3 de jan. de 2006

Visão de 2006

2006
por Ubiratan Jorge Iorio em 03 de janeiro de 2006
Resumo: O que reserva para a sociedade brasileira o ano da graça de 2006? Que tramóias em cada esquina, corrupções em cada quina e patifarias em cada oficina estarão aprontando o banditismo - oficial e informal -, que a cada ano mais se refina?
Toda passagem de ano é tempo de afastar más lembranças, formular esperanças e tentar arrancar do tempo futuro as tranças, que só ele poderá desenrolar.
O que reserva para a sociedade brasileira o ano da graça de 2006? Que tramóias em cada esquina, corrupções em cada quina e patifarias em cada oficina estarão aprontando o banditismo - oficial e informal -, que a cada ano mais se refina? No plano pessoal, cada um de nós deve aspirar a um ano novo feliz, justa esperança que transmito e desejo a todos os leitores.
Já em termos nacionais, até um sapo cururu na beira de qualquer de nossos rios sabe ser impossível o Brasil ser posto nos trilhos do progresso material, cultural e espiritual. Não é pessimismo, é apenas realismo, até porque ser otimista é uma coisa e ser boboca é outra. Que caminhos os eleitores, no final deste ano, escolherão para o Brasil seguir? PT de novo? PSDB outra vez? Algum aventureiro populista semi-infantil? Ou um raivoso radical “esquerdopata”, de camiseta ou barba, mas com aquela indefectível baba bovina e elástica?
Nas últimas eleições presidenciais – e parece que foi ontem! – havia seis candidatos, todos de esquerda, cada um dos quais, usando os amarelecidos ensinamentos de Gramsci, acusavam os outros cinco de serem de “direita”... Pois parece que a dose vai se repetir, a não ser que algum milagre aconteça. Só que milagres exigem fé, algo que vem sendo sistematicamente bombardeado pela desinformação gramsciana, que rotula de “conservador” a quem quer que professe uma crença, especialmente os católicos e os judeus. Nossa sociedade, putrefata, padece de uma diátese originária do relativismo moral que a enfeixou e enfaixou, abraçando com seu laço nefando o sistema político, o econômico e o cultural, os três poderes, as três esferas de governo, muitas “entidades” (não espirituais), “movimentos sociais”, ONGs e milhões de crédulos, alienados ou ignorantes, mantidos sob permanente e subliminar desinformação.
Mais uma vez, tristemente, todos os candidatos prováveis à presidência são farinha do mesmo saco, um saco cheio de esquerdismo latino-americano ou, como gosta de dizer a juíza Marli Nogueira, de “esquerdopatia”! A rigor, qual a diferença entre PT e PSDB, a não ser as barbas e cavanhaques que quase todos os petistas portam, talvez para ficarem mais parecidos com Fidel? E os prováveis candidatos do PMDB, são diferentes por acaso? E a do P-Sol, partido inconsistente até na sigla? E a atitude do PFL, incapaz até mesmo de ter o seu próprio candidato?
Votar em Fulano para que Beltrano não ganhe, sinceramente, já cansou! Desejo – e, mais do que um mero desejo individual -, o país precisa de uma alternativa efetivamente liberal a esse bando de todos os matizes que se apossou da política nacional faz tempo. Mas quem? Quem, gente?
A pergunta do ano é clara, redonda e sibilante como uma bala perdida dentre as milhares que cruzam diariamente os céus da cidade de São Sebastião: em quem votar? Acreditar em quem, se é que, depois de toda a sujeira que vem emergindo do ralo de esgoto, salvo raríssimas exceções, ainda podemos crer em políticos? A dúvida não é ideológica, tanto porque só há candidatos esquerdistas na área, quanto porque a maioria do povo nem sabe o que vem a ser uma ideologia, embora repita qual papagaio treinado “slogans”, frases e palavras de ordem politicamente corretas; ela é moral, fundamentalmente moral, tristemente moral, torpemente moral!
Ou não é imoralidade iludir o povo a fim de ganhar votos; passar anos falando em ética e depois montar um esquema fantasticamente descarado como o do “mensalão”; dizer depois que de nada sabia; montar um ministério com três dezenas e meia de integrantes; usar empresas estatais – o tal “patrimônio público” que tanto defendiam – para obter fundos partidários; empregar milhares e milhares de “companheiros” às nossas custas, tisnando o equilíbrio intertemporal das contas públicas e lançando a “culpa“ sobre o Copom; magistrados se meterem em política; juízes de parco e porco saber jurídico, com base no pérfido conceito de “direito relativo”, julgarem politicamente; parlamentares receberem fortunas em convocações extraordinárias; oposição fazendo pactos de toma-lá-dá-cá com a base governamental; trocar de partido como quem troca de roupa; impostos e encargos extorsivos; sistemas de saúde, previdência, educação, segurança e infra-estrutura desacreditados; policiais corruptos, empresários corruptos, políticos corruptos, faxineiros corruptos, juízes corruptos, árbitros de futebol corruptos, ricos corruptos, pobres corruptos; professores e médicos ganhando salários aviltantes; programas de TV usando o sexo como se fosse um fim e entrevistando prostitutas em horário nobre, em busca de audiência?
Não há dúvidas de que a raiz da crise é moral. Escabulhar os corruptos de todos os matizes, escoimá-los de todo e qualquer cargo público, desde o de presidente até o de um simples assessor de quinto escalão, mais do que nunca, caro leitor-eleitor, é fundamental, mas antes é preciso um exame de consciência: os valores morais, podres e fétidos, que estão aí, são os que desejamos legar para os nossos descendentes? É este o Brasil que queremos?
Insisto na tese de que a crise que faz o Brasil parecer um bêbado tentando voltar para casa depois de uma noitada, sem encontrar o caminho de casa, ora dando dois passos no sentido correto, ora andando em círculos, ora dando três passos para trás, é moral e que os sistemáticos ataques aos valores morais que herdamos de nossos antepassados europeus e que marcaram a formação de nosso povo, promovidos sub-repticiamente pela mídia, depois de algumas décadas e sendo desfechados com força cada vez maior, acabaram minando o tecido moral, o que, logicamente, acabou contaminando todo o organismo social, da política à economia, da porta de entrada ao fundo de quintal, do funcionário simples, porém “esperto”, ao presidente da empresa, do A ao Z...
Se a crise é moral, a solução só pode vir de um revigoramento dos valores morais, tarefa a que conclamo todos os leitores de bem, crentes ou ateus, católicos, judeus, protestantes, espíritas ou sem qualquer crença. Precisamos de um mutirão moral para salvar nosso país da terrível doença que lhe foi inoculada pelo relativismo moral.
O autor
Doutor em Economia (EPGE/FGV), Vice-Presidente Executivo do Centro Interdisciplinar de Ética e Economia Personalista (Cieep), Diretor da ITC IORIO TREINAMENTO E CONSULTORIA e Professor da UERJ, da FGV, da PUC.
www.ubirataniorio.org

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