21 de abr de 2011

É proibido achar!

. Chego em casa à noite, exausto.
. A mesa vazia. Nada sobre o fogão. Nem no forno.
. Nem na geladeira. Não há jantar. Pior!
. Os ovos, sempre providenciais, acabaram.
. Sou forçado a me contentar com um copo de leite e bolachas.
. No dia seguinte, revolto-me diante da empregada.
. - Passei fome!
. - Ih! Achei que o senhor não vinha jantar!
. Solto faíscas que nem um fio desencapado, ao ouvir o verbo achar, em qualquer conjugação.
. É um perigo achar. Não no sentido de expressar uma opinião, mas de supor alguma coisa.
. Tenho trauma, é verdade!
. Tudo começou aos 9 anos de idade.
. Durante a aula, fui até a professora e pedi: - Posso ir ao banheiro?
. Ela não permitiu. Agoniado, voltei à carteira. Cruzei as pernas. Cruzei de novo. Torci os pés.  Impossível escrever ou ouvir a lição. Senti algo morno escorrendo pelas pernas. Fiz xixi nas calças!
. Alguém gritou: - Olha, ele fez xixi!
. Dali a pouco toda a classe ria.
. E a professora, surpresa: - Ih... eu achei que você pediu para sair por malandragem!
. Vítima infantil, tomei horror ao achismo.
. Aprendi : sempre que alguém acha alguma coisa, acha errado.
. Meu assistente, Felippe, é mestre no assunto.
. - Não botei gasolina no carro, porque achei que ia dar! - explica, enquanto faço sinais na estrada, tentando carona até algum posto.
. Inocente não sou.
. Traumatizado ou não, também já achei mais do que devia. Quase peguei pneumonia na Itália, por supor que o clima estaria ameno e não levar roupa de inverno.
. Palmilhei mercadinhos de cidades desconhecidas, por imaginar que hotéis ofereceriam pasta de dente.
. Deixei de ver filmes e peças, por não comprar ingressos com antecedência, ao pensar que estariam vazios.
. Fiquei encharcado ao apostar que não choveria, apesar das previsões do tempo.
. Viajei quilômetros faminto, por ter certeza de que haveria um bar ou restaurante aberto à noite, em uma estrada desconhecida.
. Há algum tempo, vi um livro muito interessante em um antiquário. Queria comprá-lo. Como ia passar por outras lojas, resolvi deixar para depois. Ninguém vai comprar esse livro, justo agora! - disse a mim mesmo. Quando voltei, fora vendido. Exemplar único. - O senhor podia ter reservado - disse o antiquário. - É, mas eu achei...
. Mas, eu me esforço para não achar coisa alguma.
. Quem trabalha comigo não pode mais achar. Tem de saber.
. Mesmo assim, vivo enfrentando surpresas.
. Nas relações pessoais é um inferno: encontro pessoas que mal falavam comigo, porque achavam que eu não gostava delas.
. Já eu não me aproximava, por achar que não gostavam de mim!
. Acompanhei uma história melancólica.
. Dois colegas de classe se encontraram trinta anos depois. Ambos com vida amorosa péssima, casamento desfeito. Com a sinceridade que só a passagem do tempo permite, ele desabafou: - Eu era apaixonado por você naquela época. Mas nunca me abri. Achei que você não ia querer nada comigo.
. Ela suspirou, arrasada. - Eu achava você o máximo!
. Como nunca se aproximou, pensei que não tinha atração por mim!
. Os dois se encararam, arrasados.
. E se tivessem namorado?
. Talvez a vida deles fosse diferente!
. É óbvio, poderiam tentar a partir de agora.
. Mas o que fazer com os trinta anos passados, a bagagem de cada um?
. Quando alguém me diz: - Eu acho que...
. Respondo: - Não ache, ninguém perdeu nada.
. Adianta? Coisa nenhuma!
. Vivo me dando mal, porque alguém achou errado!
. Sempre que posso, insisto: - Se não sabe, pergunte!
. É o lema que adotei: melhor que achar, sempre é verificar!
(Walcyr Carrasco)

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