22 de out. de 2019

A Censura está voltando...


Sutilmente, mas já mostrando nítidos contornos de um percurso sonhado e  desejado pelo atual Sistema de Poder que comanda o País, vemos, aqui e  ali, sinais cada vez mais frequentes de que a Censura começa a dar seus  primeiros passos, para se instalar novamente por aqui.... Sem armas, sem  leis, sem proibições claras, mas com um indisfarçável apetite, são várias as  “ocorrências proibitivas” que tem aparecido, nos três Poderes da República....

Enquadramento de nossa Educação que, a cada dia mais, proíbe os professores de tratar temas que não são bem vistos pelos donos do Poder,  castração de  formas de expressão e de comportamentos diferenciados    que não se enquadram dentro do “padrão tradicional”, desejado pela  rigidez ético/religiosa dominante, proibição, pelo STF, de ações  fiscalizadoras e  denunciadoras,  feitas por Órgãos  Técnicos,  em  relação a desvios de políticos e autoridades, sustação, também pelo STF, de processos    em fase adiantada de apuração e que apontam para  figurões  da  República....

O propalado “combate à corrupção”, tão utilizado e tão agigantado na campanha do atual presidente, vem sofrendo de asfixia, sem dúvida alguma, nas asas desse Inconcebível mecanismo que se chama  “Censura” !....

Nessa linha, vejam o impensável e surpreendente episódio abaixo,  envolvendo a “Revista VEJA” e seu mais icônico colunista, JR  GUZZO:

Como todos sabem, Jr Guzzo é um dos maiores jornalistas existentes neste País, atuou na Revista VEJA desde seu primeiro número, em 1968,  portanto, há mais de 50 anos! Desde 2008, mantinha um  texto  quinzenal,  abordando os mais variados e complexos temas, de modo adequado,  apropriado, construtivo e, muitas vezes, denunciador... Pode-se, até, discordar de algumas de suas opiniões, mas, jamais, de sua competência e de sua positiva contribuição para o debate no País!

Pois bem: na Edição de VEJA de 16/10/2019, seu texto sobre o atual STF,  não foi publicado pela Revista!... Nele, Jr Guzzo, entre outras coisas, nos  mostrava  que “somente o calendário”, poderia salvar e melhorar o atual  STF! Isto é, o calendário, o tempo, os anos, iriam aos poucos substituindo  esses atuais Ministros e, quem sabe, lá na frente, teríamos outro colegiado, certamente melhor que o atual, vez que,  dificilmente, poderiam aparecer  outros Ministros, piores que os  atuais!....

A Revista VEJA “censurou” o texto e não quis publicá-lo, evidentemente, usando um direito seu de publicar somente aquilo que deseja!....  Mas é um sintoma!.....

Não existem LIBERDADE nem DEMOCRACIA, com Censura! E nossa Liberdade e nossa Democracia estão correndo sério risco  de  se  apagarem,  com esse  atual   sinalizador de  afago à Censura, que vem sendo   cultivado pelo governo central e pelos demais Poderes!

Que Deus  nos  proteja. (Márcio Dayrell Batitucci)
ooo0ooo
Comunicado  do  JR GUZZO,  sobre  o  episódio  acima:

“Caros amigos

Desde ontem, 15/10/19, não sou mais colaborador da revista “Veja”, na qual entrei em 1968, quando da sua fundação, e onde mantinha uma coluna quinzenal desde fevereiro de 2008. A primeira foi publicada na edição de 13/02/2008. A partir daí a coluna não deixou de sair em nenhuma das quinzenas para as quais estava programada.

Na última edição, com data de 16/10/19, a revista decidiu não publicar a coluna que eu havia escrito. O artigo era sobre o STF, e sustentava, como ponto central, que só o calendário poderia melhorar a qualidade do tribunal - já que, com a passagem do tempo, cada um dos 11 ministros completaria os 75 anos de idade e teria de ir para casa. Supondo-se que será impossível nomear ministros piores que os destinados a sair nos próximos três ou quatro anos, a coluna chegava à conclusão que o STF tende a melhorar.

A liberdade de imprensa tem duas mãos. Em uma delas, qualquer cidadão é livre para escrever o que quiser. Na outra, nenhum veículo tem a obrigação de publicar o que não quer. Ao recusar a publicação da coluna mencionada acima, “Veja” exerceu o seu direito de não levar a público algo que não quer ver impresso em suas páginas. A partir daí, em todo caso, o prosseguimento da colaboração ficou inviável.

Ouvimos, desde crianças, que não há bem que sempre dure, nem mal que nunca se acabe. Espero que esta coluna tenha sido um bem que não durou, e não um mal que enfim acabou.

Muito obrigado.”

Texto vetado e censurado pela VEJA e que motivou a saída de Guzzo do quadro de articulistas.

A fila anda... (J.R. Guzzo)
ooo0ooo
“Um dos grandes amigos do Brasil e dos brasileiros de hoje é o calendário. Só ele, e mais nenhum outro instrumento à disposição da República, pode resolver um problema que jamais deveria ter se transformado em problema, pois sua função é justamente resolver problemas – o Supremo Tribunal Federal.

O STF deu um cavalo de pau nos seus deveres e, com isso, conseguiu promover a si próprio à condição de calamidade pública, como essas que são trazidas por enchentes, vendavais ou terremotos de primeira linha. Aberrações malignas da natureza, como todo mundo sabe, podem ser resolvidas pela ação do Corpo de Bombeiros e demais serviços de salvamento.

Mas o STF é outro bicho. Ali a chuva não para de cair, o vento não para de soprar e a terra não para de tremer – não enquanto os indivíduos que fabricam essas desgraças continuarem em ação.

Eles são os onze ministros que formam a nossa “corte suprema”, e não podem ser demitidos nunca de seus cargos, nem que matem, fritem e comam a própria mãe no plenário.

Só há uma maneira da população se livrar legalmente deles: esperar que completem 75 anos de idade. Aí, em compensação, não podem ser salvos nem por seus próprios decretos. Têm de ir embora, no ato, e não podem voltar nunca mais.

Glória a Deus.

Demora? Demora, sem dúvida, e muita coisa realmente ruim pode acontecer enquanto o tempo não passa, mas há duas considerações básicas a se fazer antes de abandonar a alma ao desespero a cada vez que se reúne a apavorante “Segunda Turma” do STF – o símbolo, hoje, da maioria de ministros que transformou o Supremo, possivelmente, no pior tribunal superior em funcionamento em todo o mundo civilizado e em toda a nossa história.

A primeira consideração é que não se pode eliminar o STF sem um golpe de Estado, e isso não é uma opção válida dos pontos de vista político, moral ou prático. A segunda é que o calendário não para.

Anda na base das 24 horas a cada dia e dos 365 dias a cada ano, é verdade, mas não há força neste mundo capaz de impedir que ele continue a andar. Levará embora para sempre, um dia, Gilmar Mendes, Antônio Toffoli, Ricardo Lewandovski. Antes deles, já em novembro do ano que vem e em julho de 2021, irão para casa Celso Mello e Marco Aurélio – será a maior contribuição que terão dado ao país desde sua entrada no serviço público, como acontecerá no caso dos colegas citados acima. E assim, um por um, todos irão embora – os bons, os ruins e os horríveis.

Faz diferença, é claro. Só os dois que irão para a rua a curto prazo já ajudam a mudar o equilíbrio aritmético entre o pouco de bom e o muitíssimo de ruim que existe hoje no tribunal.

Como é praticamente impossível que sejam nomeados dois ministros piores do que eles, o resultado é uma soma no polo positivo e uma subtração no polo negativo – o que vai acabar influindo na formação da maioria nas votações em plenário e nas “turmas”. Com mais algum tempo, em maio de 2023, o Brasil se livra de Lewandovski.

A menos que o presidente da época seja Lula, ou coisa parecida, o ministro a ser nomeado para seu lugar tende a ser o seu exato contrário – e o STF, enfim, estará com uma cara bem diferente da que tem hoje. O fato, em suma, é que o calendário não perdoa.

O ministro Gilmar Mendes pode, por exemplo, proibir que o filho do presidente da República seja investigado criminalmente, ou que provas ilegais, obtidas através da prática de crime, sejam válidas numa corte de justiça. Mas não pode obrigar ninguém a fazer aniversário por ele. Gilmar e os seus colegas podem rasgar a Constituição todos os dias, mas não podem fugir da velhice.

O Brasil que vem aí à frente, por esse único fato, será um país melhor. Se você tem menos de 25 ou 30 anos de idade, pode ter certeza de que vai viver numa sociedade com outro conceito do que é justiça.

Não estará sujeito, como acontece hoje, à ditadura de um STF que inventa leis, censura órgãos de imprensa e assina despachos em favor de seus próprios membros. Se tiver mais do que isso, ainda pode pegar um bom período longe do pesadelo de insegurança, desordem e injustiça que existe hoje.

Só não há jeito, mesmo, para quem já está na sala de espera da vida, aguardando a chamada para o último voo. Para estes, paciência. (Poderiam contar, no papel, com o Senado - o único instrumento capaz de encurtar a espera, já que só ele tem o poder de decretar o impeachment de ministros do STF.  Mas isso não vai acontecer nunca; o Senado brasileiro é algo geneticamente programado para fazer o mal).

Para a maioria, a vitória virá com a passagem do tempo."

Nenhum comentário:

- - - - - - - - Postagens Mais Visitadas - - - - - - - -