7 de mar de 2012

Nunca estamos sós!

• Ainda menino já conhecia tanta gente. Ainda que fosse do tipo tímido, algo me impelia a buscar junto da família ou de cada pessoa, adentrava casas de vizinhos, queria senti-los e sorver o que tinham de bom, abastecer o ego, secar lágrimas que surgiam sempre do nada, não tristezas, mas sensações de dor e amor.
• Minha saudosa e querida mãe, como todas, se preocupava com isso e me levava a médicos e eles diagnosticavam o que eu não entendia e sabia serem incorretos.
• Quando nas casas de religião me encontrava, pessoas me sorriam, “gentes outras”, e tipos de paz em mim cobriam, lágrimas não surgiam: eu estava entre tantos e por tantas causas.
• Muitos não entenderão e até duvidarão. Haviam elos indecifráveis e a medida que junto dos meus amiguinhos de rua e bairro ficava, mais e mais percebia diferenças nas índoles e se mostravam, como se diz hoje, de caras limpas.
• Existia um deles que me botava no chinelo em timidez. Tinha de ser muito solicitado e insistentemente o colocávamos em nossas rodas e ele reagia tipo robô. Aquilo me perturbava.
• Um dia, de volta da escola, decidi passar na casa dele. Bati e a mãe dele apareceu. Como me conhecia, mandou-me entrar e perguntou o motivo da visita. E eu respondi que queria ver meu amigo. Naquele momento, ela passou a mão em minha cabeça, puxou-me contra si e murmurou: ele acaba de morrer ainda a pouco meu filho!
• Eu não entendia esse sentido Morte, ouvi tantas vezes dos mais velhos, lia nos muitos livros de meu pai, jornais e nas telas dos cinemas. Estranho, muito estranho!
• Ela, por uma questão de amor, indagou se eu queria vê-lo, ao que respondi que sim.
• Entrei no quarto e lá estava ele, todo arrumadinho, roupa branca como se fosse a primeira comunhão. Olhei seu corpo esticado, sua pele branca e um silêncio que foi sendo quebrado de porta se abrindo, fechando e pessoas chegando.
• Me ajoelhei ao pé da cama, como fizera quando da morte do meu avô, e rezei de um modo diferente.
• E vi então que ele se levantava, sentava e com as mãos sobre mim me dizia: - Obrigado, você sempre me entendeu!
• Mas era aquilo mesmo que aconteceu? Como de um sonho, meus olhos se abriam mais, como acordar e deparei com ele deitado.....morto.
• Aprendi ali que a Morte existe sim, mas a Vida não acaba.
• Viver é algo tão palpável que não se dá conta da sua importância, das dúvidas, do nascer e morrer, do ser bom, sensível, prestativo, honesto e amigo.
• Dali em diante eu me modifiquei mais ainda. Sabia que pela frente teria grandes momentos de dificuldades, e tinha a certeza que aquele amiguinho e tantos outros estariam comigo me ensinando a ser também diferente, um sensitivo e caminhante nas minhas e estradas dos outros, ajudando e me doando, até que morra e renasça em caminhadas se assim for permitido. (AAndrade)

Um comentário:

Bete disse...

Saudades daqui.
Bjs no coração.