5 de set de 2016

Arruaças e divisão...

Quanto ganha um servidor?
O Antagonista recomenda a leitura da coluna da Folha, de Vinicius Torres Freire, que tem este título aí de cima.
Evidências anedóticas: o salário inicial dos motoristas de certa autarquia é de R$ 5.176. O dos escreventes de polícia dos ex-territórios Acre, Amapá, Roraima e Rondônia pagos pela União é de R$ 8.699. Basta passar os olhos pelas tabelas de cargos federais para perceber injustiças entre os servidores e a disparidade entre salários privados e públicos.
Para piorar, os salários médios de quem tem carteira assinada no setor privado estão caindo ao ritmo de mais de 4% ao ano. No funcionalismo (federal, estadual, municipal), crescem 2% ao ano. Nem se fale da estabilidade no emprego.
Dadas as iniquidades, fica ainda mais difícil aceitar o aumento para a elite do funcionalismo, ministros do Supremo, que querem R$ 39,2 mil (sem penduricalhos). Por tabela, haverá reajuste de salários do serviço público pelo país todo.
Não há dinheiro. Será necessário cortar despesas de investimento em obras ou fazer mais dívida pública, que paga juros indecentes aos mais ricos.
Não dá mais para ignorar -- ou, sempre em benefício próprio, fingir ignorar -- todas essas verdades. 

O impeachment: um golpe contra a língua portuguesa e a lógica.
A era PT acabou. Felizmente acabou a era do dilmês, este idioma estranho, desprovido de sintaxe e semântica coerentes, que poucos entendiam (desconfio que nem Dilma o entendia). O dilmês deu um rico material para os linguistas, os quais tentarão, com extrema dificuldade, desvendá-lo.
A decadência não foi só política. O PT ajudou a destruir a língua. Corroeu seu vocabulário e sua gramática. Palavras ou expressões como justiça social, igualdade, democracia, liberdade de imprensa e, por último, golpe tiveram seus significados totalmente destruídos pelo PT. Isso me leva a perceber que a decadência política anda de mãos dadas com a decadência cultural.
No histórico dia da queda do governo Dilma, senti meus ouvidos doerem ao ouvir o senador petista Lindbergh falar presidenta inocenta. Antes, no dia em que Dilma foi se defender diante do senado, suas palavras só tiveram lógica enquanto lia o texto preparado pelos seus assessores. Quando falou de improviso, logo veio aquela avalanche de frases sem sentido, características do dilmês. A pior delas viralizou na internet: Não é 30% dos recurso [sic] da exploração. É 30% de 25%, ou 30% de 30%. Portanto, não é 30%, está entre sete e meio ou pouco mais, 12 e meio por cento. Depois da mandioca, da mulher sapiens, do vento estocado, da criança com o cachorro atrás, veio mais esta pérola do dilmês, graças a Deus, a última grande pérola deste insólito idioma.
Mas a destruição da língua não terminou aí. A coisa é muito mais grave. O dia da votação do impeachment e seu resultado não foram um golpe. O verdadeiro golpe foi do PT contra a língua portuguesa. O ministro do STF, Lewandowski, também desconsiderou completamente a gramática. Dilma teve seu mandato cassado, mas manteve seus direitos políticos. Contudo a Constituição diz claramente, no artigo 52, que a pena do impedimento do mandato deve ocorrer com a perda dos direitos políticos por 8 anos. Não é necessário ser um sujeito muito erudito, basta ser minimamente capaz de interpretar um texto para saber que a preposição com tem um sentido muito diferente de ou. X com Y é completamente diferente de X ou Y, até mesmo de X e Y. A pena do impeachment ocorre juntamente com a perda dos direitos políticos. O texto deixa claro que as duas punições são inseparáveis. Se o chefe de estado sofre impeachment, logo perde seus direitos políticos. Basta saber o básico de gramática, de interpretação de texto e de lógica. Ou Lewandowski não sabe interpretar um texto, ou foi desonesto ao permitir que Dilma perdesse o mandato, mas mantendo seus direitos políticos. O senador Caiado lembrou uma coisa fundamental. E se Dilma tivesse perdido os direitos políticos, mas mantido o cargo? Isso teria sentido?
Lewandowski demonstra ser um sujeito que domina - e muito bem por sinal - o português, ao contrário de muitos políticos do PT. Isso me leva a deduzir que ele foi sim deliberadamente desonesto, compactuando com o PT e certos setores do PMDB. Lewandowski fez de tudo para ajudar Dilma como pôde, e no fim permitiu que as leis fossem rasgadas e lançadas ao lixo. Lewandowski demostrou sempre sua simpatia por Dilma, pois sempre a chamava de presidentA.
Percebeu-se muito bem que o PT dividiu a nação até mesmo na questão linguística: quem falava a presidente claramente demonstrava que não compactuava com o PT; quem preferia a forma a presidenta mostrava na flexão sua simpatia pela Dilma e pelo dilmês.
A era PT foi, de seu início até seu último dia, um verdadeiro golpe a nossa amada língua portuguesa. Data histórica: no dia 31 de agosto de 2016 tivemos um golpe contra as leis, contra a gramática, contra a lógica, contra a nação; enfim, foi um golpe contra a verdade. (Antonio Pinho, mestre em Linguística e professor de Língua Portuguesa) 

Temer tem 30% de chance de dar certo.
Para Monica De Bolle, risco de Temer é ser tão conciliador, que nenhuma reforma relevante seja feita.
A economista Monica De Bolle não está nem um pouco otimista com a efetivação de Temer como presidente. Não, não é porque ela é uma petista aguerrida.
Pesquisadora do Peterson Institute for International Economics e professora adjunta da John Hopkins University, De Bolle está preocupada com dois pontos. O primeiro é o estilo conciliador de Temer, que pode torná-lo refém de um Congresso ávido por barganhas políticas, no momento em que o Brasil mais precisa de reformas duras, mas vitais, para o futuro.
O segundo é o excesso de otimismo da equipe econômica liderada por Meirelles. Segundo ela, o ministro da Fazenda pode cometer o mesmo erro de seus antecessores: sustentar suas propostas sempre com base no melhor cenário, e ver seu esforço evaporar diante da realidade de números mais fracos. Confira, a seguir, os principais trechos da conversa com O Financista:
O Financista: Em seu cenário, qual é a probabilidade de Temer ser bem-sucedido?
Monica De Bolle: Considero a probabilidade relativamente baixa, por certo menor do que 30%. As pressões que deverá enfrentar, as demonstrações que já deu de não ser um político de confronto, mas de consenso, e as duras medidas econômicas conspiram contra o sucesso. O que seria o sucesso? A meu ver, seria emplacar reformas que mudem a perspectiva fiscal de médio prazo, criando o ambiente de maior confiança para que os investimentos voltem aos poucos. O plano de privatização a ser anunciado depende bastante dessas reformas: caso não venham, as chances de os investidores terem apetite para comprar ativos públicos ou participar de concessões são reduzidas.
O Financista: O primeiro grande teste de Temer será a aprovação da PEC do teto de gastos. Ela realmente ajudará no ajuste fiscal?
De Bolle: É difícil saber. Caso os gastos com saúde e educação sejam realmente excluídos, esvazia-se muito a capacidade de o teto ter a força restritiva que precisa ter para fazer alguma diferença. Além disso, há que se ver como serão tratados os mecanismos de indexação que hoje reajustam despesas em várias áreas e limitam a execução do orçamento. Trata-se de uma discussão complicada em ambiente ainda muito carregado, por envolver perdas para a população e a percepção de que o governo está retirando algo sem garantir a melhoria de nada, ao menos no futuro imediato.
O Financista: Meirelles anunciou, ontem, o projeto orçamentário de 2017. Sua premissa básica é que a economia crescerá 1,6% e, por isso, a recuperação de receitas dispensará o aumento de impostos. Você concorda com essa premissa?
De Bolle: Em uma palavra? Não. Acho que Meirelles periga cometer os mesmos erros que equipes anteriores cometeram: jogar a projeção de crescimento para cima, esperando que o melhor cenário se materialize e ajude a concretizar a meta fiscal. Caso algo dê errado, as chances de que a meta não seja cumprida estão diretamente atreladas ao otimismo excessivo em relação ao crescimento da economia. De onde virá tal crescimento? Do consumo, abalado pela alta do desemprego e pela queda da renda? Do investimento, cuja recuperação está longe de garantida? Do setor externo e de nossos produtos pouco competitivos?
O Financista: Você sente que os estrangeiros estão interessados no Brasil?
De Bolle: Já estiveram mais interessados há alguns meses, quando o governo interino se formou. Hoje, creio que muitos enxergam as mesmas dificuldades que eu. Os mais atentos conseguem ver, inclusive, os riscos de ordem institucional colocados à mostra com o estranho resultado do impeachment -- um veredito de crime sem punição. Isso põe em xeque a percepção de segurança jurídica do país.
O Financista: No cenário mais realista que você pode traçar, o que será, de fato, o governo Temer, na área econômica?
De Bolle: Acho que emplacará um plano de privatizações que trará algum investimento, e, possivelmente, aprovará reformas muito diluídas, com pouco impacto sobre o problema de médio prazo das contas públicas. Tal cenário é condizente com um crescimento na faixa dos 0,5% projetados pelo FMI no ano que vem, e vários pontos de interrogação em 2018, quando estaremos em pleno processo eleitoral marcado pelas cicatrizes e feridas abertas do impeachment e da Lava Jato. (Márcio Juliboni)

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