4 de mar de 2017

Ilusões brasileiras.

 photo ospoderes_zpsvkcgpg2v.jpg • Temer estuda medidas para anular depoimentos da Odebrecht. Presidente avalia pedir nulidade de oitivas de delatores, alegando que convocação baseou-se em ato ilegal. 
• Odebrecht não foi o bobo da corte dos governos de Lula e de Dilma. O conluio entre o Estado e o setor privado jogou a legislação do País na lama. 
• Os partidos brasileiros, seus corruptos e os interesses dos eleitores. Muitos políticos enrolados na Justiça encontram em seus partidos o conforto da impunidade. 
• Aécio afirma que não foi acusado de pedir caixa 2. Para tucano, declaração de Odebrecht ao TSE é reconhecer lisura da campanha. 
• E se o TSE cassar a chapa Dilma-Temer? Ninguém sabe como o novo presidente seria eleito, nem o próprio TSE. 
• Ano começa com 40,8 mil empregos formais a menos. Resultado é menos ruim que as 99,7 mil vagas fechadas em janeiro de 2016. 
• No seu depoimento ao TSE, Benedicto Barbosa Silva Júnior disse que, quando assumiu a obra de Belo Monte pela Odebrecht, no lugar de Henrique Valladares, sabia que PT e PMDB dividiam o propinoduto gerado pela hidrelétrica. Marcelo Odebrecht, contudo, lhe ordenou que não fizesse pagamentos ao PT, apenas ao PMDB. Benedicto citou Edison Lobão como um dos beneficiários das propinas peemedebistas. 
Se reforma da Previdência não sair, tchau Bolsa Família, avisa o PMDB. 
• Ex-governador do RN condenado a 13 anos, 7 meses e 10 dias de reclusão, em regime fechado por crime de peculato. Potiguar Fernando Freire condenado por se apropriar do alheio. 
• Dois doleiros acusados de participar de operações de lavagem de dinheiro para o ex-governador do Rio Sérgio Cabral (PMDB) foram presos na noite desta sexta-feira, 3, em Montevidéu, no Uruguai. Vinícius Claret Vieira Barreto, conhecido pelo apelido de Juca Bala, e Cláudio Fernando Barbosa tinham ordens de prisão assinados por Marcelo Bretas, juiz da 7ª Vara Criminal do Rio, que confirmou à reportagem a prisão de ambos. Os dois estavam sendo procurados pela Interpol e foram presos durante operação conjunta da polícia uruguaia e da Polícia Federal brasileira. 
• Acervo Presidencial. Moro autoriza Polícia Federal a periciar caixas praia e sítio de Lula. 
• Correios vão financiar rugby brasileiro. Ontem, registramos que, em meio ao rombo nas contas da estatal, os Correios continuam despejando milhões em patrocínios a esportes aquáticos, tênis e handebol. O Antagonista soube agora que a empresa também vai passar a apoiar a Confederação Brasileira de Rugby: o contrato firmado no mês passado, no valor de R$ 1,9 milhão, valerá por dois anos. O presidente dos Correios, Guilherme Campos, afirmou ao site que, se fosse levar a ferro e fogo, todos os patrocínios teriam de ser extintos. Mas, segundo ele, não dá para acabar assim com uma tradição de anos. Em seu site, os Correios dizem que possuem ainda forte atuação no incentivo à cultura e ao esporte, investindo em projetos em sinergia com políticas públicas que tem como objetivo ampliar o acesso de todos aos bens culturais e à prática esportiva, promover a inclusão social e a sustentabilidade

Banco Central dos EUA indica que elevará a taxa de juros neste mês. Esperada pelo mercado, decisão deve afastar investidor de países emergentes. 
Efeito Rússia amplia críticas contra Trump. Presidente dos EUA e Moscou veem caça às bruxas por pedidos de investigação. 
• Vice dos EUA utilizou e-mail privado quando governador. Mike Pence discutiu assuntos do governo de Indiana em conta pessoal. 
• Saída de assessores abala campanha de Fillon na França. Candidato é acusado de corrupção; pesquisa põe Macron à frente de Le Penn. 

Um diálogo inexistente.
Nos partidos da base oficial, existem deputados e senadores que criticam a forma de o governo fazer as coisas, não as coisas que o governo faz. Tome-se a reforma da Previdência Social. Gostariam líderes do PMDB, PSDB, PP, PDT e penduricalhos que, antes de o presidente Temer ter encaminhado ao Congresso o elenco de mudanças no setor previdenciário, deveria ter aberto com os partidos a discussão sobre o que precisava ser feito. O palácio do Planalto teria, assim, uma radiografia das tendências parlamentares, antes de apresentar apenas sua imposição. O trabalho comum serviria para ganhar tempo, uma vez que todos concordam com a reforma, ainda que sem acordo sobre o que reformar.
Tem sido sempre assim, no relacionamento entre Executivo e Legislativo, fora das ditaduras. O primeiro prepara pratos feitos que manda para o outro, infenso a cumprir ordens. Por isso abre-se sempre o impasse sobre as mudanças. Caso houvesse um debate prévio, essas mudanças começariam a tramitar já com uma tendência conhecida. Poupar-se-ia tempo.
Não abrem mão - O problema é que os dois poderes são presunçosos e egoístas. Não abrem mão do que entendem ser suas prerrogativas, este pretendendo impor sem dialogar, aquele imaginando-se absoluto na função de mudar tudo.
O resultado, não raro, são os impasses e a perda de tempo, quando tudo poderia ser diferente caso se acertassem previamente. Nenhuma das partes se sentiria diminuída. Do jeito que o processo se desenvolve, frustra-se o governo ao ver dilapidada sua proposta, como frustram-se os partidos, obrigados a remendar o que será o produto final. Confirma-se a observação inicial: a forma de o governo fazer as coisas deixa a desejar, ainda que concordem todos com as coisas que precisam ser feitas.
Apenas um detalhe a mais: precisaria esse diálogo acontecer em sigilo, à margem dos holofotes, porque a atuação diante das câmeras e microfones perturba o sentido das coisas. (Carlos Chagas) 

Lula, Moro, Dragão da Maldade, Santo Guerreiro e fascismo chulé.
Que fique claro, meu querido leitor: Moro é que faz o calendário da elegibilidade ou da eventual inelegibilidade do chefão petista. Ninguém mais.
Há modos de ler uma notícia. Falarei a respeito. Antes, algumas considerações.
Como cansei de ouvir na rua as perguntas Quando Lula vai ser preso? e Lula vai ser preso?, resolvi dizer o óbvio: perguntem ao juiz Sergio Moro. É ele o senhor dos anéis. Nesta sexta, o destino do petista ganhou ao menos um marco temporal. Ficou definida a data de seu depoimento a Moro: 3 de maio! Está longe, muito longe.
No fim de abril, serão ouvidos os réus Leo Pinheiro, Agenor Medeiros, Paulo Gordilho, Fábio Yonamine e Roberto Moreira Ferreira, da OAS; e Paulo Okamoto, presidente do Instituto Lula. Esse é o inquérito que apura o polêmico tríplex em Guarujá.
Um dos modos de ler a notícia é o do fanático burraldo: Finalmente! Agora Lula vai ver! Moro acaba com ele.
Outro é o do fanático com pretensões intelectuais, que já vai de Glauber Rocha: Ah, desta vez vamos ver Deus e o diabo na terra do sol. O Dragão da Maldade vai se bater contra o Santo Guerreiro. Moro é Antônio das Mortes. E Lula pode entrar, deixem-me ver, no papel de Corisco (estou deliberadamente misturando os dois filmes).
Há, claro!, o modo petista. Tudo não passa de conspiração e golpe.
E existe a leitura dos que se obrigam a pensar um tanto. Interrogar os réus é uma das etapas finais da ação penal. Depois há um prazo para eventuais novas diligências e o pedido de pronunciamento da defesa e da acusação. Só aí Moro poderá bater o martelo e decidir se Lula é culpado ou inocente nessa ação penal. Ele é réu em outras quatro.
Faltam, pois, longos dois meses para Moro e Lula ficarem cara a cara, como se tem destacado por aí. Talvez o magistrado julgue a ação ali por… junho.
Digamos que o Antônio das Mortes decida condenar Corisco. Atenção! Lula continuará elegível. A defesa vai recorrer ao TRF da 4ª Região. Se essa instância mantiver a condenação, aí Lula se torna inelegível segundo a Lei da Ficha Limpa.
Acontece que não haverá tempo para isso. Ainda que as duas condenações fossem certas, a segunda só se daria depois da eleição de outubro de 2018.
Ah, mas o Moro não pode dar um jeitinho e lascar uma prisão cautelar?… Bem, ele tem podido qualquer coisa, mas não creio que a tanto chegaria.
Que fique claro, meu querido leitor (que não é nem fanático burraldo nem fanático ilustrado): Moro é que faz o calendário da elegibilidade ou da eventual inelegibilidade de Lula. Ninguém mais.
A extrema direita fascistoide e chulé, cuja profissão é me atacar, não poderá me acusar de impedir Lula de ir para a cadeia!!! (Reinaldo Azevedo) 

A corrupção está disseminada, mas o Estado-Odebrecht veio de Lula. 
A direita brasileira precisa se decidir sobre Temer; abandoná-lo é colocar em risco as reformas de mercado, apoiá-lo é colocar-se no centro do alvo da Lava Jato. Celso de Barros, autor da disjuntiva (Folha, 1º/3), tende a ser uma voz ponderada. Quando mesmo ele cede ao sectarismo, temos a dimensão do esgarçamento da nossa praça de debate.
A nova direita, na expressão de Barros, só tem relevância para almas viciadas nas guerrilhas crônicas das redes sociais. O governo Temer, obviamente, tem a sua importância, mas o dilema de fundo, entre as reformas de mercado e a Lava Jato, diz respeito à nação inteira, não só aos governistas ou à tal direita brasileira. A pergunta é: como se situa frente a ele a esquerda brasileira, da qual Barros faz parte?
As reformas de mercado não emergem no vácuo histórico, mas como uma solução possível para a devastação das contas públicas e dos balanços das estatais pelos governos da esquerda brasileira. Não há meios de deflagrar uma discussão honesta sobre elas sem, previamente, fazer um diagnóstico da política econômica que conduziu à maior depressão registrada no país desde o colapso cafeeiro. Para não reformar-se a si mesmo, o PT foge desesperadamente desse tema. Como não lastimar que os intelectuais de esquerda contribuam com a fuga, empregando o álibi de apontar impasses nas igrejinhas histéricas da direita?
A Lava Jato também não é um raio no céu claro. A corrupção, tão velha quanto o Brasil, está disseminada por todos os partidos, mas o Estado-Odebrecht nasceu sob as asas de Lula. A esquerda brasileira centralizou os esquemas de captura privada do poder público, convertendo-os em ferramenta política estratégica. No centro da Lava Jato, encontram-se os que detinham as chaves das portas das empresas estatais durante os 13 gloriosos anos do verde-amarelismo lulopetista. Mas, em exercícios de hipocrisia extrema, os intelectuais de esquerda comemoram os inquéritos que atingem o círculo de Temer enquanto denunciam uma suposta perseguição de Moro contra seu idolatrado ex-presidente. Como não lastimar isso?
Temer pode cair, fulminado pelo TSE ou pela Lava Jato. Seria substituído por um presidente de transição, escolhido pelo Congresso. Nesse cenário, a Lava Jato permaneceria na cena, sustentada pela independência do Judiciário. As reformas de mercado tampouco evaporariam, pois contam com respaldo da maioria parlamentar. O Brasil não está obrigado a escolher entre a devassa judicial da corrupção e as reformas de mercado, pois nenhuma lei de ferro da lógica binária impede que tenha as duas. A pergunta é: será que, como sugerem os ataques lulistas à Lava Jato e a resistência do PT às reformas econômicas, a esquerda brasileira preferiria bloquear as duas?
O PT passou suas duas décadas iniciais denunciando a captura do Estado pelos interesses privados. No seu primeiro mandato, Lula ensaiou uma reforma da Previdência e especulou sobre a necessidade de uma reforma trabalhista. Durante os meses agônicos de Joaquim Levy, Dilma explicou que seria preciso aumentar a idade de aposentadoria. Hoje, de volta à oposição, o lulopetismo recolhe-se à caverna do populismo e do capitalismo de Estado, enfeitando-a com delinquentes invectivas contra o Judiciário. Na esperança de um 2018 sem medo de ser feliz, investe no caos político e no prolongamento da depressão econômica que produziu. Os intelectuais companheiros de viagem dão sua contribuição, esvaziando de sentido o debate público.
No texto de Barros, os rumos da economia e a natureza do Estado surgem como cascas de banana na calçada por onde transitam seitas apopléticas de liberais adoradores de Bolsonaro e Trump. É uma forma de ocultar que essas duas facetas da crise nacional representam o enigma que a esquerda brasileira precisa decifrar. (Demétrio Magnoli) 
Somos o que pensamos. Tudo o que somos vem de nossos pensamentos. Com os nossos pensamentos fazemos o mundo. (Buda)

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