1 de jan de 2014

Esporte ou ...... ?

 photo _aspider2.jpg Valores, crenças, violência: Lições do UFC...

Realmente, o ser humano é de uma complexidade ímpar! 

Valores, crenças, paixões, gostos, preferências, desejos... Jamais haverá qualquer unanimidade em relação a esses e outros itens que andam de mãos dadas com o homem, desde que ele surgiu em nossa terra!  E esses conceitos, concretos ou abstratos, têm muito a ver com a eterna dicotomia entre o Bem  e o Mal que igualmente, sempre acompanharam o homem...

O Mal tem suas ramificações geralmente identificadas e reconhecidas como relativamente comuns, em quase todas as culturas. Do mesmo modo o Bem tem seus nichos igualmente aceitos como tais, na maioria das culturas. 

Mas há várias exceções nesse julgamento dos povos e das diversas culturas, daquilo que efetivamente seja Bem ou que seja Mal! Uma dessas realidades mais complexas e mais difíceis de serem enquadradas pelos diversos povos como sendo Bem, ou Mal, certamente é o que denominamos de violência.   

Mas, afinal, o que é violência? A grande dificuldade de podermos classificar a violência, como um Bem, ou como um Mal, provavelmente advém de sua característica singular de se apresentar sob múltiplas e quase infinitas formas, - física, psicológica, moral, funcional, religiosa, etc., - além de funcionar, quase sempre, como um importante mecanismo de conquista e de manutenção dos vários Sistemas de Poder, alicerçado naquele outro velho e complexo axioma de que o fim justifica os meios!...    

Mas, de um modo geral, pelo menos em nossas culturas mais conhecidas, a Violência tende a ser considerada pelos homens como algo mais ligado ao Mal, do que ao Bem...   

Na história humana tradicional, uma das primeiras notícias que temos sobre a Violência, está registrada no Gênesis, naquele conhecido episódio em que Caim, violentado e ressentido pelo desprezo de Yahvé em relação às suas oferendas, matou seu irmão Abel, o preferido de Yahvé...  Por esse ato de violência, aparentemente ligado ao Mal, Caim foi amaldiçoado e teve de levar uma vida errante pela terra!...   

Está aí, a mais antiga e mais duradoura classificação da violência física = mal

Em seus primeiros momentos, a Filosofia entende o mal e uma de suas manifestações - a Violência - como uma espécie de não-ser em contraposição ao ser, expressão absoluta do bem. Os estóicos consideravam bom tudo que existe, enquanto o mau seria a marca do nada, da ausência de substância, da falta de essência. 

Santo Agostinho, afirmava que nenhuma natureza é má, sendo que esse nome indica apenas a privação do bem (De Civitas Dei , XI, 22). Para ele, todas as coisas são boas, e o mal não é substância porque se o fosse seria o bem (Conf. VII, 12). 

Boécio, da mesma forma, associa o mal ao nada, porque não o pode fazer Aquele que pode todas as coisas (Phil. Cons., III, 12). 

Thomás de Aquino, por sua vez, ratifica tal ideia ao afirmar que o mal não pode significar algum ser, alguma forma ou natureza, ele é a ausência de ser, ou seja, de bem.  

No mundo cristão ocidental, a figura de Cristo está essencialmente ligada ao Bem e à Não-Violência. Não há como associar ou imaginar Cristo praticando um Mal, praticando uma violência, independente de sua forma ou manifestação!   

Aqui chegamos ao ponto: nosso mundo moderno, apesar de suas crenças em seus deuses essencialmente bons e perfeitos,  esmerou-se a cada dia em criar e em multiplicar todas as formais imagináveis de Violência, praticadas contra os Homens e toda a natureza viva!    

A Violência faz parte de nossa vida, está ao nosso lado, está incorporada ao nosso modo de viver e relacionar, serve para nosso deleite e diversão... Se a Violência = Mal, e se não queremos conviver com o Mal, nos a transformamos em algo relativo, em algo natural, em algo que não apresenta qualquer incômodo ou matiz negativo!    

Vivemos em um mundo dominado pela Banalidade do Mal, essa terrível realidade identificada pela filósofa judia Hannah Arendt e que tenho recorrentemente apontado aqui, como uma das maiores desgraças atuais de nosso País...    

E, exatamente do mesmo modo, todos nós, instituímos para nós mesmos, para nossos filhos, para as nossas relações, para a nossa Sociedade, a Banalidade da Violência...   

É natural a violência nos Estádios, é natural a violência nas ruas, onde se destrói tudo, é natural a violência praticada em esportes que se constituem como a essência da violência física explícita contra o outro, como as lutas de Box e de UFC...    

Sem floreios e sem manipulações téoricas: qual a diferença que existe entre as antigas lutas romanas, onde o Sistema promovia pão e circo  para a plebe ignara, com lutas e carnificinas, onde o único objetivo era destruir o outro, e essas lutas modernas de Box e UFC, onde os mesmos Sistemas  promovem os mesmos pão e circo para todos nós, e onde o único objetivo e destruir o outro com golpes e mais golpes mortais?   

Qual a diferença que existe entre os combates mortais  das torcidas organizadas e ensandecidas, e entre essas lutas e esses golpes tecnicamente estudados e ensaiados,  das lutas de UFC, para destruir e mutilar o outro? 

Todos nós consideramos como um crime a rinha de galo, ou as brigas de canários, tão comuns e tão criminalizadas no interior de Minas....  Mas consideramos válidas e emocionantes as rinhas de humanos que se formam a cada dia à nossa vista!   Somos bárbaros tão ou mais violentos que todos esses outros, temos prazer em ver essas carnificinas, racionalizamos com desculpas, com regras,  argumentos sem a menor consistência  essa violência que entra em nossas casas e se apodera de nossos filhos e netos! 

E depois,  saímos por aí, reclamando da violência das ruas, da violência dos meninos nos sinais de trânsito, da violência contra a mulher e contra as minorias, da incompetência do governo em controlar a violência, etc.... 

Somos ridiculamente contraditórios e incoerentes!   

Imaginem Cristo, S. Francisco, Buda, Confúcio e os grandes mestres da Humanidade,  aplaudindo e torcendo por esses  monstros alimentados por nós,  com o único objetivo de destruir e dominar o outro! 

Não me considero um careta! Como todas as pessoas, tenho  meus valores e meus gostos, provavelmente, alguns  deles, ultrapassados e fora do contexto do chamado mundo moderno!.... Mas não me conformo com essa realidade institucionalizada da Violência,  diante de nós.  Certamente, se algum dia eu fosse presidente do Brasil, um de meus primeiros atos seria abolir de nossa terra, lutas de Box, UFC e outras que atentam diretamente contra a vida e a integridade das pessoas!   

Esporte! Que esporte é esse? Onde se compromete irremediavelmente o cérebro dos lutadores,  em que os mais violentos golpes contra a integridade física do outro são desferidos com toda a violência possível?   Agressões explícitas que às vezes são  praticadas por alguns jogadores de futebol, contra seus adversários, deveriam ser tratadas como crimes e seus autores deveriam ser levados diretamente para a cadeia! Do mesmo modo, se nossa sociedade não fosse tão dissimulada e falsa, a violência dessas lutas de Box e UFC, deveriam ser encaradas como agressões criminosas e seus praticantes deveriam ser trancafiados nas cadeias!   

Você teria coragem de aplicar, sem qualquer razão para sua sobrevivência, um murro na cara de alguém, com toda a força possível, ou de desferir um chute no rosto de seu  vizinho?   

Ah! Não? Por que não? Mas nos outros você aceita isso como natural, como uma diversão!..   

Está aí o resultado desse tipo de violência que aplaudimos e incentivamos: o Anderson inutilizado e mutilado! 

Violência física é, sim, um Mal!   

Como aceitamos esse tipo de desvio  da Banalidade da Violência  e ficamos a vociferar contra os outros desvios trazidos pela Banalidade do Mal  praticada pelos políticos?   

Não há diferença entre esses dois crimes! (Márcio Dayrell Batitucci)      

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