16 de abr de 2011

Ganhei coragem

• "Mesmo o mais corajoso entre nós só raramente tem coragem para aquilo que ele realmente conhece", observou Nietzsch. É o meu caso. Muitos pensamentos meus, eu guardei em segredo. Por medo.
• Alberto Camus, leitor de Nietzsche, acrescentou um detalhe acerca da hora em que a coragem chega: tardiamente ganhamos a coragem de assumir aquilo que sabemos. Tardiamente. Na velhice. Como estou velho, ganhei coragem.
• Vou dizer aquilo sobre o que me calei: O povo unido jamais será vencido", é disso que eu tenho medo.
• Em tempos passados, invocava-se o nome de Deus como fundamento da ordem política.
• Mas Deus foi exilado e o povo tomou o seu lugar: a democracia é o governo do povo.
• Não sei se foi bom negócio; o fato é que a vontade do povo, além de não ser confiável, é de uma imensa mediocridade. Basta ver os programas de TV que o povo prefere.
• A Teologia da Libertação sacralizou o povo como instrumento de libertação histórica.
• Nada mais distante dos textos bíblicos. Na Bíblia, o povo e Deus andam sempre em direções opostas. Bastou que Moisés, líder, se distraísse na montanha para que o povo, na planície, se entregasse à adoração de um bezerro de ouro. Voltando das alturas, Moisés ficou tão furioso que quebrou as tábuas com os Dez Mandamentos.
• E a história do profeta Oséias, homem apaixonado!
• Seu coração se derretia ao contemplar o rosto da mulher que amava! Mas ela tinha outras idéias. Amava a prostituição. Pulava de amante e amante enquanto o amor de Oséias pulava de perdão a perdão. Até que ela o abandonou. Passado muito tempo, Oséias perambulava solitário pelo mercado de escravos. E o que foi que viu? Viu a sua amada sendo vendida como escrava. Oséias não teve dúvidas. Comprou-a e disse: Agora você será minha para sempre. Pois o profeta transformou a sua desdita amorosa numa parábola do amor de Deus.
• Deus era o amante apaixonado. O povo era a prostituta.
• Ele amava a prostituta, mas sabia que ela não era confiável. O povo preferia os falsos profetas aos verdadeiros, porque os falsos profetas lhe contavam mentiras.
• As mentiras são doces; a verdade é amarga.
• Os políticos romanos sabiam que o povo se enrola com pão e circo.
• No tempo dos romanos, o circo eram os cristãos sendo devorados pelos leões.
• E como o povo gostava de ver o sangue e ouvir os gritos! As coisas mudaram.
• Os cristãos, de comida para os leões, se transformaram em donos do circo.
• O circo cristão era diferente: judeus, bruxas e hereges sendo queimados em praças públicas.
• As praças ficavam apinhadas com o povo em festa, se alegrando com o cheiro de churrasco e os gritos. Reinhold Niebuhr, teólogo moral protestante, no seu livro O Homem Moral e a Sociedade Imoral observa que os indivíduos, isolados, têm consciência.
• São seres morais. Sentem-se responsáveis por aquilo que fazem. Mas quando passam a pertencer a um grupo, a razão é silenciada pelas emoções coletivas.
• Indivíduos que, isoladamente, são incapazes de fazer mal a uma borboleta, se incorporados a um grupo tornam-se capazes dos atos mais cruéis. Participam de linchamentos, são capazes de pôr fogo num índio adormecido e de jogar uma bomba no meio da torcida do time rival. Indivíduos são seres morais.
• Mas o povo não é moral.
• O povo é uma prostituta que se vende a preço baixo.
• Seria maravilhoso se o povo agisse de forma racional, segundo a verdade e segundo os interesses da coletividade.
• É sobre esse pressuposto que se constrói a democracia.
• Mas uma das características do povo é a facilidade com que ele é enganado.
• O povo é movido pelo poder das imagens e não pelo poder da razão.
• Quem decide as eleições e a democracia são os produtores de imagens.
• Os votos, nas eleições, dizem quem é o artista que produz as imagens mais sedutoras. O povo não pensa. Somente os indivíduos pensam.
• Mas o povo detesta os indivíduos que se recusam a ser assimilados à coletividade.
• Nem Freud, nem Nietzsche e nem Jesus Cristo confiavam no povo.
• Jesus foi crucificado pelo voto popular, que elegeu Barrabás.
• Durante a revolução cultural, na China de Mao-Tse-Tung, o povo queimava violinos em nome da verdade proletária.
• Não sei que outras coisas o povo é capaz de queimar.
• O nazismo era um movimento popular. O povo alemão amava o Führer.
• O povo, unido, jamais será vencido!
• Tenho vários gostos que não são populares.
• Alguns já me acusaram de gostos aristocráticos.
• Mas, que posso fazer?
• Gosto de Bach, de Brahms, de Fernando Pessoa, de Nietzsche, de Saramago, de silêncio; não gosto de churrasco, não gosto de rock, não gosto de música sertaneja, não gosto de futebol.
• Tenho medo de que, num eventual triunfo do gosto do povo, eu venha a ser obrigado a queimar os meus gostos e a engolir sapos e a brincar de boca-de-forno, à semelhança do que aconteceu na China.
• De vez em quando, raramente, o povo fica bonito.
• Mas, para que esse acontecimento raro aconteça, é preciso que um poeta entoe uma canção e o povo escute: - Caminhando e cantando e seguindo a canção...
• Isso é tarefa para os artistas e educadores.
• O povo que amo não é uma realidade, é uma esperança. (Rubem Alves)

Não falamos inglês

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