Minha estrada é vasta e venho de
longe. No caminho fiz amigos de todas as tribos, culturas e filosofias. Sempre
procurando aprender e compreender o que leva o ser humano a ser tão genial e
cometer tantas barbaridades. Na maioria das vezes tentando usar os 2 olhos e 2
ouvidos em detrimento da única boca. Aprendi com meu pai, um mestre nessa arte,
que só falava oportunamente. Em compensação mamãe descontava, falando pelos
cotovelos, mas pra isso estudou a vida inteira, ela que foi diplomata de
carreira e sempre insistiu comigo para sempre estudar e me preparar pra não
falar besteira.
Desde sempre aprendi então que o
português é o cartão de visita de quem vive em Terra Brasilis, que a história é
a base cronológica da argumentação e que estudar filosofia ajuda muito o
raciocínio lógico e a compreensão de eros. Com certeza uma bela influência que
guardamos de nossa mãe. Meu irmão, por exemplo, é pós-graduado em filosofia na
Alemanha. Vai debater com ele pra ver se é um passeio no parque?
Ao mesmo tempo por ser criado num
lar plural, com pai Trabalhista e mãe Udenista, aprendi desde sempre que a
discussão política é basilar no pensamento humano. Somos animais políticos e
que esta só -e somente só- deve ser travada num ambiente de respeito às ideias
dos interlocutores. Caso contrário, quebraríamos os pratos em cada refeição lá
em casa. Pelo contrário, sempre fomos da sopa à sobremesa e saímos alimentados,
com os pratos salvos e com a cabeça sempre um pouco mais aberta a novas
propostas.
Casualmente li, esta semana, um
texto publicado pela revista americana Foreign Affairs
(https://www.foreignaffairs.com/…/201…/your-brain-nationalism) que fala das
interpretações feitas pelo córtex cerebral mediante estímulos contraditórios e
ações mecânicas não usuais, em pleno escaneamento cerebral. As reações sempre
tardam quando o raciocínio entra em ação, deixando claro que o ser humano traz
razões culturais. Pelo estudo os próprios fundamentos do afeto e da cooperação
também estão na raiz dos impulsos sombrios da humanidade. A culpa não é
cultural; é atávica. O hormônio ocitocina, o mesmo que regula seu afeto e
docilidade pela mãe desde o tempo do peito, quando vc não compreendia nada, é o
mesmo responsável por agregar e dar estrutura fraternal a grupos heterogêneos,
como um time de futebol ou uma claque partidária. É ela, a ocitocina, que leva
os mamíferos a esse comportamento gregário e de proteção de grupo, mas que os
faz feroz contra quem aparentemente está fora, quem não pertence ao mesmo
“clã”. E a liberação do hormônio torna o grupo feroz, além de irracional. Sejam
estes, chimpanzés de Uganda, torcedores de um clube de futebol, ou uma claque
política.
Quem não aprende a controlar seus
instintos, usando a razão a seu favor, vai sempre agir como um bando que
precisa proteger os seus a todos custo, mesmo que não esteja sendo atacado,
enquanto vai tentar destruir aquilo, ou quem, foi detectado como inimigo. É
este o motivo científico da radicalização do debate, do “nós contra eles”. E a
dissonância cognitiva daqueles não tentam entender o contraditório, preferindo
fechar-se no casulo do pensamento único, os levará a quebrar os pratos antes de
aproveitar a refeição, inviabilizando duas coisas fundamentais à espécie
humana: alimentar-se e desenvolver ideias, mas enfim, quem prefere se comportar
como um bando de chimpanzés, não vai ter capacidade para entender o
contraditório e fazer evoluir ideias dentro de um cérebro limitado.
Daí pra se apaixonar pelo algós,
por quem o colocou no cativeiro e causou sua tragédia, porque o alimenta e o
mantém dentro do mesmo grupo é apenas uma demonstração de Síndrome de
Estocolmo". (Marco Poli é jornalista)
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