22 de jul de 2014

Votar diz o TSE, mas em quem, revida o povo…

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Aécio já é o favorito para vencer as eleições, dizem especialistas 

Para o cientista político Fábio Ostermann, empate técnico veio muito antes do que ele imaginava; diretor da Nomura Securities vê Aécio crescer nos próprios tropeços de Dilma.

O cenário que se desenhou nas últimas duas pesquisas Datafolha eSensus não apresentaram boas notícias para Dilma Rousseff. Apesar de, no primeiro turno, ela e seus adversários ainda apresentarem movimentos ainda dentro da intenção de voto, quando colocado num cenário de segundo turno a diferença entre a presidente atual e os seus principais adversários caiu drasticamente.

O Datafolha mostra bem essa dinâmica: se em fevereiro a simulação do 2º turno colocava Dilma com 54% das intenções de voto contra 27% de Aécio Neves (PSDB), na pesquisa divulgada semana passada esse placar mudou para 44% x 40% - considerando a margem de erro de dois pontos percentuais, caracteriza-se como um empate técnico. No cenário contra Campos, Dilma aparece com 45% ante 38% do governador pernambucano, enquanto o número era de 55% contra 23% em fevereiro. O quadro se repetiu no Sensus divulgado no final de semana, que apontou empate técnico entre Dilma e Aécio por 36,3% a 36,2% no segundo turno.

Fábio Ostermann, cientista político pela norte-americana Universidade de Georgetown e pela alemã International Academy for Leadership, afirmou que o empate técnico do segundo turno veio muito antes do que ele imaginava, porque o candidato do PSDB ainda é desconhecido por quase 25% do eleitorado. A força de Aécio vem ainda sendo intensificada pela incapacidade de Eduardo Campos, o outro candidato da oposição, que segue preso na mesma taxa de intenção de voto no primeiro turno de um ano atrás, diz Ostermann, ressaltando que Campos está quase empatado com o Pastor Everaldo (PSC), levando em conta a margem de erro.

Já para o diretor executivo e chefe de pesquisas para mercados emergentes das Américas na Nomura Securities, Tony Volpon, Aécio é favorito dada a incapacidade de Dilma de dar uma sinalização aos agentes econômicos. E isso contribui para a piora dos cenários econômicos, um dos grandes motivos para a maior rejeição da atual presidente. Segundo modelo da Nomura, Dilma tem 60% de chances de perder as eleições para qualquer adversário, e no seu cenário político o tucano é o favorito. Acho que a nova pesquisa Datafolha vai em linha com a nossa visão, afirma Volpon em entrevista ao InfoMoney.

Para Ostermann, só um fato muito catastrófico mudaria o fato que vai ter um segundo turno entre a atual presidente, Dilma Rousseff, e Aécio Neves. Em relação ao resultado final das eleições, o Aécio está caminhando para confirmar o favoritismo, mas o cenário ainda é incerto, pois a candidata do PT tem mais que o dobro do tempo de televisão. No entanto, por conta da força das redes sociais, o impacto do tempo de televisão vai diminuir muito em relação às eleições passadas, afinal, as pessoas não procuram mais esse tipo de informação na TV sendo que já é bombardeada diariamente por esse assunto na internet todos os dias, explicou o cientista.

Dilma tá mal? Devia estar pior

Por isso, tanto para a Nomura quanto para Ostermann, a presidente deveria estar ainda pior nas pesquisas. Ela está levando uma surra que ainda não está totalmente refletida no resultado das pesquisas, pois, se estivesse, ela já estaria perdendo do Aécio, disse Ostermann.

Para o cientista político, também tem que ser levado em consideração o fato de que faz quatro anos que a Dilma está em campanha, enquanto o Aécio começou para valer duas semanas atrás. Para ele, como boa parte do eleitorado brasileiro não faz sinapses aprofundadas na hora de decidir o voto, mas sim faz sua escolha baseada no reconhecimento de quem já está lá, isso tenderia a prejudicar a oposição. Contudo, hoje existe uma sensação generalizada de que o governo atual não é bom, e por isso a queda de aprovação de seu governo é consistente, com desgaste mesmo dentro do seu eleitorado, afirma Ostermann.

Essa é a maior oportunidade da oposição dada pelo PT nos últimos 12 anos. Isso vai quebrar o que é muito difícil de ser quebrado no Brasil, que é o favoritismo de quem está no poder, concluiu o cientista.

Após a pesquisa Sensus, que mostrou uma distância mínima entre Dilma e Aécio, o diretor da Sensus, Ricardo Guedes, destacou ainda a avaliação positiva do governo Dilma Rousseff, que recuou de 34,2% em junho para 32,4% agora. Segundo Guedes, este patamar de aprovação torna muito difícil a reeleição de Dilma. Outro ponto de preocupação da candidatura Dilma é o seu elevado nível de rejeição junto aos eleitores: 42,4%.

Dilma evita campanha de rua 

Enquanto os principais candidatos de oposição, Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB), investem pesado em viagens pelo país para se tornarem conhecidos, a presidente Dilma Rousseff tem evitado a campanha de rua e aposta suas fichas na propaganda eleitoral na TV, que começa em 19 de agosto.

Para assessores palacianos, houve um vácuo de comunicação nos primeiros anos do governo que será suprido pelos programas produzidos pelo marqueteiro João Santana e pela ampla vantagem que Dilma terá na divisão da propaganda eleitoral - ela ficará com quase 50% do tempo total.

A ideia do comando petista é mostrar ao telespectador as realizações da gestão, como a organização da Copa do Mundo no Brasil. Dilma também deve dar mais entrevistas a jornalistas.

A avaliação é que uma campanha mais eletrônica poupa a presidente de fatos negativos e constrangimentos que um evento de rua poderia trazer, como vaias.

O que queremos é uma campanha sem barulho, em um ambiente com controle, explica um interlocutor.

Auxiliares palacianos citam como modelo a campanha de Fernando Henrique Cardoso à reeleição, em 1998, quando houve exposição intensa na televisão associada a uma campanha do medo.

Na época, o tucano investiu na ameaça da volta da inflação caso não fosse reeleito. Agora, o discurso do PT é que, se os tucanos ganharem a eleição, programas sociais implantados pelos governos Lula e Dilma serão extintos.

Menos escalas

Integrantes do comitê presidencial preveem menos viagens, quase metade comparado a 2010, e vão explorar ao máximo compromissos da Dilma presidente, como na semana que passou, em que ela recepcionou vários chefes de Estado.

Sem poder inaugurar obras, a campanha petista costura uma agenda presidencial na semana que vem para mantê-la em evidência.

Ainda na carona da Copa do Mundo, está previsto um encontro com o Bom Senso Futebol Clube, movimento que reúne atletas em busca de melhorias no futebol brasileiro, e uma possível viagem ao Rio para visita a obras da futura Vila Olímpica, que funcionará nas Olimpíadas de 2016.

Oposição

Aécio e Campos têm percorrido o país com dois objetivos principais. O primeiro é tornar-se conhecido do eleitorado local por meio de entrevistas a rádios, TVs e jornais. O segundo é reunir boas imagens para a produção dos respectivos programas de TV.

A quinta e sexta da semana passada foram um exemplo: em visita a São Luís (MA) e Natal (RN), Campos deu entrevista a quatro TVs locais e uma rádio, além de ter reunido a imprensa das duas cidades em duas coletivas.

Aécio também tem percorrido o país com o objetivo de se mostrar mais do que um ex-governador de Minas.

As três campanhas avaliam que mudanças relevantes nas pesquisas de intenção de voto só serão possíveis após o início do horário eleitoral e da cobertura diária dos presidenciáveis pelos telejornais da TV Globo, emissora líder em audiência, prevista para começar no dia 4. (Folha) 

Pastor Malafaia investe contra o PT 

Há uma máxima que diz: Se é bandido, é burro, e a corja petista, cujos cardeais estão encarcerados, não foge a esta regra.

Mas chega a ser comovente o nível de estupidez do partido, que resolveu perseguir o maior líder evangélico do Brasil, o Pastor Silas Malafaia. Vejam, no vídeo a sarna que o partido da burrice extrema conseguiu para si mesmo. (AC) 

Malafaia versus PT Silas Malafaia decidiu partir para cima do PT em seu programa de TV que vai ao ar logo mais. O pastor vai acusar o partido de perseguição política por colocar a Receita Federal para investigá-lo. Em quase quinze minutos de vídeo, Malafaia revela que desde 2013 o Fisco brasileiro abriu seguidos procedimentos para investigar a Associação Vitória em Cristo, instituição comandada pelo pastor. Mesmo com uma das investigações finalizada sem encontrar qualquer irregularidade nas contas da igreja e outros negócios, a Receita - acusa Malafaia - fazia novas investidas na Associação, muitas vezes solicitando documentos idênticos aos pedidos anteriormente. Eis algumas frases de um Malafaia indignado com o PT: - Quer me investigar, me investigue. Dizer que pastor é ladrão é fácil. - Vou dar uma sugestão ao governo do PT. Por que não manda investigar o filho do Lula que era um pobre rapaz (…) e hoje é um milionário? - A cúpula deste partido está na cadeia na maior roubalheira da história deste país. (Lauro Jardim, Veja)
O correto uso do papel higiênico... 

Lembram-se daquele texto Gramsci e a Comunização do Brasil?

Pois é: O PT apóstata jamais pensou em implantar o Comunismo por aqui como, erradamente pensam alguns! Afinal, não são bobos! Só estão, sutilmente e estrategicamente, sem armas e sem sangue, transformando o nosso País em uma Ditadura Legal, com o entorpecimento de todos e com o consequente distanciamento entre governantes e governados e a completa dominação de nossas Instituições e de nossa sociedade!... Conforme pregava Gramsci!...

A propósito: está aí abaixo, uma explicitação concreta dessa questão, sob a extraordinária pena do grande escritor, João Ubaldo, falecido em 18/07! Como prevê João Ubaldo, deveremos ter, em breve, uma Medida Provisória para regular o uso do papel higiênico, em duas versões: uma para os homens e outra para as mulheres!...E, talvez, até um novo Ministério, para cuidar desse importante assunto! 

E tem mais: agora que estamos recebendo os mirabolantes textos da Campanha Dilma Muda Mais, (ué , vão mudar essa maravilha de governo cantada aos sete ventos?), é sempre oportuno lembrar-se daquele dito: 

...Mentiras e mais mentiras repetidas e repetidas, acabam se tornando verdades... (Márcio Dayrell Batitucci) 

Última crônica de João Ubaldo: O correto uso do papel higiênico.

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O título acima é meio enganoso, porque não posso considerar-me uma autoridade no uso de papel higiênico, nem o leitor encontrará aqui alguma dica imperdível sobre o assunto. Mas é que estive pensando nos tempos que vivemos e me ocorreu que, dentro em breve, por iniciativa do Executivo ou de algum legislador, podemos esperar que sejam baixadas normas para, em banheiros públicos ou domésticos, ter certeza de que estamos levando em conta não só o que é melhor para nós como para a coletividade e o ambiente. Por exemplo, imagino que a escolha da posição do rolo do papel higiênico pode ser regulamentada, depois que um estudo científico comprovar que, se a saída do papel for pelo lado de cima, haverá um desperdício geral de 3.28%, com a consequência de que mais lixo será gerado e mais árvores serão derrubadas para fazer mais papel. E a maneira certa de passar o papel higiênico também precisa ter suas regras, notadamente e no caso das damas, segundo aprendi outro dia, num programa de tevê.

Tudo simples, como em todas as medidas que agora vivem tomando, para nos proteger dos muitos perigos que nos rondam, inclusive nossos próprios hábitos e preferências pessoais. Nos banheiros públicos, como os de aeroportos e rodoviárias, instalarão câmeras de monitoramento, com aplicação de multas imediatas aos infratores. Nos banheiros domésticos, enquanto não passa no Congresso um projeto obrigando todo mundo a instalar uma câmera por banheiro, as recém-criadas Brigadas Sanitárias (milhares de novos empregos em todo o Brasil) farão uma fiscalização por escolha aleatória. Nos casos de reincidência em delitos como esfregada ilegal, colocação imprópria do rolo e usos não autorizados, tais como assoar o nariz ou enrolar um pedacinho para limpar o ouvido, os culpados serão encaminhados para um curso de educação sanitária. Nova reincidência, aí, paciência, só cadeia mesmo.

Agora me contam que, não sei se em algum Estado ou no País todo, estão planejando proibir que os fabricantes de gulodices para crianças ofereçam brinquedinhos de brinde, porque isso estimula o consumo de várias substâncias pouco sadias e pode levar a obesidade, diabete e muitos outros males. Justíssimo, mas vejo um defeito. Por que os brasileiros adultos ficam excluídos dessa proteção? O certo será, para quem, insensata e desorientadamente, quiser comprar e consumir alimentos industrializados, apresentar atestado médico do SUS, comprovando que não se trata de diabético ou hipertenso e não tem taxas de colesterol altas. O mesmo aconteceria com restaurantes, botecos e similares. Depois de algum debate, em que alguns radicais terão proposto o Cardápio Único Nacional, a lei estabelecerá que, em todos os menus, constem, em letras vermelhas e destacadas, as necessárias advertências quanto a possíveis efeitos deletérios dos ingredientes, bem como fotos coloridas de gente passando mal, depois de exagerar em comidas excessivamente calóricas ou bebidas indigestas. O que nós fazemos nesse terreno é um absurdo e, se o Estado não nos tomar providências, não sei onde vamos parar.

Ainda é cedo para avaliar a chamada lei da palmada, mas tenho certeza de que, protegendo as nossas crianças, ela se tornará um exemplo para o mundo. Pelo que eu sei, se o pai der umas palmadas no filho, pode ser denunciado à polícia e até preso. Mas, antes disso, é intimado a fazer uma consulta ou tratamento psicológico. Se, ainda assim, persistir em seu comportamento delituoso, não só vai preso mesmo, como a criança é entregue aos cuidados de uma instituição que cuidará dela exemplarmente, livre de um pai cruel e de uma mãe cúmplice. Pai na cadeia e mãe proibida de vê-la, educada por profissionais especializados e dedicados, a criança crescerá para tornar-se um cidadão modelo. E a lei certamente se aperfeiçoará com a prática, tornando-se mais abrangente. Para citar uma circunstância em que o aperfeiçoamento é indispensável, lembremos que a tortura física, seja lá em que hedionda forma - chinelada, cascudo, beliscão, puxão de orelha, quiçá um piparote -, muitas vezes não é tão séria quanto a tortura psicológica. Que terríveis sensações não terá a criança, ao ver o pai de cara amarrada ou irritado? E os pais discutindo e até brigando? O egoísmo dos pais, prejudicando a criança dessa maneira desumana, tem que ser coibido, nada de aborrecimentos ou brigas em casa, a criança não tem nada a ver com os problemas dos adultos, polícia neles.

Sei que esta descrição do funcionamento da lei da palmada é exagerada, e o que inventei aí não deve ocorrer na prática. Mas é seu resultado lógico e faz parte do espírito desmiolado, arrogante, pretensioso, inconsequente, desrespeitoso, irresponsável e ignorante com que esse tipo de coisa vem prosperando entre nós, com gente estabelecendo regras para o que nos permitem ver nos balcões das farmácias, policiando o que dizemos em voz alta ou publicamos e podendo punir até uma risada que alguém considere hostil ou desrespeitosa para com alguma categoria social. Não parece estar longe o dia em que a maioria das piadas será clandestina e quem contar piadas vai virar uma espécie de conspirador, reunido com amigos pelos cantos e suspeitando de estranhos. Temos que ser protegidos até da leitura desavisada de livros. Cada livro será acompanhado de um texto especial, uma espécie de bula, que dirá do que devemos gostar e do que devemos discordar e como o livro deverá ser comentado na perspectiva adequada, para não mencionar as ocasiões em que precisará ser reescrito, a fim de garantir o indispensável acesso de pessoas de vocabulário neandertaloide. Por enquanto, não baixaram normas para os relacionamentos sexuais, mas é prudente verificar se o que vocês andam aprontando está correto e não resultará na cassação de seus direitos de cama, precatem-se.


Risco à paz mundial 

O presidente russo Vladimir Putin empurra o mundo para o limiar de um conflito bélico ao financiar separatistas no leste da Ucrânia. Seus comandados abateram um avião com 298 a bordo.

Grandes guerras começam por motivos bem menos graves do que a derrubada de um avião civil com 298 pessoas a bordo, como ocorreu na semana passada nos céus da Ucrânia. Todos os indícios levantados até agora apontam para milicianos separatistas treinados e monitorados por tropas russas. Eles têm domínio territorial sobre a área de onde, como comprovam fotos de satélites, decolou o míssil supersônico que atingiu em cheio o Boeing 777 da Malaysia Airlines - a mesma companhia que há meses teve um jato idêntico misteriosamente desaparecido nas águas do Oceano Índico.

Grandes guerras começam também por agressões desse tipo, muitas vezes feitas por acidente ou engano. Pode ser essa a explicação para o ataque fatal ao avião da Malaysia Airlines que fazia o voo MH17, de Amsterdã a Kuala Lumpur. Desde que se apoderaram de baterias de mísseis antiaéreos Buk, de fabricação russa, e foram treinados para usá-los por monitores enviados por Moscou, os separatistas vinham tendo crescente sucesso em derrubar aviões inimigos naquela região. Cada disparo certeiro era comemorado em russo nas redes sociais frequentadas pelos separatistas.

Na quinta-feira passada, logo depois do desaparecimento do Boeing 777 da Malaysia Airlines, um oficial russo encarregado por Moscou de dar ajuda aos separatistas ucranianos, jubilante, postou durante algumas horas apenas o registro de mais um avião abatido. O oficial julgava tratar-se de um An-26 - Antonov turboélice de transporte de tropas e carga - da Força Aérea da Ucrânia. Não era. O avião abatido foi o Boeing 777 com quase 300 civis inocentes de várias nacionalidades a bordo. Na véspera, quarta-feira 16, os separatistas tinham celebrado na internet a derrubada de um Su-25 ucraniano. Esse anúncio continua lá. O relativo ao An-26 sumiu rapidamente. Foi a primeira tentativa dos russos e seus aliados na Ucrânia de apagar a marca do crime.

Felizmente, no mundo de hoje, as nações contam com redes de prevenção de grandes guerras bem mais eficientes do que as existentes no século passado, quando nas duas deflagrações bélicas mundiais somadas morreram quase 80 milhões de pessoas. Mas, apesar de todos os mecanismos de segurança atuais, pode-se dizer sem muita margem de erro que a derrubada do Boeing 777 civil na região fronteiriça entre a Ucrânia e a Rússia, na semana passada, é a mais grave ameaça à paz mundial neste século. A indignação que eu sinto neste momento não pode ser descrita com palavras, disse Barack Obama, na última sexta-feira. O presidente americano só não construiu a frase responsabilizando diretamente Moscou pelo atentado. Nem precisava, pois Obama, valendo-se dos eufemismos e despistes de que a linguagem diplomática se nutre, disse a mesma coisa de outra maneira ao aprofundar ainda mais as sanções econômicas à Rússia que a Casa Branca havia decretado antes do disparo letal do míssil.

No epicentro dessa zona de morte e instabilidade encontra-se Vladimir Putin, o presidente russo, que usa o expansionismo como forma de propaganda política interna e, assim, vem conseguindo índices elevados de apoio popular. Na semana passada, enquanto o mundo assistia atônito ao aparecimento de uma prova atrás da outra de que os russos tinham envolvimento direto na operação que matou quase 300 passageiros inocentes, a taxa de aprovação de Putin batia seu recorde histórico, com 83%. Adoração interna e desaprovação externa é uma receita desastrosa. Os líderes que enveredam por esse caminho oferecem perigo ao seu povo e ao mundo.

Quando os corpos foram encontrados despedaçados no chão na Ucrânia, Putin acabava de chegar a Moscou, vindo do Brasil, onde participou de uma cúpula do grupo dos Brics - Brasil, Rússia, índia, China e África do Sul. Na segunda-feira 14, a presidente Dilma Rousseff encontrou-se com Putin depois da reunião e disse: Somos reconhecidos por nossa atuação autônoma no plano internacional em favor de um mundo mais justo, mais próspero e pacífico. Resta saber agora como os presidentes dos países reunidos sob a sigla Brics reagirão a essa tragédia. Como enfatiza a Carta ao Leitor desta edição, eles não podem simplesmente ignorar o massacre de civis patrocinado por um país-membro: Se os integrantes do grupo dos Brics fingirem que não viram o crime e passarem a mão na cabeça do companheiro Putin, estarão se condenando ao fracasso ético e moral, justamente o que destrói as chances de sucesso em todos os outros campos.

Em março, Putin enviou soldados mascarados e sem distintivo no uniforme para a Península da Crimeia, parte da Ucrânia. Os homenzinhos verdes, como ficaram conhecidos, expulsaram soldados dos quartéis, ocuparam prédios públicos e canais de televisão. Putin dizia que não tinha participação na empreitada. Ainda assim, anexou a Crimeia.

No fim de março, deu medalhas aos que participaram da ação. Simultaneamente, milhares de soldados foram enviados pela Rússia para o leste da Ucrânia. O objetivo era conseguir mais um naco de território ou, na impossibilidade disso, dificultar ao máximo que o país seguisse o caminho bem-sucedido de outros Estados europeus, que saíram da esfera soviética, abraçaram a democracia e o livre mercado e se distanciaram da autocracia e do estatismo russo. Os Estados Unidos e a Europa impuseram sanções econômicas para punir Putin pelo avanço à margem da lei internacional. O efeito foi nulo. Os camaradas antiamericanos o que farão de concreto agora que a derrubada do avião da Malaysia Airlines vai se tornando impossível de escamotear? Qualquer controlador de voo treinado sabe distinguir na tela do radar um avião civil de um militar, diz o engenheiro sueco Mikael Robertsson, fundador do site FlightRa-dar24, que acompanha o tráfego aéreo comercial ao redor do planeta. O sistema russo de mísseis Buk é dotado de radar e receptor de sinais de transponder, que diferenciam claramente os tipos de aeronave. Putin estava feliz no Brasil. Ele está claramente usando a América Latina como uma frente contra os Estados Unidos, diz a cientista política ucraniana Lilia Shevtsova, do Carnegie Endowment, em Moscou. Aos seus amigos tropicais agora só restam duas opções: agem por princípio e isolam Putin ou se rendem ao pragmatismo e entram em uma guerra que não é deles. 

As marionetes de Putin

A diretora da Human Rights Watch em Moscou diz que o presidente russo usa o americano Edward Snowden como instrumento de propaganda e agora faz o mesmo com os Brics. O escritório de Moscou da ONG Human Rights Watch (HRW), que defende os direitos humanos no mundo, tem sido constantemente atacado nos últimos dois anos. Uma suástica já foi pintada na sua fachada, telefones foram grampeados e funcionários receberam ligações ameaçadoras. Quem está por trás disso é o serviço secreto russo, segundo a diretora da ONG na Rússia Tanya Lokshina, de 41 anos e um filho de 18 meses. Na semana passada, ela esteve em São Paulo enquanto o presidente russo Vladimir Putin se reuniu com os chefes de Estado na VI Cúpula dos Brics, em Fortaleza e Brasília. 

Veja - Na nota divulgada pela Cúpula dos Brics aparece o conceito de inclusão social. Putin pode se gabar disso? 
O que ele tem feito na Rússia é a exclusão social. Após protestos contra o seu governo em 2012, o presidente dividiu a sociedade em dois grupos: os que estão com ele e os que estão contra ele. Quem vive quieto, não participa de manifestações e não o critica pode fazer muita coisa. Muito mais do que era permitido na União Soviética. Viajar, ler os livros que quiser e ir a eventos. Mas, se um indivíduo expõe seu descontentamento com o Kremlin em público, então se põe imediatamente em perigo. É como se a União Soviética caísse em cima dele. Desde a volta da democracia não se via uma repressão tão grande contra a liberdade de expressão e contra as organizações da sociedade civil. Não há canais de televisão independentes, pessoas são presas apenas por protestar, blogueiros são obrigados a se registrar no Ministério das Comunicações e sites têm sido fechados sem nenhuma justificativa decente. 

Veja - Em meados do ano passado, a Rússia concedeu asilo ao americano Edward Snowden, que revelou documentos secretos do governo americano. Não seria isso uma prova de que Putin valoriza os direitos humanos e a liberdade de expressão? 
Eu encontrei Snowden no Aeroporto Sheremetyevo, de Moscou. Um dia antes, recebi o convite por e-mail, assinado por ele. Apesar de a minha área de pesquisa ser outra, já sabia de quem se tratava. Pouco antes eu ajudei a redigir uma declaração da HRW em que dizíamos ser importante existir uma proteção aos whistleblowers (dedos-duros, em inglês), como Snowden. Achávamos que, se ele fosse extraditado, seria muito provável que acabasse sendo exposto a um tratamento desumano. Mas eu não dei muita bola para aquele convite estranho e fui para casa. No dia seguinte, meus telefones começaram a tocar sem parar. Então, descobri que tinha sido incluída em uma lista de convidados, de várias organizações, para participar de um encontro com o americano. 

Veja - Snowden organizou isso de dentro do aeroporto? 
Certamente, não. Foi então que comecei a suspeitar do envolvimento do serviço secreto russo. O anúncio da tal reunião foi feito por um advogado de alto perfil e muito leal ao Kremlin. Ao olhar os nomes dos convidados, ficava claro que a lista tinha sido feita pelas autoridades russas. Snowden podia conhecer a HRW e a Anistia Internacional, mas não todos os que estavam ali. Entre eles, havia três advogados muito ligados a Putin, um parlamentar e dois membros de gongos, um acrônimo para definir aquelas ONGs que se dizem independentes mas só fazem propaganda do governo (go-vernment organized non-governamental organization, em inglês). 

Veja - Foi um encontro proveitoso? 
Havia centenas de jornalistas no aeroporto. Quanto me apresentei, eles me passaram pelo cordão de isolamento e fui levada com outros convidados para a pista. Era claramente uma operação especial do serviço secreto. Por um momento, achei que iam mandar todos para a Venezuela e fiquei com medo. Por sorte, isso não aconteceu. Um homem com roupas civis e dirigindo um ônibus nos levou para outro terminal. Subimos as escadas e entramos em um salão. Snowden nos esperava em uma mesa, com um tradutor. O mestre de cerimônias era outro funcionário do serviço secreto. Foi surreal. Tudo era extremamente bem organizado, como numa coletiva de imprensa, mas sem um único jornalista. Depois entendi que o objetivo de tudo aquilo era legitimar a presença de Snowden na Rússia e preparar o terreno para darem o asilo a ele. Com minha presença lá, queriam que o público internacional visse com bons olhos o que fariam em seguida. 

Veja - Então Snowden trabalha com o serviço secreto desde que chegou ao aeroporto de Moscou? 
Para o governo russo, a presença dele é um trunfo. Putin está usando esse americano como uma ferramenta de publicidade. Ao mostrar que acolhe um perseguido da CIA, a agência de inteligência americana, Putin quer dizer que promove a liberdade de expressão. É algo muito peculiar. Há alguns meses, Putin apareceu em público para responder a perguntas da população. Em tese, qualquer um pode interrogá-lo. Na realidade, as questões são previamente filtradas. É um ritual que dura três horas e que Putin adora. Snowden apareceu no Skype e perguntou: Senhor presidente, há alegações de que o governo russo está vigiando seus habitantes assim como a CIA faz com os americanos. Isso é verdade?. O presidente respondeu que não era assim, obviamente. Parecia combinado.

Veja - Putin também poderia estar usando a presidente Dilma Rousseff como instrumento de propaganda, assim como faz com Snowden?

Essa comparação não é muito apropriada porque a brasileira está em situação muito melhor que a do americano. Ela não depende do governo russo como ele. Snowden, por sua vez, está há um ano sem trabalho. Não tem nada para fazer nem para onde ir. Não está preso, mas é como se estivesse. Quando quiseram saber dele se queria fazer alguma pergunta ao presidente Putin, disse logo que sim. Outros fariam a mesma coisa. Mas, sim, Putin está se aproveitando dos Brics para se projetar como líder global. Por causa da anexação da Península da Crimeia, em março, e dos conflitos com separatistas no leste da Ucrânia, americanos e europeus impuseram sanções contra ele. Putin então veio ao Brasil buscar respeito e reconhecimento.

Veja - O que mais ele quer?
Putin quer exportar a ideia de que a soberania nacional prevalece sobre a universalidade dos direitos humanos. É esse um dos motivos pelos quais ele usa os Brics. No caso da Rússia, o princípio da não ingerência externa é relativo. Putin é contra qualquer ação na Síria, governada pelo seu aliado Bashar Assad, mas invadiu militarmente a Península da Crimeia e a anexou. A Rússia, portanto, é contra a interferência externa só quando seus amigos estão no poder, mas se dá o direito de fazer o que bem entende com outros países quando julga que os interesses russos estão sendo ameaçados. Putin tem procurado especialmente o apoio de Dilma, já que o Brasil é uma democracia relevante. Mas o histórico russo na área de direitos humanos é extremamente complicado e não deveria ser ignorado. Na semana passada, o governo brasileiro teve nas mãos uma oportunidade excelente para conter Putin em sua escalada autoritária. Sem nenhum obstáculo à sua frente, ele deverá continuar subjugando as entidades civis e usando como bem entende, e com sucesso, o Brasil e as autoridades brasileiras para alcançar os seus próprios interesses.

Veja - É fácil entender o que Putin ganha com um encontro dos Brics. Mas e o Brasil?
A aprovação do presidente russo passou dos 80% neste ano. Dilma provavelmente inveja isso, mas Putin só consegue esse índice porque na Rússia não há liberdade de expressão. Não é portanto um modelo que possa ser copiado. O Brasil é uma sociedade aberta e democrática, com uma imprensa plural. Os brasileiros expressam suas opiniões sem medo. Na Rússia, isso não existe. Não há debate público. (Revista Veja)

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