Um prédio do tamanho de um morro se ergue numa área central
de Caracas como um gigantesco caracol de cimento rodeado de favelas.
De forma helicoidal, na singularidade de sua forma e
proporções alberga a mais sinistra prisão e centro de torturas e assassinatos
gerido pela polícia política socialista da Venezuela, segundo se deduz de
reportagem de “Clarín”.
“El Helicoide” é a sede do temido SEBIN, ou Serviço
Bolivariano de Inteligência Nacional. O edifico monumental encarna uma lição
das mais perversas, mas paradoxalmente instrutiva, da história da Venezuela nas
últimas décadas.
O tétrico prédio foi construído em volta do morro La Roca
Tarpeya com 13 andares de concreto. O hoje círculo monstruoso de horrores de
início foi imaginado como o primeiro shopping “drive through” da América
Latina. Os clientes poderiam ir de loja em loja com seu carro.
A bonança petroleira permitia sonhos como esse, com ar de
ciência ficção e sonho fantástico, como certos empreendimentos de emirados do
Golfo Pérsico.
O design evoca a torre de Babel. Às 320 lojas repletas do
melhor que a superabundância de petrodólares permitia trazer do mundo todo, se
acrescentariam centros de exposição artística, ginásios, piscinas,
kindergardens, centro “multicinema”, área com tudo para o carro e oficinas.
Haveria ascensores inclinados para percorrer os diferentes
andares e o conjunto teria sua própria emissora de rádio: Radio Helicoide.
“El Helicoide” nunca foi terminado. Entre favelas e com suas
apodrecidas entranhas repletas de prisioneiros da polícia secreta chavista, é
um símbolo perfeito da queda aos infernos da Venezuela na maior catástrofe
econômica do continente.
Durante anos “El Helicoide” permaneceu vazio e inconcluso.
Converteu-se num antro de prostituição e drogas até virar o lar da polícia de
Chávez e Maduro.
Essa mistura no local criminosos comuns com prisioneiros
políticos em condições abaixo do que se pode tolerar.
A BBC News registrou a prisão do jornalista alemão Billy
Six, de 31 anos.
Six cometeu o crime de informar para o exterior a sorte dos
venezuelanos que fugiam para a Colômbia. Nunca cometeu nada que pudesse se
aproximar a um delito.
Então, a polícia secreta acusou-o falsamente de ser membro
das FARC e tirar fotos em área proibida perto do presidente Nicolás Maduro. Foi
levado ao “El Helicoide” e não se soube mais nada dele.
A BBC procurou ex-prisioneiros que estiveram na casa de
terror. Falou com familiares, com dois ex-guardas e pode reconstituir a vida no
antro.
Um opositor de 32 anos, um dos 3.000 presos em massivas
redadas contra opositores foi acusado de financiar protestos em 2014, fez
revelações estarrecedoras.
Todo dia ingressavam no Helicoide ônibus repletos de vítimas
das redadas, inclusive pessoas que não tinham nada a ver com as manifestações.
Lá dentro, aquilo que foi imaginado para lojas de luxo foi
dividido em celas, até os banheiros e escadas já decrépitas. Numa cela de 12
por 12 metros haviam até 50 presos, consumidos pelo calor, sem janelas nem ar,
sem camas, sem higiene e sem toaletes.
“As paredes estavam
manchadas com sangue e excrementos”, conta a testemunha. O codinome dessa
câmara era Guantánamo.
“Todo dia eram
jogadas dentro pessoas cobertas de sangue, algumas amarradas, outras
inconscientes”. Num estudante universitário tinham amarrado em volta da cabeça
uma bolsa cheia de excrementos para que os respire.
Os ex-guardas entrevistados lembram ter visto pessoas sendo
golpeadas, amarradas, suspensas a uma trave da escada pelas mãos e com os pés
nus perto do chão.
Lembram do uso de baterias de carros para eletrocutar
presos. “Podia ser pelo braço, pelos genitais, pela garganta ou qualquer outro
ponto”.
A BBC tentou ouvir as autoridades venezuelanas, mas não
obteve resposta.
A Humans Rights Watch também denunciou em arrepiante informe
as torturas que o regime de Maduro reserva para os militares desobedientes e
para seus familiares.
O relatório analisou 12 casos de 2017 e 2018 que envolveram
a 32 pessoas, militares e civis acusados de conspirar contra o governo, e
inclusive a seus parentes.
A maioria deles fora encarcerada pela Dirección General de
Contrainteligencia Militar (DGCIM) ou pelo Servicio Bolivariano de Inteligencia
Nacional (SEBIN).
As vítimas denunciaram surras brutais, asfixia, cortes com
gillettes nas plantas dos pés, descargas elétricas, jejum forçado, proibição de
ir ao toalete e ameaças de morte.
O vereador opositor Fernando Albán em outubro de 2018 foi
jogado desde o décimo piso do inferno carcerário. O governo de Maduro disse que
foi suicídio.
Com seus secretos macabros, “El Helicoide” prossegue mais
ativo do que nunca a como infernal centro de confinamento de dissidentes
políticos.
Conta-se que o poeta comunista chileno Pablo Neruda cantou
sua arquitetura como “uma das criações mais requintadas que jamais nasceram na
mente de algum arquiteto”, e que o pintor Salvador Dalí se oferecera outrora a
decorá-lo.
Neruda e Dali morreram antes de Chávez, mas patentearam a
afinidade da arte moderna e contemporânea com o espírito satânico marxista.
Só falta o Papa Francisco tão próximo do ditador Maduro,
enviar uma benção ou um tercinho aos diretores do antro. (Luis Dufaur, escritor,
jornalista, conferencista de política internacional)



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