3 de out. de 2005

O jejum pelo rio

Bispo completa oito dias de greve de fome

O bispo D. Luiz Flávio Cappio, 58 anos, completa nesta
segunda-feira nove dias de greve de fome. Ele está debilitado
fisicamente com dificuldades de conciliar o sono e de articular
o pensamento, mas sereno e tranqüilo quanto à decisão de
só parar a greve de fome com a suspensão do projeto de
transposição do rio São Francisco. Em oração permanente,
ele só se alimenta da água do rio São Francisco, que fica a
300 metros da capela onde está instalado e disposto a
entregar sua vida pela causa das populações ribeirinhas e do
próprio rio.

Bispo da diocese de Barra (BA) ele está em Cabrobó, sertão
pernambucano, por ser um local escolhido para captação de
água para a transposição. "Não quero morrer, há muitos
projetos a serem realizados, mas é preciso primeiro vencer a
luta", disse ele. A luta, no caso, é fazer o governo federal
"desistir desta obra insana e mentirosa que é a
transposição".

Em uma carta aos nordestinos que serão supostamente
beneficiados com o projeto governamental, ele afirmou que
eles desconhecem a verdade sobre o projeto que "não vai
levar água a quem mais precisa". "Mais de 70% dela é para
irrigação, produção de camarão e indústria; não estivesse o
rio à beira da morte e suas águas fossem a melhor solução
para a sede de vocês, eu não me oporia".

A atitude do bispo tem apoio de ribeirinhos, organizações
não governamentais e a cada dia chegam romarias à capela.
Vigília será feita hoje no local - e possivelmente em sedes do
Ibama em Salvador e em Brasília - para pressionar pela
suspensão do projeto. Nesta segunda, quando se comemora
o aniversário de morte de São Francisco, dia também
dedicado ao rio e aniversário do religioso, a expectativa é de
manifestações em defesa da sua luta.

O bispo só sai da capela pela manhã para se banhar no rio.
Seus familiares - dois irmãos dele estão em sua companhia:
João e Rosa Maria - estão cientes de que Luiz Flávio só sairá
da capela "em procissão festejando a vitória do povo ou em
um caixão", segundo palavras de João Cappio.

A família foi avisada há seis meses e prometeu respeito à
decisão e sigilo absoluto. Defensor do rio e das populações
ribeirinhas, o bispo nasceu em Guaratinguetá - São Paulo,
largou o trabalho na Ordem Franciscana e a família aos 26
anos e foi para Bahia atendendo a um chamado interno
superior.

Anteontem ele recebeu a visita de um emissário do
presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmando estar disposto
a dialogar com o bispo, visando o fim da greve de fome. De
acordo com o porta-voz de D. Luiz Cappio, Adriano dos
Santos Martins, cientista social que trabalha há 15 anos
como voluntário na diocese de Barra, a atitude do religioso
não pode ser comparada a barganha e negociações
sindicais.

"Ele só dá um fim à greve de fome, com a
revogação do projeto de transposição".
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