Ciça
Velho não, gasto mesmo.
Das coisas apontadas, muitas foram quando estava mais passadinho.
Para você ter idéia do tempo, morava no Grajaú, meu pai comprou uma TV Emerson e nem tinha canal de tv no Rio. E a gente ali querendo ver até vizinhas tomando banho!
Tenho saudades e até me recrimino de não ter aproveitado mais aqueles momentos.
Que delicia apreciar os tornozelos das gatinhas, com saias rodadas, abaloadas, as famosas anáguas, minha vó usava até espartilho...
O desconhecido dentro daquelas roupas era o excitável e apaixonante. Hoje, tudo está escancarado e enoja.
Subir nas árvores (sei que muitas ainda existem e devem trazer meus nomes feitos à canivete. E quantos corações com os nomes das "gatonas"!
Que delícia distrair com os brinquedos feitos por nós, escrever respostas nos cadernos das meninas; tentar "entrar" na roda; o esconde-esconde; o chicote queimado; o joguinho das pedras em que se cantava; as festas juninas; estar na rua, no bairro ou em outros recantos sem medo de assaltos ou tiroteios, sendo sempre recebido "numa boa"; os namoricos à distância; o pegar nas mãos delas, dava até suadouro.
Sabe aquela de andar de mãos dados pela ruas desfilando e se mostrando, dar florzinhas roubadas dos jardins, os primeiros beijos (hum.. e usávamos balas de menta pro hálito); sonhar, e como era belo sonhar, lendo os livros da imensa biblioteca de meu pai, ouvindo os discos clássicos, dedilhar o piano da casa, a vitrola, a geladeira Norge (acho que era isso) que tinha o motor encima e a gaveta lá embaixo.
E as empregadas (hoje secretárias), a lavadeira, a cozinheira, a faxineira, nossas amigas pobres cujos filhos nos tornavam mais amigos, sempre levavam coisas pra casa. Mamãe era muito humilde. Tínhamos um depósito para a guarda de alimentos e doces.
Hoje, não tem mais quitanda. Legal ir lá fazer uma compra, conversar com o seu Bernardo, dono do armazém, olhar os docinhos nas prateleiras. E não fugindo a regra, cada família tinha lá o caderno de apontamento para pagar no fim do mês.
Que confiança!
Agora é cheque-pré sem fundo, cartão clonado ou levam mesmo na marra!
Quanto as paixonites, os pais delas (como havia respeito!) eram iguais aos nossos pais, porisso se pedia "consentimento" e sempre conseguia.
Gostava de sentir os perfumes, de como elas se embelezavam, não existia discriminação, apenas "sinceridade". Uma malícia quase inocente nos instintos.
Conheci e saboreei todas as frutas da minha casa e das vizinhas, com seus imensos quintais. Hoje, a tchurma só conhece em mercados ou quando vão à fazendas.
Se você oferece uma das frutas, elas dão até ar de nojo, porque não vivenciaram as antigas chácaras, não tiveram quintais e nem cultivaram jardins.
Trepar em árvores, colher as frutas da vizinhança (e como ganhava pra encher meu carrinho de rolimã e vender na feira pruns trocadinhos pro cinema a sessenta centavos).
A ida aos domingos à Igreja era sagrada.
O catecismo e a Comunhão.
Os vizinhos sempre cordiais e amigos (orgia de entra-sai das casas, sentíamos em casa).
Tinha até umas quatro que eram de italianos mesmo, onde aprendi coisas de cozinha, via fazer "in locum" todos os pratos, o preparo das massas, as gostosas macarronadas, espaguetes, pizzas e tanta coisa que hoje não vejo mais.
E de outros imigrantes e brasileiros que ali moravam, tinha uma que fazia coisas árabes, e aí mesmo que arranjava um jeitinho de estar sempre a espreita, magrinho e com gula.
Essa base me acompanha, me embala e sempre me norteou e não me arrependo.
O Grajaú de hoje já não é o mesmo!
As festinhas não eram só pessoais, os da rua participavam, vizinhos sentados em cadeirinhas de palha nas calçadas, à porta da casa, em papos inteligentes e fraternos.
Só não entendia os falecimentos. Era uma consternação na rua e os meninos quase não podiam se aproximar (talvez o espectro da morte nos marcasse.... e marca mesmo).
O crescimento desordenado nos aprisiona em apês, grades à volta, câmeras, vigias, carro blindado, etc...
Eu trago um desgosto de muitos da juventude atual não procuram ler, saber e entender como eram bons aqueles tempos, massificando a integração subir nos morros ou entrar na casa do general, com respeito e decência, sem ser admoestado.
Tinha até o embaixador com a limusine e chofer, e em algumas vezes, ganhava presentinhos. Era costume!
Onde erramos?
Numa década começaram afrontas dos moleques (no bom sentido) de bairros. E tudo ficava "numa nice" nas disputas de "peladas" com bolas de meia ou de borracha, sobre paralelepípedos ou em muitos espaços que existiam.
Quebrar vidraça é que era o ruim.
Os donos saiam chateados, mas depois da "vaquinha" íamos lá entregar o dinheiro pro concerto.
Era dever de honra!
Cada juventude com seu tempo e todos são bons!
Empinei a minha pipa sem cerol e me vi nela olhando lépido, ventos no corpo, flutuando num bailar vendo de longe a força da luz e a sensação da imortalidade, até que a chuva abençoada me molhe e eu caia para ser recolhido.
Valeu o recordar do e-mail, fora a gozação disfarçada, consistiu sabor igual da gatinha Ana Carolina brincando com eletrônicos, bonecas, fantasias, recebendo o sei, o mesmo carinho que nós tivemos dos nossos antepassados.
Pena ser difícil transmitir-se essa antiga convivência de valores, onde o dinheiro se tornou o imponderável da realidade.
Os cabelos encanecem, as ruguinhas, a beleza diminuindo, os neurônios se aposentando, a família se "afastando", os amigos "subindo" e, por vezes sozinho, nas lembranças sorrimos e no escorrer das lágrimas, voltamos à infância, nos braços dos que amamos e nos deram tanto sem pedir nada em troca.
Uma beijoca, abraços pro maridão e muita Paz pra descendência.
O fraterno Armando Andrade
O fraterno Armando Andrade
Nenhum comentário:
Postar um comentário