3 de mai. de 2006

Dor nas costas

O alívio da dor nas costas : Oito em cada dez adultos sofrerão do mal algum dia, conheça as novidades para combatê-lo

Por Cilene Pereira e Greice Rodrigues

É praticamente certo: o mal a ser tratado nas páginas desta reportagem - a dor nas costas - vai afligir você, caro leitor, em algum momento de sua vida. As estatísticas não deixam espaço para dúvida: em maior ou menor grau, oito em cada dez adultos de todo o mundo sofrerão em algum momento com o problema.

Leve, moderada, intensa, crônica, não importa. Ela virá e trará impedimentos, do corpo travado ao tentar erguer uma sacola no supermercado à impossibilidade de deixar a cama para sair de casa. Não por acaso ela está, no Brasil e em qualquer lugar, entre as principais causas de afastamento temporário do trabalho. Diante de uma realidade tão impressionante, alguns médicos e pesquisadores costumam fazer uma brincadeira: para ter dor na coluna basta ter uma coluna. Desafiada a aliviar os prejuízos físicos, corporativos e econômicos provocados em escala por essa dor quase sempre avassaladora, a ciência começa a descobrir soluções cada vez mais eficazes para identificar as causas do sofrimento - e são muitas - e acabar com ele.

Frequência: a dor lombar é uma das mais comuns entre os seres humanos. É provocada por pelo menos 50 causas

No Brasil, a boa notícia mais recente é a chegada às farmácias, nesta semana, do Bonviva. O medicamento é indicado para a osteoporose, a fragilização dos ossos apontada como uma das causas mais freqüentes de dor nas costas, principalmente na região dorsal. A enfermidade deixa o esqueleto vulnerável a fraturas muitas vezes minúsculas, mas extremamente dolorosas. Detalhe interessante: é o primeiro e único remédio para a doença com apenas uma dose mensal. Porções com efeitos tão duradouros aumentam a adesão ao tratamento, na verdade um dos maiores desafios dos especialistas no controle da enfermidade. Só para ter uma idéia, segundo uma pesquisa realizada pela Fundação Internacional de Osteoporose, 80% dos pacientes abandonam a terapia antes de um ano. Boa parte reclama de procedimentos exigidos até hoje, como a necessidade de tomar o remédio em jejum e se manter ereto por 30 minutos após a ingestão. Isso todos os dias ou pelo menos uma vez por semana.

Há outras novidades. Recentemente, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária aprovou o uso do antiinflamatório Arcoxia no tratamento da espondilite anquilosante, outra razão importante de dor nas costas. Trata-se de uma doença inflamatória crônica em articulações como ombros e joelhos e, principalmente, na coluna vertebral. Se não for tratada a tempo, além da dor, provoca o enrijecimento da espinha, deformidades e até perda de movimentos. A inclusão do Arcoxia na lista de indicações contra o problema amplia as alternativas de combate eficazes e com menos efeitos colaterais. Isso porque o medicamento faz parte de uma classe de remédios capazes de atacar a inflamação sem prejudicar o estômago, um alívio para quem precisa fazer uso de antiinflamatórios com freqüência.

Os pacientes com espondilite também já podem se beneficiar de outro gênero de drogas modernas, chamadas anti TNF-Alfa. No mercado há pouco tempo, elas abriram uma nova estratégia na maneira de combater a inflamação. Esses remédios inibem a ação de uma proteína chamada TNF, produzida em excesso durante o processo inflamatório. "O uso dessas drogas contra a espondilite tem dado bons resultados", diz Ari Stiel Radu, presidente da Sociedade Paulista de Reumatologia.

Outro caminho no arsenal de novos tratamentos é a utilização do aparelho PST (do inglês Pulsed Signal Therapy). Ele emite ondas eletromagnéticas para diminuir a inflamação e a dor. Sua aplicação é indicada sobretudo nos casos mais graves de artrose na coluna. Essa doença é outra razão importante de dor. Desgasta as articulações, levando a grande desconforto e perda de mobilidade. "A vantagem do PST é impedir a evolução da doença e, conseqüentemente, o aumento do sofrimento causado por ela", explica o ortopedista João Gilberto Carazzato, chefe do Grupo de Medicina Esportiva do Hospital das Clínicas de São Paulo. Em média, são necessárias 12 sessões de uma hora para a eliminação da dor.

Bons progressos também têm sido feitos no tratamento da hérnia de disco, uma das origens mais comuns de dor nas costas. O conteúdo do disco intervertebral (os anéis amortecedores entre as vértebras) é gelatinoso. O problema surge quando ele vaza para além de seus limites, podendo pressionar uma das ramificações nervosas presentes na espinha. Entre as alternativas mais recentes para tratar o problema está a nucleoplastia. O procedimento é simples. Uma ponteira de radiofreqüência é introduzida no disco por meio de uma agulha. Ela vaporiza o núcleo do disco, reduzindo seu volume interno. "Ao diminuir a pressão, alivia-se a dor", afirma Wilson Dratcu, um dos coordenadores do Simpósio Internacional de Cirurgia da Coluna Vertebral, a ser realizado em maio, em São Paulo.

Outra estratégia recente contra a hérnia de disco são as cirurgias pouco agressivas. A intervenção é feita via endoscopia. Através de cortes bem pequenos na pele, são inseridos instrumentos para remover a hérnia. O paciente sai do hospital no mesmo dia e volta à ativa depois de uma semana. Bem diferente do método tradicional, com um tempo de recuperação de 60 dias. Por isso mesmo, a técnica, hoje bastante procurada, tornou-se objeto de muitos estudos. Na semana passada, foi divulgado o resultado de um deles. Cientistas da Universidade de Chicago (EUA) acompanharam 87 pacientes submetidos ao método entre 2002 e 2005. Verificou-se que os doentes passaram em média dez horas no hospital e apresentaram menos dor, sangramento e infecção, se comparados aos índices habitualmente registrados naqueles submetidos à cirurgia antiga.

A nucleoplastia e as operações pouco agressivas são saídas interessantes, mas para quem de fato precisa delas. Porém, os especialistas advertem: muitos casos são resolvidos sem necessidade de qualquer intervenção, pois o próprio organismo reabsorve a hérnia. "Esse conceito de que a dor se resolve em todos os casos com uma operação precisa ser reavaliado. A cirurgia deve ser a exceção, não a regra", diz Newton Barros, presidente da Sociedade Brasileira de Estudos da Dor. De fato, apenas um em cada dez pacientes com hérnia de disco precisa ser operado. Grande parte dos doentes pode ter a dor controlada com a ajuda de remédios até a reabsorção da hérnia. E há um arsenal de drogas à disposição, de analgésicos e antiinflamatórios a antidepressivos (muitos também atuam sobre a dor) e anticonvulsivos. Estes últimos agem nos nervos, reduzindo a transmissão dos sinais de dor ao cérebro.

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