28 de jul de 2010

Plácido, o protetor de animais

Plácido é um sujeito do bem. Procura levar sua vida evitando confusões, o que nem sempre consegue. É funcionário público, mais precisamente professor da Rede Pública de ensino e após a separação, mora na casa da mãe, Dona Vilma, mais seus 15 cães, na maior parte recolhidos das ruas.
Certo dia, Plácido voltava da escola, caminhando após sair da estação do metrô, quando se deparou com um cãozinho deitado na calçada. O animal era pequeno, branco com machas pretas, inclusive uma mancha bem em cima de um dos olhos, lembrando um tapa-olho de pirata.
O cachorrinho olhou para Plácido e tentou se levantar, mas não conseguiu. Levantava-se nas patas dianteiras, mas as traseiras não acompanhavam. Aparentava ter sido atropelado e ter alguma fratura.
Plácido era sempre de ajudar um animal nestas condições, mas estava em dificuldades financeiras. Tinha acabado de receber seu salário, mas uma parte já ficou retida na fonte para pagar a pensão alimentícia, outra parte foi engolida pelo desconto do crédito consignado que ele estava sempre renovando. Tirando os outros compromissos do mês, que ele procurou pagar no mesmo dia, não sobrou um tostão na carteira.
Plácido já tinha muitos animais em casa, além do que seria um número razoável, não tendo onde colocar mais um. Além do mais, sabia que este piratinha precisaria de auxílio veterinário, raio-X e alguns dias de internação, ser tratado, para depois tentar uma adoção.
Plácido respirou fundo, fechou os olhos, pediu perdão a Deus, mas não parou. Atravessou a rua e com duzentos quilos de peso na consciência decidiu que desta vez não se envolveria, pois não tinha condições de ajudar.
Foi andando a passos rápidos carregando um remorso que na verdade deveria ser dividido com toda a sociedade, mas que neste momento era só dele. Ao se aproximar de dobrar a esquina, resolveu dar uma olhadinha para trás, torcendo para que mais alguém tivesse se interessado, parado e recolhido o Pirata. Torcida frustrada. Ninguém parou e ele ainda estava lá, olhando cada humano que passava como que pedindo ajuda. Plácido sentiu os joelhos tremerem e falou com sigo mesmo:
- "Não consigo, não adianta. Não tenho um tostão, mas se eu deixar este cachorrinho lá não vou dormir por muitos dias pensando nele e na situação em que se encontra. É mais forte do que eu. Vou voltar."
Deu meia volta e se aproximou do Pirata. Abaixou-se e fez um carinho em sua cabeça:
- "Hei, amigão, o que aconteceu com você? Tá doendo? Eu vou te ajudar. Aguenta firme, tá bom? Você não está mais sozinho, nós estamos juntos agora. Ferrados, mas juntos."
Plácido teve que enfrentar então outro dilema. Para não dizer que não tinha nada, na verdade carregava cem reais que sua mãe lhe entregara dizendo:
- "Plácido, na volta da escola passe no mercado e faça uma compra básica para a semana. Nossa dispensa está vazia. Macarrão, feijão, arroz, açúcar, óleo, café e mais algumas coisas. Normalmente eu mesma vou ao mercado, mas minhas pernas estão me matando. Olha, não vai gastar este dinheiro com outra coisa, nem com bicho, vê lá, hein?"
Plácido pensou no mercado e olhou para o cachorrinho atropelado. Passou a mão por baixo do cãozinho e caminhou para a clínica veterinária da Dra. Flávia, veterinária solidária, que estava sempre ajudando o Plácido, conforme podia.
Com o Pirata já em cima da mesa do consultório, a Dra. falou:
- "Plácido, pelo exame clínico, não percebo fraturas nos ossos das patas, mas uma crepitação na região da bacia. Vamos precisar de um raio-X, medicação para dor e alguns dias de internação. Você já me conhece, vou cobrar o menos possível, por ser um animal que veio da rua, mas tem custos para mim, então alguma coisa você vai ter que gastar."
Plácido ciente e concordando, puxou do bolso os cem reais do mercado e falou:
- "Flávia, tenho agora cem reais, o resto você pode pendurar?"
A Veterinária sorriu compreensiva e consentiu.
– "Plácido, eu te conheço, sei que este cachorrinho nem é seu e sei também que tenho uma responsabilidade social e para com os animais. Vamos fazer o possível para recuperar o Pirata."
Plácido agradeceu, abraçou e beijou o novo amigo, e com os olhos marejados foi saindo da clínica. Ao atravessar a porta da recepção a Dra. o chamou:
- "Plácido, eu já ia me esquecendo. Recebemos de uma cliente empresária uma doação de umas cestas básicas. Ela disse para distribuirmos para pessoas que ajudam os animais. Você não quer levar uma?"
Plácido sorriu, lembrou que Deus existe e pelo menos desta vez escapou da bronca justa da Dona Vilma. (Wilson Grassi)
"Chegará o dia em que o homem conhecerá o íntimo de um animal. E, nesse dia, todo o crime contra um animal será um crime contra a humanidade". (Leonardo da Vinci)

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