O
que aconteceu na sessão do STF da última quinta-feira, 7 de novembro, não foi
uma simples decisão sobre tema constitucional. Foi uma ação articulada,
complexa, que devolveu às ruas e às negociatas mais de quatro mil criminosos
sobre cuja culpa o próprio Direito brasileiro não admite dúvida.
O
presidente Dias Toffoli poderia não ter pautado a matéria. Optou por fazê-lo e
colher o resultado previamente conhecido. Abriram-se, então, as portas das
prisões para que, “de cambulhada”, na expressão tão repetida pelo ministro
Marco Aurélio, fossem libertados corruptos, corruptores, líderes de
organizações criminosas, bandidos endinheirados, réus confessos, que praticaram
o maior assalto a um país de que se tem notícia na história universal. Não
estranharei se até o dinheiro roubado e devolvido lhes for restituído, pois não
podem ser considerados culpados antes do Juízo Final...
Aquela
saudável sensação de justiça sendo feita exauriu-se. A associação criminosa
entre políticos e empresários recuperou o status privilegiado da impunidade. O
baixo risco dos negócios passará a reativar os canais da corrupção. E os que se
exibiram à nação como guardiões da pureza constitucional acabaram ampliando a
hostilidade da nação à sua Carta, ao STF, à política e às instituições do país.
Belo serviço! Essa é a colheita de uma deliberação infame que transmitiu à
sociedade inequívoco sentimento de derrota e desesperança.
A
“maioria de circunstância” (para usar a expressão de Joaquim Barbosa ao
encerar, frustrado, o julgamento do mensalão) responsável pela imperdoável
decisão, contou com a reversão de duas convicções. Com efeito, a mostrar quão
movediças podem ser certas dissertações jurídicas e quão infiel pode ser o amor
à lei, Dias Toffoli e Gilmar Mendes já haviam votado anteriormente sobre tal
assunto expressando convicção oposta. Não fosse esse giro retórico de 180
graus, o placar da deliberação da última quinta-feira teria sido de 7 a 4 no
entendimento oposto. E a nação, insisto em dizer, estaria servida, o interesse
público resguardado, a estabilidade jurídica reafirmada e a justiça preservada.
Gilmar
Mendes, ao justificar sua mudança de opinião, afirmou que “sempre teve
‘inquietação’ com a possibilidade de prisões serem realizadas de modo
‘automático, sem a devida individualização’ e que seu pensamento evoluiu, desde
2016, por conta de mudanças no contexto do sistema penal do país”. Ou seja, não
foi a leitura silábica e rasa do texto constitucional que o influenciou, mas a
apreciação que fez do sistema penal. Poderia olhar o bem do país, avaliar o
estrago que estava fazendo, medir o impacto ético da decisão adotada. Mas não
quis. Preocupou-se mais com o “contexto do sistema penal do país”, seja lá o
que isso queira dizer.
Agora
é hora de pressionar os congressistas. Façam eles – e façam logo – o que já
deveriam ter feito, dirimindo para sempre as dúvidas sobre as condições que
devem orientar o início do cumprimento das penas de prisão. (Percival Puggina, é
arquiteto, empresário e escritor)
ooo0ooo
Viva como
as flores!
"Em
um antigo mosteiro budista um jovem monge questionava o mestre: - Mestre, como
faço para não me aborrecer com as pessoas? Algumas falam demais, outras são
ignorantes. Algumas são indiferentes. Sinto ódio das que são mentirosas e sofro
com as que caluniam.
- Pois viva
como as flores! – advertiu o mestre.
- Como é
viver como as flores? – perguntou o discípulo.
-
Repare nestas flores – continuou o mestre, apontando os lírios que cresciam no
jardim.
–
Elas nascem no esterco, entretanto são puras e perfumadas. Extraem do adubo
malcheiroso tudo que lhes é útil e saudável, mas não permitem que o azedume da
terra manche o frescor de suas pétalas. É justo que você se angustie com as
próprias culpas, mas não é sábio permitir que os vícios dos outros o
importunem.
Os defeitos
deles são deles, e não seus. Se não são seus, não há razão para aborrecimentos.
Exercitar, pois, a virtude é rejeitar todo mal que vem de fora...Isso é viver
como as flores."

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