20 de mar de 2017

Acreditar desacreditando - como.

 photo podre_zpsphacidoo.jpg • Governo deve anunciar supercorte de até R$ 65 bilhões do Orçamento. Contingenciamento deverá estar vinculado a duas listas de receitas que são previstas, mas ainda incertas. 
• Petrobrás eleva preço do gás de cozinha em 9,8% a partir de terça. Estatal diz que repasse ao consumidor depende de política de distribuidoras e revendedores. 
• Os inimigos da reforma da Previdência. Muitos parlamentares não entenderam a necessidade nem a finalidade da PEC 287/2016; Governo tenta manter bases do texto da Reforma da Previdência. Admitir que há espaço para reparos no texto original funcionaria como estímulo a pressões. 
• Governo minimiza problema na carne apontado por ação da PF. Temer se reúne com embaixadores de países importadores e anuncia fiscalização; Temer defende carne do Brasil, mas embaixadores reagem com cautela. Presidente garante qualidade do produto; países dizem que explicações ainda não foram suficientes; força tarefa é criada para investigar frigoríficos alvos da Carne Fraca; PF analisou produtos de apenas uma empresa em 2 anos. Demais acusações da Carne Fraca são baseadas em escutas e depoimentos; Banco Central bloqueia R$ 2 milhões de 46 investigados na Carne Fraca. 
• Se declaração que diz ser infundada a postura da investigação da Polícia Federal quanto ao problema da Carne Fraca pelo ministro da Agricultura, o almoço numa churrascaria com diplomatas e a continuidade das diligências, ficam a esmo as declarações de Temer: força tarefa é criada para investigar frigoríficos alvos da Carne Fraca; após grampo, ministro da Justiça fica de fora de reunião com Temer sobre Carne Fraca. 
• Após escândalo, consumidores buscam carne sem marca no Rio Grande do Sul. 
• Articulada pelos partidos, proposta de voto em lista fechada visa dificultar a renovação da classe política acossada pela Lava Jato. 
• O governador do Rio de Janeiro, Luiz Fernando Pezão, do PMDB, é o principal alvo da delação premiada de Hudson Braga, ex-secretário de Obras do Rio de Janeiro, na gestão de Sergio Cabral, segundo informa a coluna do jornalista Lauro Jardim. Braga, preso na Operação Calicute, negocia um acordo de delação premiada e pretende delatar propinas pagas a Pezão, que atrasou os salários de servidores públicos. Pezão também deve ser atingido pela delação de seu ex-marqueteiro Renato Pereira. (Rio 247) 
• Lula e Dilma reinauguram transposição do S. Francisco; Em ato no sertão da Paraíba, empregando um tom emotivo, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva se lançou na arena eleitoral de 2018 e denunciou publicamente uma articulação para impedir que ele volte a se candidatar ao Palácio do Planalto. Depois de visitar pela primeira vez um trecho concluído das obras de transposição do rio São Francisco, o ex-presidente criticou o governo Michel Temer e disse que está disposto a brigar nas ruas contra seus opositores, em referência à disputa eleitoral. 
• Os glutões da carne podre que atacam a PF são os mesmos que atacam a Lava Jato por ter revelado o esquema de dinheiro podre que alimentou a ORCRIM. Eles vão quebrar a cara mais uma vez. Leia o que publicou a coluna do Estadão: A reunião reservada no Palácio do Planalto ontem para tratar da Carne Fraca começou com um bombardeio ao diretor-geral da PF, Leandro Daiello. O tom baixou depois de ele avisar que existem muitas interceptações telefônicas que ainda não vieram à tona e chance de delação
• Os petistas já não escondem mais de ninguém: Lula não pode ser condenado por receber propina da Odebrecht, porque está acima das leis. Leia o que disse Humberto Costa no comício ilegal do Cariri: Estamos aqui mostrando que o povo quer de volta o maior presidente da história. E, quando o povo quer, não tem Moro, não tem Globo, não tem Judiciário, não tem ninguém, porque isso vai acontecer.
• Ações no TSE indicam voto para cassar chapa. Em decisões que vão balizar parecer do relator é unânime o entendimento pela indivisibilidade. 
• Viverei para ver? Prazo para julgamento no STF sobe para 4 anos. Estudo da FGV Direito Rio mostra que, em 2002, tempo médio era de 65 dias; Procuradoria está mais ágil. 
• G-20 fracassa e não chega a um acordo a respeito do livre comércio. Ministros e chefes romperam com uma tradição de uma década de rejeitar o protecionismo. 
• A caravana passa. A lista Janot reuniu-se no Cariri. Participaram da caravana ilegal à Paraíba, ontem à tarde, os seguintes nomes delatados pela Odebrecht: 
o- Lula, o comandante máximo da ORCRIM.  
o- Dilma Rousseff, conhecida pelas autoridades americanas como Brazilian Official 2. 
o- Gleisi Hoffmann, codinome Coxa. 
o- Lindbergh Farias, codinome Lindinho. 
o- Vanessa Grazziotin, que recebeu 1,5 milhão de reais em dinheiro vivo da empreiteira, de acordo com a última Veja. 
o- Humberto Costa, que já entrou e saiu da Lava Jato. 
o- Rui Costa, o governador da Bahia eleito com propina da Odebrecht, segundo o delator Cláudio Melo Filho. 
o- Benedita da Silva, citada por Renato Duque. 
• A caatinga mental de Janete. Dilma Rousseff está em campanha para fugir da cadeia. Ontem à tarde, no Cariri, ela acusou a Lava Jato de querer dar um golpe: “O povo desse país não suporta outro golpe. Esse segundo golpe é impedir que os candidatos populares sejam colocados à disposição do povo. O Lula é um deles. Vamos nos reencontrar com a democracia, é o único jeito de lavarmos a alma do povo brasileiro. E só a água da democracia lava nossa alma. Vamos nos encontrar em uma eleição direta em outubro de 2018, é logo ali. Vamos exigir que haja eleição, e que os competidores não sejam impedidos de competir. No tapetão, não”. 
• Larvicida é apontado como causa provável da microcefalia. Um grupo de médicos argentinos está desafiando a teoria de que o vírus zika seja responsável por defeitos congênitos em bebês no Brasil. Ao contrário, eles argumentam que o responsável por isso seria a Monsanto ou, pelo menos, seu parceiro estratégico, a Sumitomo Chemical. A denúncia foi feita pela Organização Médicos em Cidades Pulverizadas, que afirma que um larvicida químico que produz malformações em mosquitos foi introduzido no abastecimento público de água potável em 2014. De acordo com a Organização Curas Naturais Saudáveis, esse veneno, Pyriproxyfen, é usado em um programa controlado pelo Estado, que busca erradicar os mosquitos portadores de doenças. Essa composição tem o efeito de inibir o desenvolvimento evolutivo e causa defeitos de nascimento. O larvicida parece um fator causal plausível na microcefalia. Muito mais que mosquitos transgênicos que alguns têm culpado pela epidemia de zika. (Jornal da USP) 
• Dono da Gol confirma propina a Cunha e afirma que Henrique Alves participou de reuniões. As informações foram dadas por Henrique Constantino em negociação de um acordo de colaboração. 
• Marajás da Petrobras. Direção petista da Petrobras se concedia aumentos quatro vezes a inflação. Diretores da Petrobras na era PT ganhavam R$2,5 milhões por ano. 
• Descaso com o patrimônio. União tem 18 mil imóveis desocupados e gasta quantias bilionárias em aluguéis. 
• Exigência do TCU. Governo deve anunciar supercorte de até R$ 65 bilhões do Orçamento. 


Bela, recatada e da prisão domiciliar.
Adriana Ancelmo nasceu em São Paulo, mas foi criada no Rio. Formou-se em direito e foi trabalhar com o então procurador-geral da Alerj, Régis Fichtner. Foi assim que conheceu Sérgio Cabral, com quem se casou em 2004. Nos dois mandatos de governador do marido -entre 2007 e 2014-, Adriana viu seu patrimônio multiplicar-se por dez. Em dezembro de 2016, teve a prisão provisória decretada sob suspeita de lavar dinheiro e ser beneficiária do esquema de corrupção comandado por Cabral.
Nesta sexta-feira (17), a Justiça decidiu que Adriana poderia aguardar julgamento em prisão domiciliar. A justificativa: seus filhos, que têm 11 e 14 anos, não poderiam ficar sem pai e mãe em casa.
Como Adriana, mais de 1.300 mulheres aguardam julgamento nas prisões do Rio, segundo o Departamento Penitenciário Nacional. São mulheres que podem ser inocentes e, no entanto, já estão sendo punidas. Mais da metade delas é mãe. E quase 70% foram presas apenas por suspeita de tráfico de drogas, sem outras acusações agravantes. Ao contrário de Adriana, essas mulheres em geral têm baixa escolaridade, são pobres, pretas e não têm nenhuma possibilidade de movimentar um patrimônio milionário roubado do mesmo Estado que hoje deixa de pagar seus servidores caso respondam por seus processos em liberdade.
É mais do que óbvia a perversão de um sistema prisional que encarcera sem julgamento mães acusadas de um crime que sequer deveria existir enquanto seus filhos crescem sem a presença materna. Adriana Ancelmo deve sim poder aguardar julgamento em sua casa -desde que seja realmente possível evitar que ela use a oportunidade para esconder o butim do marido. Mas outros milhares de mães pelo Rio e pelo Brasil deveriam ter o mesmo direito. Não têm.
À primeira vista pode parecer contraditório que, apenas dez dias depois de o presidente fazer um discurso enaltecendo a participação da mulher na criação de crianças e na boa execução de compras de supermercado e mais nada, um caso de tamanho destaque confirme, pela exceção, a regra de absoluta falta de compromisso do país com esse mesmíssimo papel de mãe e dona de casa quando se trata de detentas.
No entanto, o que o caso Adriana Ancelmo revela é aquilo que o presidente não disse, mas deixou implícito: algumas mulheres devem mesmo aspirar exclusivamente a ser mães e gestoras do lar. Outras, no entanto, sequer têm sua humanidade reconhecida o suficiente para que seu direito à maternidade seja preservado. Seus filhos deixam de ser crianças no momento em que saem do ventre -não à toa, crianças pretas são percebidas como mais velhas do que realmente são, ao contrário de crianças brancas. A distorção de percepção de idade é compartilhada, inclusive, pelas forças policiais. São crianças sem infância e que, portanto, podem ser criadas sem mãe.
Resta saber se em casa Adriana continuará contando com a força de trabalho das duas babás vistas subindo no helicóptero de Sérgio Cabral quando ele ainda era governador. No final das contas, são mulheres como elas que muitas vezes perdem a oportunidade de criar seus próprios filhos, ainda que não estejam presas, para criar os filhos de outras -mas desse tipo de participação feminina na vida doméstica o presidente não fala. Para ter direito a ser mãe e à prisão domiciliar é necessário, como Adriana, poder parecer bela, recatada e do lar. (Alessandra Orofino) 

Reforma política mal-passada.
Após a Polícia Federal espetar a JBS na Carne Fraca não dá mais para ignorar que empresas suspeitas de corromper funcionários públicos investiram R$ 1,2 bilhão (corrigida a inflação) na eleição de 2014. E isso só pelo caixa 1. É mais da metade de tudo o que foi doado oficialmente por grandes financiadores (quem deu mais do que R$ 2 milhões) para candidatos a presidente, governador, senador, deputado federal e estadual.
Tampouco dá para esquecer que esses grandes doadores alvos da Lava Jato e de outras operações policiais colocaram largas somas nas campanhas de praticamente todos os partidos grandes e médios, além de alguns nanicos: PT, PSDB, PMDB, PP, PSD, PR, PSB, PC do B, PDT, PRB, PTB, SD, PROS, DEM, PSC, PV, PTN, entre outros. A cor dos partidos não importava, só a do dinheiro.
Em regra, o tamanho do investimento seguiu as regras de qualquer negócio: foi proporcional à chance de retorno. O valor recebido pelas legendas em 2014 acompanhou o favoritismo de seus candidatos nas eleições majoritárias. PT e PSDB ganharam mais que o resto porque foram ao segundo turno na corrida presidencial. A mesma lógica foi aplicada às proporcionais. Eduardo Cunha foi o candidato a deputado federal do PMDB que mais arrecadou porque era barbada para presidir a Câmara.
Como mestres no retorno do capital investido, esses grandes financiadores espetados pela PF tiveram muito sucesso nas eleições. Juntos, ajudaram a eleger pelo menos metade da Câmara dos Deputados. Graças ao investimento bem sucedido de R$ 55 milhões em 2014, não há partido com bancada maior que a da JBS, por exemplo. Não discrimina ninguém: tem quem virou ministro do governo Temer, como os da Justiça e da Saúde, tem líderes da oposição petista e tem até outsiders tipo Jair Bolsonaro.
Embora o Supremo Tribunal Federal tenha aberto a porteira para considerar ilegal também as doações recebidas pelo caixa 1 oficial, o fato de um parlamentar ou governante ter recebido dinheiro de doadora que esteja metida na Lava Jato ou em outra operação policial não o torna automaticamente suspeito de nada. Nem mesmo quem recebeu de quatro ou cinco empresas investigadas, como é o caso de alguns deputados. Pode ser coincidência.
Também vale ressalvar que frigoríficos estão em grau de cozimento diferente dos empreiteiros. Uns são condenados confessos, outros estão sob investigação. Podem ser inocentados.
Feitas as ressalvas, o fato é que quem bancou a maior parte das campanhas eleitorais de praticamente todos os partidos em 2014 está encrencado com a polícia, com a Justiça ou com ambas. E essa encrenca está diretamente ligada às relações dessas empresas financiadoras da política com o poder público: seja para ganhar concorrências, seja para evitar fiscalização.
O dinheiro dos espetados foi tão determinante no resultado de 2014 que as doações empresariais acabaram proibidas em 2016. Com o argumento de que a proibição estimulou o caixa 2 e favoreceu os ricos, master chefs de todos os Poderes articulavam o retorno do financiamento empresarial em 2018. Mas isso foi antes de sentirem o cheiro de churrasco da Carne Fraca. Agora, o menu de mudanças da legislação eleitoral e partidária deve mudar.
Multiplicação bilionária dos pães no mal-fiscalizado Fundo Partidário e o voto em lista para o Legislativo entraram no cardápio. Juntas, essas medidas dão poder inédito aos donos dos partidos. Eles poderão ditar quem se elege e com quanto.
É a receita para afastar de vez a clientela das urnas, piorar ainda mais a reputação da política e estimular curandeiros e suas poções milagrosas. Os ingredientes desse cozidão eleitoral já estão na panela. Só falta acender o fogo. (Jose Roberto de Toledo) 

Universidades em vez de aeroportos.
Nunca é demais repetir episódios da vida de Voltaire. Jean Marie Arouet, na flor de seus vinte anos, foi para Paris, onde logo se lançou como cronista de costumes. Ao saber que o Regente da França, empenhado em promover a contenção de gastos, havia decidido vender a metade das cavalariças reais, escreveu que melhor seria livrar-se da metade dos asnos que rodeavam o trono.
Num domingo, passeando pelo Bois de Boulogne, o monarca deparou-se com Voltaire e disse: monsieur Arouet, vou proporcionar-lhe uma visão de Paris que o senhor desconhece. A guarda real aproximou-se e levou o cronista para a Bastilha, onde ficou preso por quase um ano.
Amigos intercederam, o jovem foi perdoado e Felipe ainda o gratificou com razoável pensão mensal, para que pudesse prover suas despesas com alimentação e habitação.
Voltaire agradeceu por carta, acentuando que ficava feliz pela preocupação do Regente com sua alimentação, mas quanto à habitação, não se preocupasse, pois ele mesmo a proveria.
Seguiu-se nova ordem de prisão e o cronista fugiu para a Inglaterra.
A historinha se conta a propósito de nosso Regente haver privatizado quatro aeroportos e comemorado o sucesso da venda a empresas estrangeiras. Bem que Michel Temer poderia ter feito diferente e, em vez de alienar patrimônio público, por que não transformar os quatro aeroportos em universidades abertas, à disposição de estudantes carentes? Melhor teria sido o investimento, em especial porque o dinheiro a ser recebido pelo governo logo sairá pelo ralo, sem nenhum proveito para a recuperação nacional. (Carlos Chagas) 
O ser humano é um peregrino. É só na aparência que ele tem uma geografia. (Nélida Pinon)

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