28 de fev de 2010

O país quer respostas


Dirão lulistas, petistas e governistas ter sido por conta do desenvolvimento político, social e administrativo dos últimos oito anos, no país. Já os que se alinham na oposição responderão pelo lado oposto: foi apesar do Lula, do PT e do sistema formado pelo governo.

Ironicamente, a conclusão é a mesma: concordam todos em que o Brasil avançou, a população mostra-se mais consciente e agora que a sucessão presidencial precipitou-se, queremos respostas concretas. Passou o tempo em que os candidatos se apresentavam por conta da simpatia, das características pessoais ou demagógicas, das idiossincrasias e até dos defeitos.

Hoje, não basta que se mostrem ao eleitorado procurando sensibiliza-lo pela emoção, como fazem os clubes de futebol ou as escolas de samba. É preciso que tenham time ou enredo.

Assim, estão os pretendentes ao palácio do Planalto devendo respostas à população. Dilma Rousseff, por exemplo, precisa avançar bem mais do que nas promessas de dar continuidade às realizações do presidente Lula. José Serra necessita quebrar a casca e demonstrar dispor de um programa situado acima e além do neoliberalismo de Fernando Henrique Cardoso. Marina Silva obriga-se a ser mais do que uma guarda florestal. Ciro Gomes, não apenas um concorrente de perfil novo. Dos nomes colocados na disputa, apenas Roberto Requião começou a detalhar aspectos concretos do que pretende desenvolver, mas, mesmo assim, deve pormenorizar mais os seus planos.

Vale colocar diante deles certas questões objetivas, pinçadas em meio a um cipoal de dúvidas que apenas depois de respondidas levarão o cidadão comum a definir-se na hora de digitar sua preferência.

Com relação à reforma agrária, o que pretendem? Apenas conviver, estimulando ou restringindo invasões? Como estender as propriedades rurais a um número infinitamente maior de camponeses sem-terra entregues por enquanto a protestos sem maiores resultados? Incentivar a atividade familiar ou ampliar o agro-negócio?

Frente à crise energética que assusta o planeta, fazer o quê? Definir metas para a implantação de quantas e quais hidrelétricas? Levar a Petrobrás a dividir as esperanças futuras do pré-sal com um planejamento efetivo da multiplicação do etanol? Como conciliar os interesses dos usineiros com a importância de preços estáveis para a cana?

O que pensam da sempre anunciada e jamais concretizada reforma tributária? Apenas condenar a carga fiscal avolumada a cada década ou propor mudanças fundamentais, diminuindo o volume dos impostos diretos e indiretos? Levar a Receita Federal a reduzir os encargos sobre a classe média e aumenta-los para as elites?

Como realizar a ansiada reforma política, mantendo ou suprimindo a reeleição, ampliando os mandatos executivos, estabelecendo em que limites o financiamento público das campanhas, impedindo ou não condenados pela justiça de se candidatarem a postos eletivos? Extirpar de vez a farra das medidas provisórias, limitando os poderes do estado legislador e exigir do Congresso o cumprimento de seus mínimos deveres legiferantes? Que tal enfrentar a proliferação de partidos de aluguel?

Pretendem reduzir as privatizações,devolvendo ao poder público a gestão de atividades ligadas à soberania nacional, como a exploração do subsolo e das telecomunicações?

Permitirão o aumento dos monopólios nos meios de comunicação ou optarão por restrições à propriedade por um mesmo grupo de veículos da mídia impressa e eletrônica? Buscarão, afinal, regulamentar o artigo 220 da Constituição, criando mecanismos para a defesa do cidadão e da família dos excessos da programação do rádio e da televisão? Se jamais através da censura, seria então através de penas capazes de passar da simples advertência à suspensão e até a cassação de concessões?

Reduzir o número de ministérios, hoje 39, enxugando a máquina pública e diminuindo o número de cargos em comissão na administração federal, atualmente fonte de corrupção e incompetência? Descentralizar a ação oficial, cedendo às prefeituras parte dos encargos acumulados em Brasília?

São centenas as respostas pelas quais o eleitor está ansiando, passando pelos gargalos da educação, da saúde, do saneamento, da infra-estrutura e outros. Pouco adianta ficar nas generalidades, é preciso que os candidatos apresentem propostas concretas, até geográficas, em vez de rótulos balofos e ineficazes. O que, quando, onde e como.

Passou o tempo em que o cidadão votaria em Dilma por ser mulher e ter sido indicada pelo presidente Lula. Ou que daria preferência a Serra porque governa São Paulo e é correligionário de Fernando Henrique. E assim com relação aos demais candidatos. Vale repetir, o país quer respostas. (Carlos Chagas)

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