8 de set de 2010

Jovens no fim da escola

Candidatos prometem mais escolas técnicas, mas pouco tratam do descalabro geral do ensino médio e científico entre os insultos, espionagens mafiosas e demagogias repulsivas da campanha, se ouve falar de ensino técnico. É um dos temas mais recorrentes além da conversa genérica de melhorar a saúde, distribuir mais dentaduras, cirurgia de varizes ou coisa que o valha. Nada contra bons dentes ou reparos no sistema circulatório. O problema é a pobreza cômico-paroquial da conversa dos candidatos. Mas, enfim, tratava-se aqui de ensino técnico.
Apenas 10% dos estudantes do ensino médio estão em escolas também profissionalizantes, ditas técnicas. Em 2001, eram só 5%. Os eleitores dizem em pesquisas dos comitês de campanha que querem mais escolas técnicas.
Os jovens estão angustiados. Dois terços dos desempregados têm menos de 30 anos.
É óbvio o boom da conversa sobre ensino profissional. Os formados em escolas técnicas acham mais trabalho. As escolas públicas técnicas são na média um pouco melhores que as comuns. Enfim, muita gente não quer se dar à despesa e ao trabalho, muita vez inútil, de cursar uma faculdade particular, que pode não render um emprego tão bom como o de um técnico.
A grande bomba demográfico-escolar do país é a dos graduados no ensino médio. O número de formandos no ensino fundamental é 34% maior, mas os jovens do ensino médio estão entre o fim da linha na escola e, despreparados, à procura de trabalho, que talvez conciliem com a faculdade ruim ou mal-cursada.
O número de brasileiros com 11 anos de estudo, o equivalente ao ensino médio, cresceu quase 2 milhões em 2006, quase a mesma coisa em 2008, último dado oficial disponível. Segundo o instituto de pesquisas do Ministério da Educação, o número de formados no ensino médio em 2008 foi de quase 1,8 milhão. Aqueles de nós que passaram mais de 12 anos na escola, os que ao menos chegaram ao ensino superior, aumentaram apenas 1,4 milhão nesses mesmos anos. Onde vão parar os garotos que saíram do colegial e não foram para a faculdade?
Aparentemente, há por volta de 500 mil jovens que não seguem os estudos no ensino superior. A discrepância já foi maior. Entre 2002 e 2003, o ensino médio era um beco sem saída para 1 milhão de jovens.
O que farão os garotos? Trabalharão no pequeno comércio? Como secretários? Em telemarketing? Não podem todos virar motoboys, que aliás se multiplicam de modo aberrante porque tanto a infraestrutura como a educação são uma porcaria.
Sim, decerto as coisas já foram piores, mas ainda não melhoraram. Em 1995 apenas 24% dos jovens entre 15 e 17 anos estavam no ensino médio ou tinham oito anos de estudo. Em 2002 eram 43%. Em 2007, 52% - ainda uma tragédia.
Ensino técnico custa mais caro. E de onde sairão os professores? Apenas 25% dos professores de física do ensino médio estudaram física; só 34% dos professores de matemática cursaram matemática. Essa catástrofe não afeta apenas o progresso do ensino básico. Como são preparados os estudantes, aliás ainda poucos, que se destinam a carreiras em ciência e engenharia?
Os candidatos prometem não mexer nas aposentadorias, nem no Bolsa Família; vão gastar mais em ambulatórios, remédios, trem-bala, pré-sal, em estradas ruins, nos estádios da Copa etc. E em escolas técnicas. Não vai dar para todo mundo. (Vinícius Torres Freire)

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