fato real – o medo – e a ideia do medo são duas coisas totalmente diferentes. Em geral achamos-nos enredados na ideia do medo, numa opinião, num juízo, numa avaliação do medo, e nunca nos achamos em contato com o fato real – o temor em si. Isso precisa ser ampla e profundamente compreendido.
• Tenho medo, por exemplo, de serpentes. Vi um dia uma serpente que me atemorizou, e essa experiência me permaneceu na mente e na memória. Quando à noite saio e passeio, essa lembrança entra em função e já vou com medo de encontrar uma serpente; assim a ideia do medo se torna mais vital, mais potente do que o próprio fato. Que significa isso? Que nunca estamos em contato com o medo, porem apenas com a ideia do medo. Observai esse fato em vós mesmos. E a ideia não pode se afastada artificialmente. Podeis dizer: Tentarei enfrentar o temor sem a ideia ; mas isso não é possível. Agora, se percebeis realmente que a memória e a ideação vos impede de comungar com o fato – o fato do medo, do ciúme, o fato da morte – então se estabelecerá uma reação completamente diferente entre vós e a realidade.
• Para maioria de nós, a ideia é bem mais importante do que a ação. Nunca agimos completamente. Estamos sempre limitados a ação com ideia, ajustando ou interpretando  a ação de acordo com a formula, um conceito e, por conseguinte, não há ação nenhuma -  ou, antes, a ação é tão incompleta que cria problemas. Mas, uma vez compreendido esse fato extraordinário, a ação se torna coisa sumamente vital, porquanto já não se ajusta a uma ideia.
• O medo não é uma abstração; está sempre em relação com alguma coisa. Tenho medo da morte, medo da opinião pública, medo de não me tornar benquisto, popular, medo de nada realizar, etc.. A palavra medo não é o fato, é apenas um símbolo que o representa, e para a maioria de nós o símbolo, no sentido religioso ou em outro qualquer, é mais importante do que o próprio fato. Ora pode a mente libertar-se da palavra, do símbolo, da ideia, e observar a realidade, a coisa existente, sem interpretação, sem dizer: Preciso olhá-la – sem ter nenhuma ideia sobre ela? Se encaramos o fato, a realidade, com uma opinião a seu respeito, estamos apenas a entreter-nos com a ideia, não é verdade? Portanto, isto é algo que muito importa compreender: que, quando olho um fato através de uma ideia, não há comunhão com o fato. Se quero estar em comunhão com o fato, então a ideia deve desaparecer completamente. Pois bem, prossigamos desse ponto, para ver onde leva.
• Há o fato de que temeis a morte, temeis o que alguém dirá, temeis dúzias de coisas. Ora, quando já não estais olhando esse fato através de uma ideia, de uma conclusão, de um conceito, através da memória, que acontece realmente? Em primeiro lugar, não há separação entre o observador e a coisa observada, o eu com suas opiniões, ideias, juízos, avaliações, conceitos, memórias – tudo isso está ausente, e só há aquela coisa.
• O que estamos fazendo é difícil, não é simples entretenimento matinal. Eu sinto que é possível uma pessoa sair deste pavilhão, nesta manhã, profunda e completamente livre do medo; e, então, essa pessoa é um verdadeiro ente humano.
• Estais, pois, agora, frente a frente com o fato: a sensação ou apreensão que chamais medo e que foi produzida por ideia. Tendes medo da morte (estou dando um exemplo). Ordinariamente, considerais a morte uma simples ideia; não é um fato. O fato só se apresenta quando estais morrendo. Sabeis da morte de outras pessoas, e a compreensão de que também vós tendes de morrer se torna uma ideia geradora de medo. Olhais o fato através da ideia, a qual vos impede o contato direto com o fato. Há um intervalo entre o observador e a coisa observada. É nesse intervalo que surge o pensamento – sendo pensamento a ideação, a verbalização, a memória que oferece resistência ao fato. Mas quando esse intervalo não existe, isto é, quando ausente o pensamento, que é tempo, estais diante do fato; e então o fato atua sobre vós – vós não atuais sobre o fato.
• Espero estejais compreendendo tudo.
• Eu sinto que viver com medo, de qualquer espécie que seja, é – se posso empregar o termo – coisa má. Viver com medo é coisa má porque gera ódio, desfigura o pensar e perverte toda a vossa vida. Portanto, é absolutamente necessário que o homem religioso seja completamente livre do medo, tanto exterior como interiormente. Não me refiro à reação espontânea do corpo físico, para proteger-se, que é natural. É normal, ao verdes uma serpente, saltares para longe dela – o que é apenas instinto físico auto-protetório , e seria anormal não terdes reação. Mas o desejo de se estar em segurança, interiormente psicologicamente, em qualquer nível do próprio ser, gerar medo. Podemos ver em toda parte os efeitos do medo e compreender, assim, quanto é importante que a mente não seja, tempo algum um terreno de cultura do temor.
• Se bem escutastes o que aqui se disse nessa manhã, tereis visto que o medo nunca se acha no presente, porém sempre no futuro; ele é provocado pelos pensamento, pelo pensar no que poderá acontecer amanhã ou daqui a um minuto. Assim, o medo, o pensamento e o tempo são companheiros; e, para se compreender e transcender o medo, é necessária a compreensão do pensamento e do tempo. Todo pensamento comparativo deve cessar; toda ideia de esforço - que envolve competição, ambição, adoração do êxito, luta por torna-se alguém - deve findar. E, uma vez compreendido esse processo, não há conflito nenhum, há? Por conseguinte, a mente já não se acha num estado de deterioração, porquanto é capaz de enfrentar o medo é absolutamente necessário para que se possa compreender o que é criação em regra, a vida é para nós entediante rotina, e nela não encontramos nada novo. toda coisa nova que ocorre, logo a transformamos em rotina. alguém pinta um quadro, que passa a ser novidade, mas logo se torna rotina, tédio, luta perene e pouco significativa. estamos sempre em busca de algo novo - o novo em filmes, o novo em quadros. Queremos sentir e expressar coisas novas, diferentes, não traduzíveis de imediato em termos do velho. esperamos encontrar um certo truque, ou técnica engenhosa mediante a isso acaba-se tornando uma terrível importunação, uma coisa feia, que temos vontade de destruir. achamo-nos, pois num constante estado de reconhecimento. toda coisa nova é imediatamente reconhecida e, assim, absorvida pelo velho. O processo de reconhecimento é, para a maioria de nós, de excepcional importância, visto que o pensamento está sempre funcionando dentro do campo do conhecido.
• No momento que se reconhece uma coisa, ela deixa de ser nova. Compreendeis? Nossa educação, nossa experiência, nosso viver diário - tudo é processo de reconhecimento, de constante repetição, e confere continuidade à nossa existência. com a mente presa nesse processo, perguntamos se existe algo novo; queremos averiguar se há ou não Deus. Partindo do conhecido, pretendemos encontrar o desconhecido. É o conhecido que causa o medo ao desconhecido, e por isso dizemos: Preciso encontrar o desconhecido, reconhecê-lo e trazê-lo para o conhecido. Tal é nossa busca, na pintura, na música, em tudo - a busca do novo,para interpretá-lo sempre em termos velhos.
• Ora, esse processo de reconhecimento e interpretação, de ação e de preenchimento, não é criação. Não há possibilidade de expressar o desconhecido. O que pode expressar é a interpretação ou reconhecimento de algo que chamais o conhecido. Cumpre, pois, descobrir por vós mesmo o que é criação, porque, do contrário, vossa vida é mera rotina, em que nenhuma mudança, nenhuma mutação ocorre, e com a qual vos aborreceis rapidamente. A criação é o próprio movimento criador - e não a interpretação desse movimento na tela, na música, em livros, ou numa reação.
• Afinal de contas, a memória encerra milhões de anos de lembranças, de instintos, e o impulso para ultrapassar tudo isso faz parte da mente. desse fundo do velho procede o desejo de reconhecer o novo; mas o novo é algo totalmente diferente - ele é amor - e não pode ser compreendido pela mente que está aprisionada no processo do velho e tentando reconhecer o novo.
• Esta é uma das coisas mais difícies de transmitir, de comunicar; mas desejo comunicá-la, se possível porque a mente que não se acha nesse estado criador está sempre em processo de deterioração. Esse estado é intemporal, eterno. Não comparativo", não é utilitário, nenhum valor tem em termos de ação; ninguém pode servi-se dele para pintar quadros ou escrever maravilhosa poesia shakespeariana. Mas, sem ele, não há realmente o amor. O amor é conhecemos é ciume, geralmente cercado de ódio, ansiedade, desespero, aflição, conflito; e nada disso é amor. O amor é coisa eternamente nova, irreconhecível; ele nunca é o mesmo, e, por conseguinte, é o supremo estado de incerteza. E só no estado de amor pode a mente compreender essa coisa extraordinária chamada criação - que é Deus, ou outro nome que lhe quiserdes dar. Só a mente que compreendeu a limitações do conhecido e, consequentemente, dele ficou livre - pode achar-se naquele estado criativo em que não existe fator de deterioração. (AD)
"Todas as flores do futuro estão nas sementes de hoje." (Provérbio chinês)

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