24 de ago de 2011

Do Perdão

A Última Tentação
Dizem que Jesus, na hora extrema, começou a procurar os discípulos, no seio da agitada multidão que lhe cercava o madeiro, em busca de algum olhar amigo em que pudesse reconfortar o espírito atribulado...
Contemplou, em silêncio, a turba enfurecida.
• Fustigado pelas vibrações de ódio e crueldade, qual se devera morrer, sedento e em chagas, sobre um montão de espinhos, começou a lembrar os afeiçoados e seguidores da véspera...
• Onde estariam seus laços amorosos da Galiléia?...
• Recordou o primeiro contacto com os pescadores do lago, e chorou.
• A saudade amargurava-lhe o coração.
• Por que motivo Simão Pedro fora tão frágil? que fizera ele, Jesus, para merecer a negação do companheiro a quem mais se confiara?
• Que razões teriam levado Judas a esquecê-lo? como entregara, assim, ao preço de míseras moedas, o coração que o amava tanto?
• Onde se refugiara Tiago, em cuja presença tanto se comprazia?
• Sentiu profunda saudade de Filipe e Bartolomeu, e desejou ouvi-los.
• Rememorou suas conversações com Mateus e refletiu quão doce lhe seria poder abraçar o inteligente funcionário de Cafarnaum, de encontro ao peito...
De reminiscência a reminiscência, teve fome da ternura e da confiança das criancinhas galiléias que lhe ouviam a palavra, deslumbradas e felizes, mas os meninos simples e humildes que o amavam perdiam-se, agora, a distância...
• Recordou Zebedeu e suspirou por acolher-se-lhe à casa singela.
• João, o amigo abnegado, achava-se ali mesmo, em terrível desapontamento, mas precisava socorro para sustentar Maria, a angustiada Mãe, ao pé da cruz.
• O Mestre desejava alguém que o ajudasse, de perto, em cujo carinho conseguisse encontrar um apoio e uma esperança...
• Foi quando viu levantar-se, dentre a multidão desvairada e cega, alguém que ele, de pronto, reconheceu. Era o mesmo Espírito perverso que o tentara no deserto, no pináculo do tempo e no cimo do monte.
• O Gênio da Sombra, de rosto enigmático, abeirou-se dele e murmurou:
- Amaldiçoa os teus amigos ingratos e dar-te-ei o reino do mundo! proclama a fraqueza dos teus irmãos de ideal, a fim de que a justiça te reconheça a grandeza angélica, e descerás, triunfante, da cruz!... Dize que os teus amigos são covardes e duros, impassíveis e traidores, e unir-te-ei aos poderosos da Terra para que domines todas as consciências. Tu sabes que, diante de Deus, eles não passam de míseros desertores...Jesus escutou, com expressiva mudez, mas o pranto manou-lhe mais intensamente do olhar translúcido.
• - Sim - pensava -, Pedro negara-o, mas não por maldade. A fragilidadade do apóstolo podia ser comparada à ternura de uma oliveira nascente que, com os dias, se transforma no tronco robusto e nobre, a desafiar a implacável visita dos anos. Judas entregara-o, mas não por má-fé. Iludira-se com a política farisaica e julgara poder substituí-lo com vantagem nos negócios do pvo.
• Encontrou, no imo dalma, a necessária justificação para todos e parecia esforçar-se por dizer o que lhe subia do coração.
Ansioso, o Espírito das Trevas aguardava-lhe a pronúncia, mas o Cordeiro de deus, fixando os olhos no céus inflamado de luz, rogou em tom inesquecível: - Perdoa-lhes, Pai! Eles não sabem o que fazem!...
• O Príncipe das Sombras retirou-se apressado.
• Nesse instante, porém, ao invés de deter-se na contemplação de Jerusalém dominada de impiedade e loucura, o Senhor notou que o firmamento rasgara-se, de alto a baixo, e viu que os anjos iam e vinham tecendo de estrelas e flores o caminho que o conduziria ao Trono Celeste.
• - Uma paz indefinível e soberana estampara-se-lhe no semblante.
• O Mestre vencera a última tentação e seguiria, agora, radiante e vitorioso, para a claridade sublime da ressurreição eterna. (Irmão X)
Photobucket O coração mais belo que pulsou entre os homens respirava na multidão e seguia só. Possuía legiões de Espíritos angélicos e aproveitou o concurso de amigos frágeis que o abandonaram na hora extrema. Ajudava a todos e chorou sem ninguém. Mas, ao carregar a cruz no monte áspero, ensinou-nos que as asas da imortalidade podem ser extraídas do fardo de aflição, e que, no território moral do bem, alma alguma caminha solitária, porque vive tranquila na presença de Deus. (Albino Teixeira, do livro Idéias e Ilustrações, Francisco Cândido Xavier)

Nenhum comentário: