Há anos venho apontando a
deformidade que, aos poucos, foi atribuindo ao STF o atual aspecto suspeito e
assustador. Ele perturba a nação, infunde sentimentos de revolta e já nem tenta
dissimular seu viés totalitário. Essa deformidade levou ao que se lerá nas
linhas a seguir: uma verdadeira repulsa aos padrões morais da sociedade.
Não há, entre nossos ministros,
um único conservador e um único liberal. Tamanha exclusão da divergência só
vamos encontrar em tribunais constitucionais de países como Cuba, Venezuela e
Coreia do Norte.
O prefeito do Rio de Janeiro
mandou recolher a publicação de uma história de super-heróis destinada ao
público infantil, na qual se insere um “beijo gay” entre os personagens. O
autor do texto certamente considera esse conteúdo indispensável à narrativa.
Afinal, parece que nenhum herói será suficientemente heroico e valente se não
arrostar tais situações.
Seguiu-se uma série de marchas e
contramarchas judiciais até que o assunto, numa velocidade que nem os advogados
de Lula conseguiriam superar, foi bater no STF. A casa das grandes decisões
nacionais não poderia ficar fora dessa. Parem as máquinas! Suspendam as
audiências! Há um beijo gay a ser escrutinado à luz da “Carta Cidadã de
Ulysses”. Dias Toffoli, Gilmar Mendes, Celso de Mello vieram às falas,
ouriçados em sua sensibilidade progressista. Naquela Corte, paradoxalmente,
ninguém é mais “progressista” do que o decano, que saiu verberando: “Mentes
retrógradas e cultoras do obscurantismo e apologistas de uma sociedade
distópica erigem-se, por ilegítima autoproclamação, à inaceitável condição de
sumos sacerdotes da ética e dos padrões morais e culturais que pretendem impor,
com o apoio de seus acólitos, aos cidadãos da República!!!".
Curiosamente, é bem o que a
sociedade pensa dele e de seus pares quando os vê empenhados em corrigir e reiterar
as opiniões dos demais cidadãos.
Segundo Dias Toffoli, o ECA
obriga o uso de advertência sobre o conteúdo quando ele envolve coisas como
"bebidas alcoólicas, tabaco, armas e munições”. E acrescentou que os
materiais destinados a crianças e adolescentes devem “respeitar os valores
éticos e sociais da pessoa e da família”. A imagem de dois homens se beijando
não se enquadraria, segundo ele, em qualquer desses conceitos. Dito assim,
claro que não. Contudo, criança, até segunda ordem, é uma pessoa, uma pessoa
muito especial. E a preservação de sua inocência é um desses “valores éticos e
sociais” de que fala a Constituição. Em que momento deixou de ser? Quando
trocamos a inocência das crianças pela retórica pretensiosa de Celso de Mello?
Doravante, qualquer conteúdo
homossexual, mesmo que exclusivamente homossexual, fica liberado para venda ao
público infantil, com o vigor e o atrativo dos super-heróis e dos
superbandidos, e com as bênçãos do STF. Criatividade não faltará para quem
quiser forçar ainda mais a barra. (Percival Puggina, arquiteto, empresário e
escritor)
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