8 de jun de 2010

Não engane a Mãe Natureza

Imagem do vazamento de petróleo no Golfo do México
Existe apenas uma resposta significativa ao horrível derramamento de petróleo no Golfo do México, e é os Estados Unidos pararem de embromar quando se trata de definir o futuro de sua energia e do meio ambiente. A única resposta significativa a esse desastre provocado pelo homem é um projeto de energia feito pelo homem que finalmente estabeleça uma infraestrutura de energia limpa para colocar o país em um caminho real e de longo prazo no sentido de acabar com nosso vício ao petróleo.
Isso, obviamente, é a coisa certa para nosso meio ambiente, a coisa certa para nossa segurança nacional, a coisa certa para nossa segurança econômica e a coisa certa para promover a inovação. Mas significa que temos de parar de perder tempo com a panacéia estúpida do "perfure, baby, perfure" (mote dos políticos republicanos), com os shows musicais água com açúcar do Dia da Terra e com a idéia paralisante de que o povo americano não está preparado para fazer nada sério para mudar nossa matriz energética.

Esse derramamento de petróleo é para o meio ambiente o que a bagunça das hipotecas "subprime" (de alto risco de inadimplência) foi para os mercados - ambos uma advertência e uma oportunidade de galvanizar o eleitorado para uma mudança radical que se sobreponha aos poderosos lobbies e interesses adquiridos que querem nos manter viciados no petróleo.

Se o presidente Obama quiser aproveitar este momento, só depende dele. Temos em nossas mãos um dos piores desastres ambientais da história americana. Temos um público profundamente preocupado com o que já viu - e ele provavelmente viu apenas o primeiro rolo desse filme de horror no golfo. E temos um projeto de lei para clima/energia/empregos bipartidário pronto para ser enviado ao Senado - elaborado pelos senadores John Kerry, Joe Lieberman e Lindsey Graham - que colocaria um preço sobre o carbono, daria início à nossa mudança para um sistema de combustíveis mais limpos e de maior eficiência energética e liberaria uma avalanche de capital privado para o mercado da energia limpa.

A indústria americana está pronta para agir e está basicamente dizendo a Washington: "todos os países importantes, a começar pela China, estão introduzindo regras de mercado claras e de longo prazo para estimular a energia limpa - à exceção dos Estados Unidos. Apenas nos deem algumas regras claras, e nós faremos o resto".

O projeto de Kerry, Lieberman e Graham é um passo importante nessa direção. Está longe da perfeição. Inclui apoio para mais exploração de petróleo "off-shore" (em águas profundas), energia nuclear e concessões a companhias de carvão. Diante do vazamento de petróleo, precisamos melhorar esse projeto. No mínimo, precisamos de salvaguardas muito mais apertadas para a exploração "off-shore". Haverá uma forte pressão para ir ainda mais além, mas precisamos lembrar que, mesmo se parássemos totalmente com a exploração "off-shore", tudo o que estaríamos fazendo seria transferir a produção a outras áreas fora dos Estados Unidos, provavelmente com leis ambientais ainda mais fracas.

Algum acordo precisa ser encontrado para dar impulso a esse projeto - ou algum projeto nessa direção. Mas, mesmo antes do derramamento de óleo no golfo, esse projeto estava no limbo porque a Casa Branca e os democratas do Senado quebraram uma promessa feita ao senador Graham - o republicano solitário no apoio a esse esforço - de que o polêmico projeto de imigração não fosse introduzido antes da proposta para a energia. Ao mesmo tempo, o presidente Obama demonstra um apoio tímido, temendo que, caso defenda mais firmemente a aplicação de um preço ao carbono, os republicanos irão bradar "imposto do carbono" e "imposto da gasolina" nas eleições de metade do mandato de 2010.

A questão principal: o projeto não tem chance de aprovação a menos que o presidente Obama esteja por trás dele com todo o seu poder, mobilize o público e reúna votos. Ele tem de liderar da frente, não da retaguarda. A resposta a esse derramamento de óleo pode muito bem se tornar o teste de liderança mais importante da presidência de Obama. O presidente sempre teve as intuições certas sobre energia, mas terá de decidir em que medida quer fazer frente ao desafio - criar apenas uma resposta emergencial para acabar com o derramamento por alguns meses ou uma resposta sistemática para acabar com o derramamento e colocar um fim em nosso vício ao longo do tempo. Não é necessário dizer, seria muito mais fácil para o presidente liderar se mais de um republicano no Senado estivesse disposto a mover uma palha para ajudá-lo.

Nossa dependência do petróleo tipo "crude" (petróleo de referência nos EUA) não é apenas um problema de segurança nacional ou de clima. Em torno de 40% da atividade de pesca americana vem do golfo, cujos estados também são muito dependentes do turismo litorâneo. Além disso, as Ilhas Chandeleur, na costa da Louisiana, são parte do Refúgio Nacional de Vida Selvagem de Brenton. A área foi criada por Teddy Roosevelt e é uma de nossas mais ricas fontes de biodiversidade.

Como o consultor de energia David Rothkopf gosta de dizer, algumas vezes, um problema atinge um ponto de acuidade onde restam apenas duas escolhas: ação corajosa ou crise permanente. Este é um momento semelhante para nosso sistema energético e nosso meio ambiente.

Se nos contentarmos com apenas um resposta gradativa para essa crise - um "ei, isso é a nossa democracia. O que mais vocês podem esperar?" -, iremos lamentar. Você não pode enganar a Mãe Natureza. Ela sabe quando estamos apenas enrolando. A Mãe Natureza opera conforme suas próprias "leis de ferro". E, se as violarmos, não haverá lobby ou grande doador para nos livrar do problema. O que passar terá passado. O que for destruído estará destruído. O que for extinto estará extinto - e, mais tarde, quando finalmente estivermos dispostos a parar de enrolar, será tarde demais.

Thomas L. Friedman é colunista do jornal The New York Times desde 1981. Foi correspondente-chefe em Beirute, Jerusalém, Washington e na Casa Branca (EUA). Conquistou três vezes o Prêmio Pulitzer, até que em 2005 foi eleito membro da direção da instituição. Artigo distribuído pelo New York Times News Service.

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