10 de set de 2011

Colhendo o que plantou

Lula deixou uma herança maldita: para não passar por conivente, Dilma teve de demitir
companheiros.
• Como disse aqui na ocasião em que Lula deixava o governo, não pretendia voltar a escrever sobre ele. Principalmente porque deixava o governo. Sucede que não se sabe ao certo se ele o deixou e, se o deixou, atua como se não o tivesse deixado -outro dia inaugurou um hospital na Bahia- e se preparasse para reassumi-lo de fato em 2014.
• Infelizmente não dá para falar bem dele, mesmo porque o que me traz de volta ao tema é, por um lado o que ele anda fazendo e dizendo e, por outro, a avaliação que a distância dele me possibilitou.
• Não tenho prazer nenhum em falar mal de ninguém, particularmente quando se trata de uma figura nacional em quem tanta gente acredita. Pode parecer má vontade ou rancor, mas não é nada disso.
• Penso como simples cidadão, atento ao que fazem os políticos e às consequências disso na sociedade. Tanto mais se esse político tem o peso e a influência de um líder como Lula.
• Basta ver o que conseguiu quando presidente da República, usando de carisma, habilidade e falta de escrúpulos para montar uma máquina de poder difícil de enfrentar.
• Não discuto a legitimidade de um partido ou de um líder pretender governar o país por mais de um mandato ou voltar ao poder, já que a lei o permite. A meu juízo, quanto mais alternância, melhor, já que dificulta a manutenção de feudos no organismo do Estado. Se a permanência prolongada já oferece esse risco, tanto pior é quando se trata de um partido ou líder pouco confiáveis.
• E, se meu juízo a respeito de Lula já não era bom, o distanciamento e a revelação de novos fatos só vieram agravá-lo.
• Lula é, sem dúvida, um fenômeno. Poucos líderes possuem, como ele, tanta sagacidade aliada à falta total de escrúpulos. Hoje entendo por que Brizola, referindo-se a ele, disse que era capaz de pisar no pescoço da mãe. Com isso, não quis apontá-lo como um sujeito de temperamento violento, e sim destituído de qualquer compromisso com os valores morais. Só lhe importa o poder. De modo que, para conquistá-lo e mantê-lo, tudo vale.
• Não me esqueço da expressão que vi no olhar de Lula, em 2005, quando eclodiu o escândalo do mensalão: era um misto de pavor e perplexidade. Fui traído, afirmou então, tentando safar-se, e o conseguiu, jogando a culpa sobre seus auxiliares imediatos. Pouco depois, dizia que o mensalão era uma espécie de caixa dois. Hoje afirma que tudo não passou de uma conspiração para tirá-lo do poder. Isso muito embora o procurador-geral da República tenha aceito denunciar 34 dos 40 acusados no processo.
• Esse é o Lula, que se apropriou dos programas do seu antecessor, muito embora tudo tenha feito para impedir que fossem implantados. Forçado pelas circunstâncias, rendeu-se à aliança com o PMDB, mas manteve o pacto com a arraia miúda, já não a troco de grana, mas de cargos públicos e vista grossa para a corrupção que, em seu governo, se instalou nos ministérios.
• Enfim, posso ter hoje uma compreensão melhor de quem é Lula e quais os seus propósitos.
• Ele é produto deste momento histórico, quando o fim dos partidos comunistas e o revolucionarismo guerrilheiro abriu caminho para líderes neopopulistas que, arvorando-se em defensores dos pobres, negociam com os ricos a paz social em troca de apoio material e político.
• É o que Lula fazia como presidente, aliando o discurso antiamericano à oferta de empréstimos subsidiados do BNDES a grandes empresários. Se estava de acordo com as falcatruas praticadas por seus nomeados, pouco importava. Fez que de nada sabia, como convinha.
• Eis a herança maldita que ele deixou para Dilma: para não passar por conivente, teve ela de demitir dezenas de companheiros, envoltos em falcatruas.
• No entanto, para ficar bem com os partidos da base, diz que a demissão dos corruptos não é faxina, que lembra sujeira. Aliás, corrupção também mudou de nome: agora se chama malfeitos, como traquinagens de crianças... Haja eufemismos! E logo da parte de Dilma, que é a finesse em pessoa.
• Mas os escândalos não param e em apenas oito meses. Já imaginou o que acontecerá em quatro anos? O lulismo está colhendo o que plantou.
• Independentemente do nome que Dilma dê a isso, talvez seja o começo do fim da aventura neopopulista, a que o país foi arrastado nestes últimos oito anos. (Ferreira Gullar, no jornal Folha de São Paulo, 04.09.2011)
Um estudante de Taiwan escreveu esta história sem palavras. E nos deixa sem palavras!

Um comentário:

Mery disse...

Olá, Sensitivo.
Adorei te encontrar, e estou ainda emocionada por ver o vídeo, esse do pai e filho, lembrei-me logo do meu e choro ao escrever isso,...
Porque a vida é tão dura e injusta, Senhor?
Vi o vídeo abaixo também, concordo com a tua indignação, sou uma carioca,, "professora revoltada" com a situação do meu Estado em relação à segurança e tanto descaso com a Educação enfim, tantas coisas mais.
Você tem um blog muito especial, está escondido, talvez não o divulgues muito, eu sempre virei aqui e espero vc lá no meu também.
Bjus da Mery.Obrigada!!!!