26 de ago de 2013

Brasil, façamos uma reflexão....

Coisa 
• A palavra coisa é um bombril do idioma. Tem mil e uma utilidades. É aquele tipo de termo-muleta ao qual a gente recorre sempre que nos faltam palavras para exprimir uma ideia. Coisas do português. 
• A natureza das coisas: gramaticalmente, coisa pode ser substantivo, adjetivo, advérbio. Também pode ser verbo: o Houaiss registra a forma coisificar. E no Nordeste há coisar: Ô, seu coisinha, você já coisou aquela coisa que eu mandei você coisar?
• Coisar, em Portugal, equivale ao ato sexual, lembra Josué Machado. Já as coisas nordestinas são sinônimas dos órgãos genitais, registra o Aurélio. E deixava-se possuir pelo amante, que lhe beijava os pés, as coisas, os seios (Riacho Doce, José Lins do Rego). Na Paraíba e em Pernambuco, coisa também é cigarro de maconha. Em Olinda, o bloco carnavalesco Segura a Coisa tem um baseado como símbolo em seu estandarte.
• Alceu Valença canta: Segura a coisa com muito cuidado / Que eu chego já. E, como em Olinda sempre há bloco mirim equivalente ao de gente grande, há também o Segura a Coisinha
• Na literatura, a coisa é coisa antiga. Antiga, mas modernista: Oswald de Andrade escreveu a crônica O Coisa em 1943. A Coisa é título de romance de Stephen King. Simone de Beauvoir escreveu A Força das Coisas, e Michel Foucault, As Palavras e as Coisas.
• Em Minas Gerais, todas as coisas são chamadas de trem. Menos o trem, que lá é chamado de a coisa. A mãe está com a filha na estação, o trem se aproxima e ela diz: Minha filha, pega os trem que lá vem a coisa!
Devido lugar 
Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça (...). A garota de Ipanema era coisa de fechar o Rio de Janeiro. Mas se ela voltar, se ela voltar / Que coisa linda / Que coisa louca. Coisas de Jobim e de Vinicius, que sabiam das coisas. Sampa também tem dessas coisas (coisa de louco!), seja quando canta Alguma coisa acontece no meu coração, de Caetano Veloso, ou quando vê o Show de Calouros, do Silvio Santos (que é coisa nossa). 
Coisa não tem sexo: pode ser masculino ou feminino. Coisa-ruim é o capeta. Coisa boa é a Juliana Paes. Nunca vi coisa assim! Coisa de cinema! A Coisa virou nome de filme de Hollywood, que tinha o seu Coisa no recente Quarteto Fantástico. Extraído dos quadrinhos, na TV o personagem ganhou também desenho animado, nos anos 70. E no programa Casseta e Planeta, Urgente!, Marcelo Madureira faz o personagem Coisinha de Jesus
Coisa também não tem tamanho. Na boca dos exagerados, coisa nenhuma vira coisíssima. Mas a coisa tem história na MPB. 
• No II Festival da Música Popular Brasileira, em 1966, estava na letra das duas vencedoras: Disparada, de Geraldo Vandré (Prepare seu coração / Pras coisas que eu vou contar), e A Banda, de Chico Buarque (Pra ver a banda passar / Cantando coisas de amor), que acabou de ser relançada num dos CD triplos do compositor, que a Som Livre remasterizou. Naquele ano do festival, no entanto, a coisa tava preta (ou melhor, verde-oliva). E a turma da Jovem Guarda não tava nem aí com as coisas: Coisa linda / Coisa que eu adoro.
Cheio das coisas 
• As mesmas coisas, Coisa bonita, Coisas do coração, Coisas que não se esquece, Diga-me coisas bonitas, Tem coisas que a gente não tira do coração. Todas essas coisas são títulos de canções interpretadas por Roberto Carlos, rei das coisas. Como ele, uma geração da MPB era preocupada com as coisas. Para Maria Bethânia, o diminutivo de coisa é uma questão de quantidade (afinal, são tantas coisinhas miúdas). Já para Beth Carvalho, é de carinho e intensidade (ô coisinha tão bonitinha do pai). Todas as Coisas e Eu é título de CD de Gal. Esse papo já tá qualquer coisa... Já qualquer coisa doida dentro mexe. Essa coisa doida é uma citação da música Qualquer Coisa, de Caetano, que canta também: Alguma coisa está fora da ordem
• Por essas e por outras, é preciso colocar cada coisa no devido lugar. Uma coisa de cada vez, é claro, pois uma coisa é uma coisa; outra coisa é outra coisa. E tal coisa, e coisa e tal. O cheio de coisas é o indivíduo chato, pleno de não-me-toques. O cheio das coisas, por sua vez, é o sujeito estribado. 
• Gente fina é outra coisa. Para o pobre, a coisa está sempre feia: o salário-mínimo não dá pra coisa nenhuma. 
• A coisa pública não funciona no Brasil. Desde os tempos de Cabral. Político quando está na oposição é uma coisa, mas, quando assume o poder, a coisa muda de figura. Quando se elege, o eleitor pensa: Agora a coisa vai
• Coisa nenhuma! A coisa fica na mesma. Uma coisa é falar; outra é fazer. Coisa feia! O eleitor já está cheio dessas coisas! Coisa à toa.
• Se você aceita qualquer coisa, logo se torna um coisa qualquer, um coisa-à-toa. Numa crítica feroz a esse estado de coisas, no poema Eu, Etiqueta, Drummond radicaliza: Meu nome novo é coisa. Eu sou a coisa, coisamente. E, no verso do poeta, coisa vira cousa
• Se as pessoas foram feitas para ser amadas e as coisas, para ser usadas, por que então nós amamos tanto as coisas e usamos tanto as pessoas? Bote uma coisa na cabeça: as melhores coisas da vida não são coisas. Há coisas que o dinheiro não compra: paz, saúde, alegria e outras cositas más. 
• Mas, deixemos de coisa, cuidemos da vida, senão chega a morte ou coisa parecida, cantarola Fagner em Canteiros, baseado no poema Marcha, de Cecília Meireles, uma coisa linda. Por isso, faça a coisa certa e não esqueça o grande mandamento: amarás a Deus sobre todas as coisas
 • Entendeu o espírito da coisa? (Francicarlos Diniz)

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O Analista de Sistemas e a Engenheira 
• Um analista de sistemas meio introvertido finalmente conseguiu realizar o sonho da sua vida: um cruzeiro. 
• Era a coisa mais doida que tinha feito até então. Estava começando a desfrutar da viagem quando um furacão virou o navio como se fosse uma caixa de fósforos...
• O rapaz conseguiu agarrar-se a um salva-vidas e chegar a uma ilha aparentemente deserta e muito remota.
• Deparou-se com uma cena belíssima: cachoeira, bananas, coqueiros... mas quase nada além disso. Ele se sentiu desesperado e completamente abandonado. 
• Vários meses se passaram, até que um belo dia apareceu, remando, uma belíssima engenheira, daquelas de fazer parar o trânsito. 
• A engenheira começou logo uma conversa: - Eu sou do outro lado da ilha. Você também estava no cruzeiro? 
• - Estava! Mas onde conseguiu esse bote? 
• - Simples: eu sou engenheira e usei meus conhecimentos! Tirei alguns galhos de árvores, sangrei umas seringueiras, defumei até virar borracha, reforcei os galhos e fiz a quilha e os remos com madeira de eucalipto. 
• - Mas..... com que ferramentas? 
• - Bom, achei uma camada de material rochoso, evidentemente formado por aluviões. Descobri que esquentando esse material a certa temperatura, ele assumia uma forma muito maleável. Mas chega disso! Onde você tem vivido esse tempo todo? Não vejo nada parecido com um teto... 
• - Para ser franco, eu tenho dormido na praia..... 
• - Gostaria de ver a minha casa? 
• O analista de sistemas aceitou, meio sem jeito. 
• A engenheira remou com extrema destreza ao redor da ilha. Quando chegou no seu lado, amarrou a canoa com uma corda que mais parecia uma obra-prima de artesanato. 
• Os dois caminharam por uma passarela de pedras e madeira construída pela engenheira, e depararam, atrás de um coqueiro, com um lindo chalé construído sobre palafitas, pintado de azul e branco. Não é muito, disse ela, mas eu o chamo de meu lar. Já dentro, ela procurou deixá-lo à vontade: - Sente-se, por favor! Aceita um drinque? 
• - Não, obrigado! Não aguento mais água de coco! 
• - Mas não é água de coco! Eu tenho um alambique meio rudimentar lá fora, de forma que podemos tomar Piñas coladas autênticas! 
• Tentando esconder a surpresa, o analista de sistemas aceitou. 
• Sentaram no sofá dela para conversar. 
• Depois de contarem suas histórias, a engenheira perguntou: - Você sempre teve barba? 
• - Não.. Toda a vida eu andei bem barbeado. 
• - Bom, se quiser se barbear, tem uma navalha lá em cima, no armarinho do banheiro. 
• O homem já não perguntava mais nada. Subiu uma escada em caracol e foi em cima, no banheiro, e fez a barba com um complicado aparelho feito de osso e conchas, tão afiado quanto uma navalha. A seguir, tomou um bom banho, sem nem querer arriscar palpites sobre como ela tinha água quente no banheiro. Desceu sem poder deixar de se maravilhar com o acabamento do corrimão.
• - Você ficou ótimo! Vou lá em cima também me trocar por algo mais confortável. 
• Nosso herói continuou bebericando sua piña colada.
• Em instantes a engenheira estava de volta, com um delicioso perfume de gardênias e vestindo um estonteante e revelador robe, muito bem trabalhado em folhas de palmeira. Bom, disse ela, ambos temos passado um longo tempo sem qualquer companhia... Você não tem se sentido solitário? Há alguma coisa de que você sente muita saudade? Que lhe faz muita falta e da qual todos os homens e mulheres precisam? 
• - Mas é claro, disse ele esquecendo um pouco a sua timidez. Tem uma coisa que venho querendo todo esse tempo. Até sonho com isso à noite. Mas... aqui nesta ilha... sabe como é... era simplesmente impossível. 
• - Bom, ela disse com um sorriso maroto, já não é mais impossível, se é que você me entende... 
• O rapaz, tomado de uma excitação incontrolável, disse, quase sem fôlego: - Não acredito! Você não está querendo me dizer que... bolou um jeito de acessar a Internet daqui da ilha?

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